3% 1×02: Moedas

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Depois de muito tempo de expectativa para ver o projeto que começou no YouTube ganhar vida na Netflix, fiquei um pouco decepcionado com o piloto 3%. A ótima premissa foi um tanto quanto enfraquecida pelos diálogos expositivos, as péssimas atuações do elenco de forma geral, grandes doses do mais do mesmo em relação a ficções com futuros distópicos e figurinos que me fizeram rir e lembrar de Castelo Rá-Tim-Bum ou do lixão da Mãe Lucinda de Avenida Brasil.

Em Moedas, o segundo episódio, estas características continuam com muita força e, principalmente, as atuações um tanto quanto exageradas, canastronas e teatrais seguem incomodando. Me vi numa peça de teatro, do grupo Serenos, que fui certa vez com Camis Barbieri e a experiência foi extremamente divertida pelos motivos errados.  Apesar de o elenco na sua maioria não ter grandes nomes, fico com a impressão de que se trata de um problema de direção dos atores. Mesmo porque até João Miguel e Bianca Comparato, atores que já se destacaram em outras produções, tem momentos não tão bons na série. Entretanto, o desenrolar da trama por algum motivo me fisgou e a curiosidade para saber o que vai acontecer foi despertada.

Partir de um ponto de partida tão relevante e tão atual é uma grande força da primeira produção brasileira da Netflix. Em outubro de 2015, a organização não-governamental britânica Oxfam fez um estudo que apontou que a riqueza acumulada pelo 1% mais abastado de todo o planeta pela primeira vez se equivaleu às riquezas dos 99% restante da população mundial. Assim, o mundo de 3% (a série poderia chamar “1%”), não está tão distante do mundo real e a produção ganha um significado muito importante no sentido de nos fazer refletir sobre a questão da desigualdade social que assola o mundo todo. Fazemos parte do proletariado que sustenta um sistema fundado em privilégios e desigualdades, mas na tentativa de alcançar o sucesso individual (o Mar-Alto) ajudamos na manutenção deste sistema. Eu sou apaixonada por este tipo de premissa e histórias em que uma resistência luta contra um império estruturado e poderoso.

Em minha opinião, o grande problema de 3% está na execução. A ideia é ótima, a trama é atual, guarda equivalência com os realities shows de competição, faz referência a clássicos da literatura como 1984, Admirável Mundo Novo e Fahrenheit 451 e está na plataforma certa, uma vez que é ideal para o binge watch. Entretanto, por enquanto, 3% me passa um sentimento de mais do mesmo e talvez até uma versão do terceiro mundo de Hunger Games. A série tinha o potencial para ser como Black Mirror (guardadas as devidas proporções), em que a gente assiste e percebe que não estamos tão longe da realidade proposta, mas a falta de qualidade na produção diminui bastante este sentimento.

Os personagens são um tanto quanto previsíveis, canastrões e replicam estereótipos já vistos e revistos na TV e no cinema. Nada surpreende até aqui. 3% se apega a Hunger Games, Lost e a outras referências atuais e não tenta nada que lhe dê uma identidade própria. Além da personagem da ótima Bianca Comparato ser o Tordo da vez, Rafael soa para mim como uma espécie de Sawyer (Lost), um anti-herói que reforça a necessidade do agir em benefício próprio independente dos valores morais e da ideia de bem coletivo.

Moedas foi um episódio superior ao piloto ao meu ver e teve bons momentos, apesar de todos os defeitos da série persistirem. Logo de cara, Michele e os outros candidatos a se tornar aquele 3% vagabundo foram submetidos a uma nova prova. Desta vez, eles foram para uma espécie de Escape 60, um jogo em que o grupo precisa desvendar um mistério para sair da sala. Os grupos que erravam a solução do mistério eram imediatamente eliminados do Processo e a pressão para acertar não poderia ser maior.

A prova serviu para mostrar o quanto o Processo é rigoroso e um avulso que não fez porra nenhuma para ajudar o grupo, não tirando a bunda do sofá, foi eliminado pela falta de proatividade, quase eu numa seleção de emprego com dinâmica de grupo. Além disso, podemos ver que Fernando realmente é um cara inteligente, mas que Rafael, mesmo com as suas atitudes imorais, pode ser útil ao bem de todos. Afinal, diferente dos Jogos Vorazes, o Processo admite mais de um vencedor e a cooperação em grupo pode trazer benefícios a todos. Eu gosto muito deste tipo de jogo e me diverti com a resolução do caso. A solução envolvendo adultério, envenenamento e o sorriso no rosto de quem aplicou uma boa vingança era bem mais empolgante, mas foi interessante pensar que os produtores do Processo não associariam estes conceitos com a vida no Mar Alto. Rafael é um geniozinho, já que eu jamais conseguiria chegar na conclusão que a mulher na verdade era alérgica à prata.

3% -- Moedas
3% — Moedas

No piloto, a saída revoltada de alguns participantes me lembrou bastante as audições do saudoso American Idol ou as saídas das pretendentes de Everlasting, em que os candidatos reprovados saem fazendo um barraco sensacional. Existe todo um clima de reality show de competição na série e acho que este é um dos fatores de eu estar me divertindo bastante ao assistir uma série em que estou falando tão mal.

A segunda prova, que deu título ao episódio, foi ainda mais legal e foi impossível não lembrar de Survivor. Nela os participantes do processo tinham que decidir num determinado espaço de tempo qual deles não ficaria com uma moeda e consequentemente estaria eliminado. Rafael como espertão que é logo tratou de garantir a sua e apontar o dedo para as limitações de Fernando, tirando o seu da reta. A solução para o impasse foi algo meio que kibado de Survivor, uma vez que realizaram um sorteio, em que quem ficasse com o menor pedaço de pano estaria eliminado. Algo que me lembrou muito a dinâmica das pedras de Survivor, que determina a eliminação no meu reality favorito quando o empate persiste mais do que deveria.

Por conta do sorteio, Joana seria a eliminada, mas, como a atuação exagerada da atriz não deixa dúvida, ela é sagaz, sacana e rainha da porra toda e deixou um otário qualquer a ver navios, tomando a sua moeda para continuar viva no processo. Joana é um dos pontos que contrastam as qualidades e defeitos da série. Ela é a personagem idealizada para ser fodona e para o público amar apesar de seu comportamento imoral. Entretanto, Vaneza Oliveira, atriz que dá vida a personagem, exagera demais na canastrice e isto aliado a algumas frases de efeito faz tudo ficar cafona demais. O engraçado é que a esta falta de sutileza deu a volta para mim e embarquei no bonde de quem está se divertindo com a personagem e toda a situação. Como não rir dela fazendo sexo selvagem na cabide do banheiro enquanto uma candidata ao Processo tentava dar um cagão? Maravilhosa.

3% parece repetir a fórmula de Lost, focando num personagem por episódio e intercalando flashbacks com os acontecimentos atuais. O personagem da vez foi Fernando, o cadeirante inteligente que não quer ser definido pela sua condição física e luta para provar que é capaz de superar os outros. A questão do rótulo e do preconceito são interessantes e necessárias de serem abordadas, porém o roteiro mais uma vez pecou na falta de sutileza e ficou panfletário demais. A ideia era fazer uma crítica, mas o resultado ficou parecido com aquelas tirinhas da Turma da Mônica para informar a população a respeito da condição dos autistas. Um roteiro bem intencionado e com boas ideias, mas didático e maniqueísta demais.

Outro ponto de destaque em Moedas foi a introdução do mistério a respeito das escapadas vestido de mago / mendigo de Ezequiel. Descobrimos que, a mando do Dr. Victor do Castelo Rá-Tim-Bum, Aline está investigando o responsável pelo Processo e deve descobrir alguma bomba em breve. Seria Ezequiel um infiltrado da causa? Ou Ezequiel está tramando alguma coisa para subir na hierarquia da sociedade? Não sabemos, mas fico com a segunda hipótese, uma vez que a primeira é um tanto quanto óbvia demais.

> Entrevista com o elenco de 3%!

Este foi o segundo episódio de 3%, a primeira série brasileira original da Netflix. Estou me divertindo e pretendo acompanhar até o fim. Entretanto, esta não deve ser a produção que vai acabar com o preconceito em relação às séries nacionais, infelizmente. Precisamos assumir os erros de 3%, mas não cair no preconceito gratuito. A série é brasileira e seus defeitos não têm nada a ver com isto. Uma das minhas séries favoritas é Som e Fúria, uma produção brasileira impecável, inteligente e com um elenco excelente. 3% ainda não chegou neste nível, mas pode melhorar com o tempo. De qualquer forma, eu já estou me divertindo.

  • Carol Geaquinto

    Diogo quero te dar um beeeijo. Que review divertida, amei a referência a Survivor e não tinha passado pela minha cabeça mas tem muito a ver. Existem muito defeitos sim, mas eu acabei de acabar e digo que o saldo é bem positivo. Não me estenderei pra não dar spoiler sem querer. Ótima review, parabéns e espero que 3% encerre com um saldo positivo e a vontade de continuar acompanhando pra todo mundo.

    • diogopacheco

      Já vi até o 4 e estou gostando apesar de td. Está divertida de acompanhar. Vou continuar vendo com certeza.

  • José

    Assisti tudinho hoje numa maratona e gostei bastante do resultado geral. Não é impecável, mas tem seus momentos. No momento, tô esperando a Netflix confirmar uma segunda temporada. Aliás, é interessante ver as referências à história brasileira, inclusive nos métodos de tortura mostrados na série.

  • João Carlos

    Qualidade superior que o primeiro episódio sem dúvidas. Comete alguns erros igual ao primeiro, porem foi um episodio muito bom.
    Gostando de como as provas são executadas. Eu ja seria eliminado logo na primeira.
    Joana rainha da porra toda. Sabia que ela daria um jeito de passar na prova das moedas.

  • Igor Fernando

    Povo tá metendo o pau mas fod@-se! Eu tô adorando essa merd@! Isso q importa. Os 2 primeiros episódios passaram voando e agora vou pro terceiro. Uhuuuuu!!!

    • diogopacheco

      Igor, como vc pode ver na review, eu tenho muitas críticas em relação à série, mas adorei também. Os defeitos não prejudicaram a minha diversão. Em alguns momentos até contribuíram para ela.

  • Nabia

    A parte que mais gostei nesse episódio foi a prova. Parecia que uma sala daqueles jogos de escape onde vc tem que juntar as peças para poder saber o que aconteceu, e se livrar da sala.
    Gostei de sua comparação de Rafael com o Sawyer.
    A previsibilidade dos plots até agora tem me incomodado um pouco, mas a temática é interessante, vamos ver como se desenrolará a história ao longo da temporada.

  • Maria Fernanda Parecis Silva

    Esse figurino é muito feio! Qual é a necessidade desse buraco na manga do povo que atingiu os 3%. Quando falaram que pra chegar no Maralto tem que tomar uma vacina mágica qualquer, eu acreditei. Não precisa ficar jogando isso na minha cara o tempo todo.