Kernel Panic é aquele momento em que os usuários de Linux e Mac vivem o seu dia de Windows com a sua famigerada “Tela Azul da Morte”. Apesar de todos os protocolos de segurança, qualquer sistema operacional está sujeito a esse infortúnio e a única solução é rebootar, ou seja, reiniciar do zero. Às vezes, porém, o sistema está tão corrompido, que nem isso resolve.
Analogamente, Elliot tentou reinicializar o seu sistema seguidas vezes para superar seus constantes “pânicos de núcleo”, porém, nada adiantou e o jeito teve que ser resetar o hardware (e torcer para que isso fosse suficiente). No mundo digital, esse reset pode ser feito formatando o hard disk e reinstalando o sistema ou metendo uma agulha naquele buraquinho escondido, porém, para um cérebro avariado, nada melhor do que deglutir pílulas de Adderall como se fosse pipoca e ficar uma semana sem dormir.
Adderall foi originalmente desenvolvido para tratar TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade), no entanto, por aumentar demais a capacidade de concentração, tem sido vastamente utilizado nos e-sports (jogadores de LoL, DotA, CS – eu estou falando de vocês) e em tratamentos “estéticos”, pois um dos efeitos colaterais é a perda de apetite. A estratégia de Elliot de tentar uma overdose do medicamento para “zerar a mente” falhou miseravelmente, haja visto que mal o efeito do psicoestimulante acabou, papai Mr. Robot voltou a assombrá-lo. Adorei demais o Elliot ter escrito o código semelhante a um Kernel Panic no seu diário.

Porém, se o resultado final não foi satisfatório para o ex-líder da FSociety, serviu para nos dar várias pistas do que realmente pode estar acontecendo em seu redor. O principal e mais recorrente delírio de Elliot é o seu alter ego Mr. Robot (até onde sabemos), portanto o mais difícil de ser dissolvido. Se nos 5 dias que ele ficou chapado pela anfetamina do Adderall conseguiu extirpar esse fantasma da sua rotina, seria justo afirmar que tudo o que restou é real?
Apesar de adorar a teoria que ele está internado num hospício, vivenciando uma realidade turva (leia aqui), teria lógica se tudo o que restou fosse real. Sendo assim, ele estaria de fato numa casa estranha, sozinho, frequentando quadras de esportes e sim, Ray seria real. Por outro lado, do mesmo jeito que seu pai sumiu, sua mãe, Leon e Hot Carla também tiveram o mesmo destino, muito provavelmente pela ação do hiperdosagem.

Outros indícios que Ray existe de fato (e não é mais um alter ego de Elliot) foram as cenas que ele aparece isolado de Elliot. Primeiro conversando sozinho e depois pressionando agressivamente um profissional de TI a recolocar no ar sua plataforma cyber-criminosa captadora de Bitcoins. Se eu tivesse que apostar, diria que o Ray se envolveu em algum tipo de site de apostas ilegais (ou sexo, mas ainda acho que é jogo) e sofreu ataque de grupo hacker perdendo todos os recursos.
O fato é que ele precisa de Elliot para fazer a migração da plataforma e a forma como ele o aborda difere demais das atitudes criminosas mostradas na cena anterior. Ele sabe que Elliot é um maluco e ele tem experiência em lidar com pessoas que estão perdendo a sanidade. Alie isso à facilidade com que o convence a ir até a sua casa (ou escritório) e o fato dele saber da existência da diário e somos obrigados a admitir o quanto é plausível que ele seja, de fato, uma espécie de inspetor/segurança de um hospício onde Elliot esteja internado.

Outra pista que corrobora levemente com a teoria é o fato de Darlene saber onde ele está. Com Mobley e Trenton em pânico pelo assassinato de Romero, ela diz para ambos que poderia conversar com o irmão, não causando nenhum tipo de surpresa para os mesmos. Assim, fica claro que ele não está desaparecido e, como o seu estado o incapacita de estar morando sozinho, resta a opção quase óbvia do manicômio.
Sobre a morte de Romero, adentrando o mundo indiscutivelmente real da série, abre um plot policial, mostrando que além dos resultados práticos do ataque à Evil Corp não terem surtido os efeitos desejados, as consequências destes atos podem ser ainda mais devastadoras. Por um lado, existe alguém caçando a FSociety e matando seus membros, por outro, isso abriu as portas para o FBI chegar até eles. E, para complicar ainda mais, para que a Revolução não morra, é precisa que eles façam cada vez mais ações contra a E Corp, se expondo ao ataque dos seus dois antagonistas. Vida dura para Darlene e cia… E quem diria que “FSociety” viria de “Fun Society”?

Quanto à personagem Dominique DiPierro, interpretada pela belíssima Grace Gummer (Extant), não poderia ter balanceado melhor a trama. Solitária, viciada em tecnologia (Hello, Alexa) e cheia de trejeitos tão desajeitados, quanto meigos, é fascinante acompanhar sua trajetória. Mais uma mulher muito forte na trama. Não acredito que Gideon revelou para ela tudo o que sabia, pois neste episódio ela não foi atrás do Elliot, porém a sua sagacidade deve colocá-la defronte para o arquiteto do atentado em breve.

E, por fim, a incógnita participação de Angela. Para mim, a sequência mais morna deste episódio. Philip Price é uma raposa que manipula Corporações e Governos e é evidente que a menina não é páreo para ele. No piloto (duplo) já tinha ficado claro que ela estava fascinada pelo dinheiro e poder e que deixaria para um segundo momento o plano de derrubar a E Corp por dentro. Qual seria a utilidade de colocá-la nesta posição de ter que denunciar colegas que cometeram deslizes, mesmo parecendo ser boas pessoas? Seria um teste para Philip quantificar sua ambição e lealdade ou uma situação criada para a personagem repensar se vale mesmo a pena desistir da vingança? Confesso que eu preferiria vê-la mudando de lado pra valer.
Encerro a review desta semana, fazendo um paralelo deste episódio com o 1×4, no qual a loucura tomou conta do enredo. Da mesma forma que adorei aquele, amei este, porém, entenderei perfeitamente as pessoas que reclamarem do foco central na loucura do Elliot, ao invés da cultura hacker. Vamos começar a discussão das teorias?
Até semana que vem.
Cena pós créditos da review: “Ale volta até o computador e afirma para os leitores que Tyrell está morto e toda aquela ligação foi fruto da mente perturbada de Elliot”.















