É proibido fumar.
Perigo: spoilers!
“I’ve been running. Faster than I’ve ever run. And I’ve been running my whole life.
Now it’s time for me to stop.” – The Doctor, “The Impossible Astronaut”
“End Times” talvez seja o episódio mais atmosférico de Breaking Bad. Toda a tensão da temporada estourou, as peças estão caindo e não há nada a ser feito para evitar caos. As consequências virão, cabeças vão rolar e nada será o mesmo. O diálogo reflete isso, as ações dos personagens refletem isso, o próprio título do episódio é uma alusão direta a isso, e é claro, todo o desenrolar da hora trabalha por isso. Com a trilha sinuosa estourando em alto volume e qualidade, trazendo de volta vários elementos sonoros e composições que foram recorrentes durante a temporada, os melhores momentos se dão quando o cenário apocalíptico tão prenunciado pela série não só é analisado pelos personagens, como sentido. Todo o significado emocional ali, em destaque sem qualquer palavra.
Momentos que Vince Gilligan (showrunner da série) usa para rechear o episódio, criando um emaranhado surpreendentemente apropriado de conexões inesperadas. De volta na cadeira de diretor pela primeira vez desde “Full Measure”, ele pesa um pouco a mão nos simbolismos visuais, como na imagem que antecede a abertura, com Walt pequenino e indefeso na tela, esperando a morte na porta da sua casa. Mas por outro lado, também traz um ímpeto perfeito para a função do episódio. Prendendo a câmera na face dos personagens (ele usa praticamente a mesma posição para Skyler, Gus, Jesse e Walt), Gilligan não aponta o sentimento ou indica onde ele está – apenas joga na cara e diz “Toma, vai”. O pânico do protagonista se espalhou para todos, e como diretor, ele torna isso um fato esmagador – sendo o carrasco responsável pela execução de uma sentença dada lá na premiere.
E se o espírito de “End Times” funciona tão bem, talvez seja pelos saltos de lógica que dá para atingi-lo.
Breaking Bad não é exatamente realística. Temos muitos devaneios artísticos aqui, com desertos, contrastes, metáforas, altas intenções e todo aquele bando de coisas que obviamente vem de um roteirista muito bom, muito considerado, mas ainda assim, desinteressado em documentários e vidrado em criar o seu próprio universo, uma realidade com regras. Não há nada de errado com essa intenção, televisão é boa por isso. Cinema, teatro, música, idem. Quem quiser vida, que abra a janela. Mas existe certa expectativa para manter as regras do universo em questão – e durante esse episódio, o roteiro extrapolou um pouco das suas.
Vejamos Gus, por exemplo. Ele mal apareceu durante parte dos episódios, e mesmo assim, a temporada é dele. Claramente definida e dividida por ele. Gilligan e sua equipe passaram uma qualidade absurda do personagem em um pequeno espaço absurdo de tempo. Nós, como audiência, temos certas expectativas para um “vilão” da sua estatura. Já por outro lado, o mundo da série vem chutando Jesse e Walt na cara. Quando esses dois entram em conflito com alguém estilizado como Gus, esperamos uma espécie de balanço. Gus não pode sair tão fácil agora, pois ele está atrelado às tragédias pessoais, reais de Walt e Jesse. Assim como Walt e Jesse também não podem escapar tão facilmente das mãos de alguém vendido como o gênio criminal do século. É uma questão de perceber quais resultados parecem fáceis, quais são lógicos e como eles se encaixam. Já pensou se Walt mata Gus como se estivesse matando um mosquito? Ou se Gus se livra da dupla em cinco minutos? Todos nós ficaríamos insatisfeitos, pois a série criou um padrão.
Existem vários raciocínios para a retirada do grupo no estacionamento, seja através de um Jesse nervoso entregando a sua jogada ou escutas nas casas/apartamentos. Mas em uma escala muito menor, a retirada quebra esse padrão. O momento é executado pela habilidade de Gus, soando meio falso. Uma tentativa de arrastar tempo, restabelecer uma espécie de poder à custa da lógica no momento mais conveniente possível. A saída fácil, assim por dizer – algo incomum para uma série conhecida por jogar os seus personagens em armadilhas sem ter um plano para tirá-los delas. A cena recebe o típico e belíssimo tratamento Breaking Bad, com Giancarlo Esposito achando o meio-termo ideal entre suspeita e confusão, um Walt no seu melhor estado de pânico, tentando ativar Heisenberg no tranco, um raro panorama da parte mais comercial de Albuquerque… Ainda assim, continua artificial. Aquela cena que nós vimos milhões de vezes, acontecendo de novo.
E já que estamos falando de razão, o segundo ponto mais importante do episódio (além do seu fim dos tempos central) também é problemático: o envenenamento de Brock. O season finale promete esclarecer isso, mas os saltos de lógica até agora são um pouco suspeitos. Como e quando Gus envenenou o garoto? Aliás, por que usá-lo? A série já havia estabelecido esse lado implacável da personalidade do personagem, e ainda assim, acaba parecendo frio demais para o mesmo homem que chorou à beira da piscina enquanto olhava para o sangue do parceiro morto. O mesmo homem que a série deixou implícito como responsável por salvar a vida de Hank, mandando Mike ligar para ele um minuto antes do seu atentado na perfeita (repito: perfeita) terceira temporada. Soa principalmente duvidoso quando a lógica é tão frágil, tão baseada em palpites. Em uma fala anterior, Gomez diz que o DEA não trabalhava com suposições e todo esse dilema envolvendo Brock – principalmente com a hipótese de que Walter White teria alguma relação com isso, compreensível apenas pelo estado alterado de Jesse – não deixa de ser uma suposição perigosa demais para alguém tão cauteloso como Gus. E mais: foi uma maneira de unir os protagonistas que, de tão inesperada, não conseguiu se colar por completo ao resto da história.
Mas apesar de ter sido um dos episódios sobre o qual mais reclamei, “End Times” talvez seja um dos meus favoritos da temporada. O que funciona nele não só funciona, destrói. É de parar o episódio só pra dizer: “Santos Deuses de Kobol, como essa série é boa!”. Apesar de usar Brock e Andrea como ferramentas da trama ao invés dos personagens que deveriam ser*, Aaron Paul e o roteiro da dupla Thomas Schnauz/Moira Walley-Beckett arrumam maneiras de transformar a dor de Jesse em algo real. A preocupação dele no momento não é com si mesmo, ele não internaliza tudo como antes. Seu luto precipitado toma a forma de fazer questão que o menino supere a situação, que Andrea esteja bem e que o culpado seja punido. Aqui, independente de estar no fundo do poço, progresso ainda está ocorrendo para Jesse – de uma maneira ou outra, para o bem ou para o mal.
E de um ponto de vista puramente visceral, “End Times” carrega de maneira magnífica toda a tensão da temporada– apesar dos vários pesares. Sabemos que Gomez não pode descobrir o laboratório naquele momento, sabemos que Jesse não vai matar Walt. Mas isso nunca é linguiça. As cenas são boas demais para virarem linguiça, seja por vermos Hank cutucando Gus onde dói mesmo depois de sentenciado, seja por ter toda a história daquela dupla colidindo e se unindo mais uma vez… É lindo, é excruciante, e infelizmente, é o penúltimo episódio da temporada.
Só eu que já estou com saudades?
Outras observações:
– Adoro como Saul Goodman se considera família.
– Ainda acho que o retorno triunfante de Mike vai acontecer na semana que vem. O tiroteio ocorreu há pelo menos cinco dias, ele foi essencial na jornada de Jesse durante a temporada, é a única vantagem considerável que a dupla pode adquirir contra Gus em tão pouco tempo e aposto que não iria gostar de descobrir o que aconteceu com Brock (um ou dois anos mais velho que a sua neta).
– Falando em capangas, espero do fundo do meu coração que Tyrus tenha o seu pescoço arrancado por um cachorro farejador de metanfetamina. Onde qualquer outro personagem teria demonstrado um mínimo de simpatia com a situação de Jesse (ou de tantos outros), ele apenas age como o babaca silencioso de sempre. Não ficaria surpreso se o Gus tivesse pedido pra ele matar o Brock e respondido: “Claro, quer que eu coloque o veneno no Toddynho ou no pacote de Bono?”
*- Nesse ponto, as emissoras da TV aberta possuem uma pequena vantagem contra a TV a cabo e seus programas altamente serializados, permitindo mais tempo com personagens periféricos que acabarão se tornando importantes no futuro. O número de 22 episódios permite muita coisa, desvios e pausas que não seriam possíveis com apenas 13. Não que tenha algo errado com o formato (muito pelo contrário), mas é um bom ponto a favor, e também é o motivo pelo qual comédias se beneficiam em canais abertos, por se apoiarem muito nos laços da audiência com os personagens – algo independente de trama que é realizado melhor com o seu devido tempo.
– Semana que vem é um season finale para a série, mas também é um season finale para as reviews. Quem vai amar ou odiar o episódio? Quem vai repetir pela milésima vez que a terceira temporada foi perfeita? Quem vai usar mais de 1.000 palavras para dizer “Holy shit on the tits of a dog”? Quem vai morrer? Tsc. Tantas opções…















