A relação simbiótica entre Virginia e Bill.
Masters os Sex começou sua terceira temporada chutando a porta da frente e nos mostrando como é possível fazer um episódio complexo e abrangente usando dois momentos diferentes (em tempo e espaço) que se alternaram e contaram a história de Parliamente of Owls: a coletiva de imprensa sobre o livro Human Sexual Response e os dias passados na casa de campo. Enquanto montávamos esse quebra-cabeça junto com o roteiro, entendemos em que pé estava não só a vida de nossos queridos personagens na passagem de tempo de quatro anos desde a season finale até aqui, mas também vislumbramos o andamento da pesquisa que revolucionou o modo com que se enxerga a sexualidade humana.
E que melhor momento para retomarmos nosso olhar sobre a narrativa de Masters of Sex que o ano de 1965, ano que compõe uma das décadas mais movimentadas e revolucionárias de nossa história ocidental contemporânea? Uma época de mudanças rápidas e simultâneas, que certamente mostraram e receberam os efeitos da pesquisa de Masters e Johnson. Uma época que urgia por tais mudanças, como se todos estivessem completamente preparados para tal.
Todo o segmento da coletiva de imprensa, tão temida pelos nossos dois pesquisadores, mostrou bem esse espírito da década de 1960. O temor misturado ao desejo pelo novo. Foi compreensível a tensão em Bill e Virginia, mas precisou a entrevista acabar para que eles percebessem que aquele era um público diferente do da universidade na primeira exposição sobre o estudo. Outros tempos, pessoas e necessidades.
Fica o destaque à discussão em torno da diminuição dos medos da mulher em relação ao sexo e sua relação tanto com o “não” como com o imaginário de um freio moral do sexo, algo que nos parece tão contemporâneo quanto na década de 1960.
Ainda falando sobre a parte da coletiva, uma das cenas mais chamativas foi a corrida de Virginia para o banheiro depois de (mais uma) mancada de Bill. Confesso que esperava esse desabafo desde o começo da série e vê-la verbalizar o modo com que o homem está integrado em todas as partes de sua vida, como se a sufocasse, foi um momento de intensa vibração de minha parte. Até por isso destaquei, na frase de abertura da review, a natureza quase simbiótica da relação Johnson-Masters. Algo que começou no profissional, tomou o pessoal e no atual status da série é quase impossível vê-los separados. Algo que é possível de se perceber quando eles parecem um casal que está junto há muitos anos (relação que contrasta muito com a de Bill e Libby).
E que mostra maior dessa relação que na casa de campo? O episódio teve um acerto monumental ao mostrar a dinâmica entre Virginia, Bill e Libby, num momento em que esta última sabe do caso de longa data, e só mantém o casamento para não perder a família. Lições “aprendidas” ao ver a distância existente entre Virginia e seus filhos.
Aliás, que uso fantástico Masters fez dos filhos nesse episódio! Bem sabemos que as séries têm dificuldades monumentais ao ter de lidar com os filhos dos protagonistas, especialmente os adolescentes. Mas os roteiros de Parliament of Owl não só nos entregou personagens sólidos e interessantes como os integrou à trama, mostrando-nos importantes observações sobre a trama.
Vimos os percalços que Bill mantém em relação à sua família e, especialmente, seus filhos. A falta de tato do homem e sua aversão às pessoas, mesmo as mais próximas, reverberou com força no pequeno John, que anseia pela atenção do pai ao ponto de imitá-lo como um modo de formar algum tipo de ligação.
A sequência em que Bill fica prestes a agredir fisicamente seu filho foi uma resposta à leitura profunda que fizemos dele durante a segunda temporada, onde vimos os traumas em relação aos abusos do pai. E foi com tristeza que percebemos que ele acabou, de certa forma, se tornando aquilo que mais odiou.
Enquanto isso, Virginia sofre as consequências do afastamento de seus filhos. O temor pela rebeldia de Tessa e o medo de perder Henry na Guerra do Vietnã, que seduzia os jovens que ansiavam por uma definição na vida – a abordagem do recrutamento foi muito bem escrita – a atingiram em cheio como consequência de ter deixado a guarda com George.
Libby ficou bem no meio do fogo cruzado, tomando para si, além de seus próprios filhos, os cuidados pelos de Virginia, como se ela fosse a razão entre a relação dos dois pesquisadores. Mesmo seu afastamento de Bill – porque ela não está dando corda nenhuma para ele – não tirou a moça do turbilhão que é estar ao redor da dupla Johnson-Masters. A cena em que eles chegam à casa de campo e tudo vira uma gritaria desatada em poucos segundos é um símbolo disso.
Em um discurso semelhante ao do banheiro, Libby viu a infiltração de Virginia em todos os aspectos de sua vida. A sequência da dança de hula e o nítido incômodo de Libby em ver mais uma pessoa amada sendo conquistada pela outra.
Mesmo assim, não vemos ódio por parte de Libby. Isso foi visto principalmente na cena em que ela conta para Virginia que seu casamento já acabou há muito tempo, ainda que ela tenha optado por manter os papéis assinados. Cena que foi premiada com o lindo beijo entre as duas moças, onde Libby tenta responder à pergunta que certamente a deixa inquieta: qual o segredo de Virginia Johnson afinal?
Parliament of Owls foi uma premiere redonda, que não ignorou o clima da década de 1960, reproduzindo-o no interior e exterior dos personagens. Um começo excelente para uma temporada que promete ser e fazer revolução.
Notas finais:
– Masters sempre abraçando questões históricas importantes. Na segunda temporada vimos um enfoque na segregação racial. Agora estamos diante das consequências da Guerra do Vietnã para os jovens norte-americanos; lembrando que 1965 foi o ano em que os EUA começou a enviar tropas para esse guerra;
– E talvez a segregação racial não vai deixar de ser um ponto de discussão nessa temporada, já que Libby está cada vez mais envolvida com essa luta;
– E vamos mergulhar completamente na Revolução Sexual da década de 1960;
– Destaque fantástico à caracterização de época nos figurinos e cenários dessa temporada. Já sinto meu pé na década de 1960;
– A quem interessar possa: a música que tocou incansavelmente durante esse episódio foi You Belong To Me de Patsy Cline;
– Desnecessário dizer, mas só porque não me canso: Gini e Libby voltaram ainda mais divas;
– Bill controlando a vida acadêmica de Gini: mais um item da lista “como ser um idiota”;
– Espero Virginia ficar grávida desde a primeira temporada. Não foi realmente uma surpresa. Mas, como tudo apresentado nessa premiere, essa gravidez vai virar tudo de cabeça para baixo;
– O Filipe Degani, titular das reviews de Masters of Sex no Série Maníacos, não poderá fazer as reviews dos três episódios iniciais dessa temporada por motivos profissionais. Ele me entregou a custódia provisória de nossa amada Gini, pedindo que eu cuidasse dela com carinho e que lhe dedicasse toda a minha atenção. Então darei o máximo de mim para entregar o melhor trabalho que puder, fazendo jus ao pedido do Degani. Espero que apreciem o trabalho;
PS – A 3ª temporada de Masters of Sex estreia oficialmente nos EUA dia 12 de julho.












