The Morning After não avança na história, mas deixa seus personagens brilharem.
O fato de funcionar como uma antologia cria para a dramaturgia de AHS algumas responsabilidades. A maior delas é a de tentar apresentar seus personagens e sua trama com uma pressa maior. Com 10 ou 12 episódios disponíveis para fechar um arco, a série precisa encontrar o equilíbrio perfeito entre criar narrativa e atmosfera dentro de um limite temporal que satisfaça a todos. Em quase todas as temporadas isso serviu para apresentar premières cheias de informação e com mais tempo de tela também. A pressa com o tempo foi diminuindo e Murphy começou a confiar na ideia de que o público esperaria para pegar as pontas soltas.
Apocalypse começou sem tanta ansiedade de dar todas as coordenadas, mas a ideia de um segredo escondido na relva não a protegeu de um excesso de afetação. É curioso, porque tanto em Roanoke como em Cult, os segredos estavam escondidos nos episódios do meio da temporada e mesmo com tanta audiência nas mãos, Ryan não conseguia resistir e ficava dando declarações de que “algo imenso aconteceria no episódio 5”. Ele fez a mesma coisa agora, quase como se estivesse pedindo paciência, aflito para que todos os maneirismos do enredo fossem compreendidos a medida que o disfarce da carpintaria textual perdesse sua força.
Sim, há um disfarce. Isso é fato. Se na première a necessidade de explicar regras aliviou o investimento nos personagens, em The Morning After o foco neles colocou uma lupa em todos os traços exagerados com os quais eles foram construídos. Cenários, figurinos, cabelos, maquiagens, tons de voz… Tudo nesse começo de oitava temporada é tão exagerado que nesse segundo episódio soou quase cômico. Essa é a principal razão pela qual a certeza de que algo está escondido cresceu. É como se a imensa vontade de contar aqueles exageros fosse o sinal derradeiro de que tudo não passa de um embuste. Isso me fez pensar em A Vila, de M. Night Shyamalan, onde todo um pano de fundo foi orquestrado para esconder o mundo do lado de fora. Não dá para saber o que está por trás do véu, mas definitivamente há algo lá.
Rubber Satan
Existem muitas teorias circulando na web e o que todas elas têm em comum é justamente a ideia de que existe um segredo no bolso dos roteiristas. The Morning After, contudo, não nos deixa muitas pistas de que segredo é esse. Essencialmente, o episódio foi apenas uma vitrine para Langdon, um desvio que nos conduz para a metade da temporada, quando a verdade virá a tona. O sistema se repetiu nas duas temporadas anteriores. Ainda assim, isso não significa que estamos diante do tédio… Esse sistema de adiamentos se faz como manda o figurino: com ataques, horror, texto ácido e alegoria. Espectadores atentos perceberão qual é o plano maior, mas não podemos permitir que isso nuble o prazer da jornada. ‘Prazer”, aliás, é a palavra de ordem do dia.
A chegada de Langdon deixou os moradores do bunker em suspenso. O candidato a Satan, inclusive, é um grande símbolo de toda essa afetação. O número 666 no distintivo, o olhar parado, a impostação na voz, tudo nele é sublinhado, óbvio, produzido para reforçar sua natureza sinistra. O capeta escondido por trás de olhos infantis é um clichê, assim como tê-lo estampado numa lista de obviedades também é. American Horror Story, contudo, está mais para a freira possuída de Asylum do que para esse projeto de Lestat que chegou ao bunker. Ao cerca-lo de cobras, visões, manipulações psicológicas e sexo, o roteiro só está querendo que acreditemos em sua existência.
O crossover continua surgindo homeopaticamente. Rubber Man voltou mais parrudinho, disposto a continuar seu trabalho de satisfação de fetiches. Essa é outra manobra da história para manter o possível disfarce. Em Murder House, Tate engravidou Vivien após transar com ela vestido com a roupa. Sendo assim, se Langdon consegue virar ou invocar a figura, está de certa forma honrando as habilidades de papai. Nos últimos dias, Ryan Murphy continuou a mostrar fotos de bastidores em seu Instagram e todas elas o ambiente da casa dos Harmons está intacto. Ainda acho que o tempo é o que vai servir para costurar essas possibilidades. Se não for, há uma possibilidade de o apocalipse nunca ter acontecido de fato.
Após todo o trabalho de Langdon para provocar a desestabilização do grupo, os detalhes da fisiologia das personagens de Paulson e Bates ficaram como um possível vislumbre da verdade. Os quilos de afetação do episódio só aliviaram quando Langdon tocou aquelas costas deformadas ou quando vó e neto discutiram a própria relação abominável. AHS cresce quando vira humanidade, pedindo licença para a alegoria e dizendo aquilo que nem precisa dizer – verdades sociais e emocionais – mas que diz porque gosta. Assim, pode acontecer o que aconteceu com Roanoke e Cult: quando a necessidade de esconder o segredo acaba, a voz do show começa a ecoar de verdade, produzindo o horror feito de gente, que deu ao texto a reputação que ele tem.
Primeira Trombeta: Joan Collins sendo tudo aquilo que a atmosfera de AHS ama.
Segunda Trombeta: Em Murder House o Evan Peters violentava usando a roupa de látex. Em Apocalypse ele foi violentado por ela. Círculos.
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Terceira Trombeta: Não consigo ver Billy Eicher e Leslie Grossman como frutos da série. O mesmo para Billie Lourd, que está fazendo a mesma personagem desde Scream Queens. Porém, Leslie tem nos divertido com suas tiradas.












