Uma tortuosa jornada de herói.

A série não carrega isso como uma bandeira balançando ao vento, como um atrativo principal, mas para todos os meios Kyle Barnes é um herói. E como todo herói a jornada de construção de motivações e metas, a famosa “Jornada do Herói” tão bem explicada por Campbell, começou sua construção nesse segundo episódio de Outcast.

Após libertar o menino Joshua, do que seja lá o que o possuía, Barnes se encontra numa espécie de encruzilhada psicológica. Se ele conseguiu com sucesso retirar “o espirito negro” do garoto, porque com a mãe não houve o mesmo sucesso? Anos depois e o incidente da possessão da mãe dele ainda continua o tormento da fatídica manhã. E morando no mesmo local onde tudo ocorreu fica difícil de se livrar das memorias, já que cada canto, cada item ou fresta é um gatilho para possíveis mergulhos na psique destruída do personagem. E se tínhamos duvida que por baixo de todas aquelas camadas de comportamento arredio havia algo mais, Barnes demonstrou que o amor ainda permanece em algum lugar ali dentro. A atitude de retirar a mãe da casa de repouso para tentar “expulsar” o que quer que tenha sobrado foi, de um modo próprio, uma declaração de que as memorias felizes da infância, o amor materno puro e simples, ainda é buscado. Em outra contraparte temos a reaproximação com a filha e isso só caminha para dois possíveis caminhos até agora: uma briga judicial complicada ou a (re)possessão de sua ex-mulher, algo que ocorreu, mas ainda não sabemos os motivos, além de ter sido o estopim de sua fama de “excluído”. Mesmo assim ele começa a organizar a vida no local.

Porém há forças contrarias agindo na cidade, ironicamente chamada, de Rome. Se há um herói é de praxe narrativa lógica que tenhamos um vilão. E o misterioso novo habitante de Rome tem tudo para assumir o papel. O personagem, que vou chamar de “Homem de Preto”, não ficou somente na ameaça visual e já partiu para o ataque, visto que ele tem plena consciência do ocorrido na casa dos Barnes e trabalha ou é a “entidade” por trás de tudo isso. “Nós o temos do mesmo jeito”. Apesar de todo o esforço da mãe em tentar livrar o filho da ameaça, “eles” quem quer que sejam o detém.  A questão que fica é que Kyle pode ser um representante desse mal, que de algum modo corrompeu sua missão e agora é capaz de expulsar o mal de volta para o lugar de direito? Isso explicaria o espirito no garoto “estar procurando” por ele, ou o título de Outcast dado pelo mesmo. Pela cena final, não ficou claro se o garoto foi ou não infectado com o ectoplasma negro. Questões que ficam no ar, para uma explicação posterior.

Com um episódio mais tranquilo que a première, Outcast vai construindo sua mitologia e clima de modo coeso e preciso. A batalha entre o bem e o mal está lentamente ganhando forma e só nos resta acompanhar as consequências disso. Até a próxima semana.

Nota do Exílio 1: Enquanto Kyle assume uma postura mais contida, descobrindo seus poderes, o Reverendo Anderson ataca com todas as armas que tem acesso;

Nota do Exílio 2: Quem será o responsável pelos guaxinins crucificados na floresta? Será que temos um culto ou um “sacerdote” contrário ao Reverendo Anderson em Rome?

HQ vs Série (possíveis spoilers a seguir para quem ainda não leu as Hq’s)

– Ao contrário do piloto que usou o primeiro número das Hq’s como roteiro, esse segundo episódio mistura fatos de várias edições seguintes. O monólogo do Homem de Preto acontece na segunda edição, já o nome do episódio vem da terceira edição da HQ.

– Mildred, a senhora que olha meio enviesada para Kyle na saída da igreja, nas HQs já foi possuída e não aguenta ser tocada por Barnes.

– Na série o Reverendo vê o HdP, mas não o encara. Nas Hq’s ele saca na hora que há algo de maléfico no homem. Esse por sinal, o HdP, tosse a mesma matéria ectoplásmica negra e assume a residência do vizinho de Kyle.

– Nas Hq’s já apareceu o detetive Luke Masters, um detetive que tem a mulher morta por um amigo de profissão “possuído”, deve ainda dar as caras na série.

– Não há menção a sacrifícios animais até agora nas Hq’s.

– O Reverendo nas Hq’s é mais tranquilo do que na versão televisiva.

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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.