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‘Um Lugar Ao Sol’ traz de volta a teledramaturgia inédita com apatia

‘Um Lugar Ao Sol’ traz de volta a teledramaturgia inédita com apatia

A obra de Lícia Manzo chega ao horário nobre para nos tirar do nosso jejum, mas com menu pouco atraente.

Podemos dizer, nos dias hoje, que a obra de Manoel Carlos envelheceu mal, azedou, perdeu quase toda sua relevância social. Mas, uma coisa não podemos tirar dele: sua capacidade impressionante de arrumar sua história em torno de um trunfo e não simplesmente jogá-lo na cara do espectador como se ele fosse a única coisa capaz de segurar a atenção do público.

Vou dar um exemplo mais específico: em Por Amor ele tinha a troca de bebês. Ele poderia começar a novela com mãe e filha grávidas, esperar meia dúzia de capítulos e fazer a troca. Mas, uma boa história precisa de embasamento para que a gente se importe com os personagens e entenda o contexto. Então, por meses, ele foi mostrando que Helena era uma mãe super protetora, Eduarda era frágil, insegura, teve um aborto, era tratada como se um bebê fosse sua única salvação; que César era um médico com uma dívida de gratidão, que Atílio tinha o sonho de ter um herdeiro… A novela passou muito tempo preparando o terreno, sem deixar nenhuma barriga, para que quando a troca acontecesse, fôssemos capazes de entender as motivações de cada um e os reflexos que aquilo provocaria em todos os núcleos.

Essa nem é uma comparação justa, porque, no fim das contas, com exceção de seu último capítulo, Por Amor foi estudada em termos de escaleta de capítulos de uma forma assustadoramente precisa. Mas, é uma comparação que parte de um princípio narrativo básico: sem envolvimento não há nenhum impacto. Até mesmo a correria cômica de Carlos Lombardi esperou alguns capítulos para fazer Babalu, Auxiliadora, Bibi e Tatiana se encontrarem e resolverem uma vingança.

Estou dizendo que Lícia Manzo vai entregar seu jogo logo de cara? Não. Essa crítica se baseia única e exclusivamente no primeiro capítulo, onde as linhas apontaram para uma questionável decisão de abordagem. Conhecida pela ausência de maniqueísmo em suas obras (coisa da qual discordo um pouco considerando o modelo de galã masculino que ela copia descaradamente de seu mentor, Maneco), Lícia decide começar Um Lugar Ao Sol deixando claro que Cristian é a inocência, com direito a óculos e hábito de leitura; enquanto Renato é o babaca que maltrata os pais, fuma e usa cabelos encaracolados. É o apogeu do estereótipo geminificado pela teledramaturgia.

Contudo, quando decide que esse primeiro capítulo vai todo pela perspectiva de Cristian, a autora lança a preocupação derradeira: E Renato? Uma troca entre eles, um encontro entre eles, só terá impacto se o público tiver tempo de construir os próprios cenários. Não é necessário fazer como Gilberto Braga que esperou demais para fazer Paula e Taís se encontrarem em Paraíso Tropical. Mas, quando Rute toma o lugar de Raquel, em Mulheres de Areia, já conhecemos como cada personagem se comporta na presença de cada uma.

A estreia de Um Lugar ao Sol foi fria, mas não pelo filtro branco estourado ou pela pressa de fazer a busca de Cris durar só um capítulo. Foi frio porque nos fez desconfiar de suas intenções como se a velocidade da luz deixasse rastros perscrutáveis. Tanto que quando Andrea Horta entrou em cena, sem obrigação nenhuma de empurrar a trama, chegou com toneladas de carisma. Porém, até então, quem é Renato? E por que raios Cris aceitaria roubar a vida de outra pessoa se ele já está ali sendo apresentado cheio de réguas morais? É provavelmente aí que está o cerne da questão, o que vai justificar essa trama e nos fazer acreditar nela.

Por enquanto, foi tudo superficial e didático. O futuro, contudo, é o da expectativa. Vamos confiar que o texto tão celebrado de Lícia dê as caras nos capítulos seguintes. Um só capítulo às vezes não diz nada sobre o que virá… e às vezes já diz tudo.