Seven!

Provavelmente seria mais adequado iniciar este texto falando sobre o início da incrível trama da gravidez de Phoebe. E farei isso, claro, afinal nada em Friends me dá mais alegria do que assisti a essa personagem e escrever sobre ela. Mas a verdade é que The One With Phoebe’s Utterus (“Aquele sobre o Útero da Phoebe”) é um dos raríssimos episódios em que absolutamente todos os arcos são extremamente acertados, e arrisco dizer que duvido que algum deles tenha saído das mentes dos fãs, mesmo depois de todos esses anos.

Quero dizer, atire a primeira pedra (ou faça o primeiro comentário me desmentindo) aquele que tenha visto a imagem que ilustra esta review e não se lembrado perfeitamente da cena à qual ela pertence. O arco com Monica ensinando Chandler a fazer sexo com sua namorada (quão irônico é isso?) é um dos vários momentos antológicos de Friends. O pobre amigo tinha a difícil tarefa de substituir Joey na cama, e não podemos culpá-lo pela latente insegurança que o fez adiar a transa com Kathy durante um tempo.

Eu imagino até os roteiristas pensando em todos os truques que usaram para driblar a censura da TV aberta, como o uso do verbo “concordar”, os números representando as zonas erógenas (cuja principal utilidade, no fundo, foi utilizar “seven” como uma inteligentíssima metáfora) e o repentino esvaziamento da sala, com cada um dos personagens indo para o cômodo mais adequado para ficar “à vontade” sozinho. Não que o sexo seja um grande tabu em Friends, mas não me lembro de nenhuma outra sitcom adicionando tão bem a dose certa de humor para abordar o assunto de forma tão explícita e implícita, tudo ao mesmo tempo.

Rachel, que não teve muita função nesse episódio, acabou sendo aproveitada como uma excelente coadjuvante, deixando escapar alguns de seus fetiches, como “de cabeça pra baixo” e dedões dos pés.  Apesar de a personagem não ter sido essencial para o arco, dá para dizer que ele teria perdido metade da graça sem ela (o que o tonaria apenas “muito bom” em vez de “épico”). A cara de triunfo de Monica quando Kathy chega para demonstrar desesperadamente sua gratidão também fecha o episódio de uma forma perfeita.

Ross e Joey, enquanto isso, se veem envolvidos em uma luta de classes no museu onde o primeiro trabalha e o segundo acabara de arranjar um emprego como guia. A batalha entre jalecos versus ternos azuis é muito boa, e um daqueles momentos em que o bom coração de Joey acaba levando outros personagens a transformarem-se em pessoas melhores. Aconteceu com Ross, e também aconteceu com a engraçadíssima Rhonda, coadjuvante que acabou marcando e mostrando-se indispensável a essa pequena trama.

Por último, e sem dúvida mais importante, temos um dos momentos mais especiais da trajetória de Phoebe em toda a série. The One With Phoebe’s Utterus marca o início de uma história que só foi criada porque Lisa Kudrow ficou de fato grávida, mas acabou provando que David Crane e Marta Kauffman conseguem acertar em cheio até quando improvisam. Frank Jr. e Alice, que com apenas um episódio já se tornaram um casal xodó pra mim, retornam para pedir um presente de casamento nada convencional: o útero de Phoebe, que se tornaria a barriga de aluguel para o bebê. Para quem estava pensando em dar uma saladeira, Phoebe foi definitivamente pega de surpresa. Destaque para o retorno dos beijos calientes do casal. É impossível não rir – mesmo que já estejamos esperando por isso – quando Phoebe abraça os dois e os solta para descobri-los se amassando loucamente no sofá do Central Perk.

Aconselhada – e muito bem aconselhada, vale dizer – pelos cinco amigos, Phoebe procura sua mãe biológica. Para tentar mostrá-la o quão difícil será abandonar um filho, Phoebe (mãe) lhe entrega um filhotinho de cão da fofíssima raça pug, que terá de ser devolvido três dias depois. Ri muito de Phoebe acompanhando os movimentos do cãozinho com a cabeça e se esquecendo de prestar atenção no discurso da mãe!

Como esperado, o tempo passa, Phoebe se apega ao cão e não quer devolvê-lo. No entanto, em uma reviravolta perfeitamente coerente com tudo o que já vimos da personagem, ela dá o filhotinho ao casal e percebe quão realizada se sente com a alegria deles. E, em um discurso extremamente emocionante e emocionado, comunica a nós, às amigas e ao próprio casal que aceita ser a barriga de aluguel. É incrível a naturalidade com que Lisa Kudrow entrega seu texto nesse momento, tocando o espectador (vulgo: eu) de uma maneira simples, mas profunda. E é claro que o timing perfeito de roteiro e direção nos dá alguns segundos para nos recuperarmos antes de entregar a sensacional piada final: “That was MY puppy!” Pobre Phoebe (mãe)!

Está aí o motivo por que Phoebe é minha personagem favorita. O humor e a loucura divertida da personagem são trabalhados com maestria pelo roteiro e pela atriz, é verdade. Mas, ao mesmo tempo, sua bondade e confiança naquilo que há de melhor das pessoas – que às vezes traz até uma ingenuidade agradável de assistir – acabam nos transmitindo algo muito bom através da tela. Phoebe é, na minha opinião, a personagem mais engraçada de Friends, mas também é quem nos proporciona certos momentos catárticos na série, momentos em que, mesmo que só por alguns segundos, voltamos a ter esperança neste duro mundo que nos cerca.

Artigo anteriorThe Lying Game – 2×09: The Grave Truth
Próximo artigoThe Simpsons – 24×14: Gorgeous Grampa
Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.