Shengze Zhu | China, 2016, 181’, Documentário

A fascinação humana pelo tempo é fruto de um dos nossos mistérios eternos mais antigos. Tem papel igualmente importante nos épicos homéricos como a Ilíada e Odisseia ou nos filmes mais mágicos de gente como Linklater. Em ‘Um Outro Ano’, o tempo é o filtro pelo qual conhecemos uma família chinesa de migrantes que se deslocou para um grande centro urbano alguns anos atrás. Mãe, pai, três filhos e avó – a família não é excepcional, mas sim completamente comum. Observamos, quase escondidos, enquanto comem treze jantares, um por mês, e conversam sobre as coisas mais banais: um óculos que caiu no chão e foi riscado, o gosto da comida, se muito salgada ou pouco, os concorrentes do reality show de cantores, se merececem sair, ou merecem ficar. Parece um desafio sentar na sala escura por cento e oitenta minutos contemplando treze planos estáticos, mas nos recortes que a diretora Shengze Zhu escolhe afloram, com o auxílio do tempo e com o auxílio do mundano, a profunda poesia do cotidiano.

Essas pessoas, vivendo na China, estão tão distantes de nossa realidade cultural que é difícil, muitas vezes, sentir-se confortável naquela sala. Riem diferente, reagem diferente, comem diferente. E ainda assim, com o passar dos meses, o filme transforma-se inevitavelmente em um espelho. Enxergamos ali nossos próprios jantares, nossos pais, irmãos, avós, e somos convidados a uma experiência extremamente pessoal, a partir de algo universal. As palavras que encerram ‘Um Outro Ano’ são “for my grandfather”, e não poderia ser que uma obra tão sensível quanto essa não tivesse raízes pessoais em Zhu.

Nada diso impede, entretanto, que o segundo longa da chinesa traga em segundo plano questões políticas e sociais. Ao focar na história desses migrantes, Zhu evidencia a realidade de um país de urbanização acelerada e prematura, cujos reflexos conhecemos muito bem aqui no Brasil. A debandada acelerada do campo para os grandes centros causa um aglomerado descontrolado, e as condições de vida não raramente são árduas no pequeno apartamento onde vivem seis pessoas. A hipocrisia da República que se diz Popular também emerge, em especial em um dos jantares em que a família discute fervosamente sobre a política do filho único, de onde surgem várias outras questões da sociedade chinesa, do machismo à saúde pública.

O uso do espaço por parte de Zhu, limitada aos planos estáticos, é impressionante, e incrementa ainda mais a natureza pessoal daqueles retratos. Obrigados a observar as imagens estáticas por dez, quinze minutos, nem os olhos mais persistentes conseguem manter o foco apenas nos membros da família, e somos indiretamene guiados a analisarmos os detalhes mais singelos daquele lar. As roupas no sofá, as fotos de família, a sujeira no chão, tudo trabalha em harmonia para sintetizar o ano na vida daquela da casa. Igualmente surpreendente são os movimentos dos corpos, que por vezes parecem ter sido orquestrados previamente por um Godard, mas que são nada mais do que a movimentação de um dia qualquer.

Embora não seja um argumento primordial do filme, é interessante notar como ‘Um Outro Ano’ nos mostra o porquê de a instituição da família ser a mais antiga de nossa história. As três gerações se complementam constantemente, e enquanto a matriarca é uma figura melancólica, triste em todo seu silêncio, reclusa aos cantos dos enquadramentos, movimentando-se com uma lentidão incômoda, as crianças pequenas emanam alegria de toda sua inocência, já que ainda não compreendem o peso do mundo. Pais e filha mais velha, adolescente, equilibram-se no meio termo, ora irritados, brigando aos berros, ora alegres, rindo de besteiras.

Na sessão desta sexta-feira à noite, quando se apagaram as luzes, havia quarenta pessoas em uma sala com capacidade para cento e trinta e sete. Ainda na primeira metade, debandaram pelo menos cinco delas e, na segunda, pelo menos três. É curioso que nessa nossa contemporaneidade obsecada pela imagem, em que gastamos horas e horas com os olhos fixos em telejornais e reality shows acompanhando uma realidade que é na verdade ficcional, a “realidade real” seja tão incômoda. Um sétimo membro da família de migrantes é, certamente, a incansável televisão, a pessoa mais falante, sempre ligada, em todos os jantares, um escape da realidade que vai no sentido oposto de ‘Um Outro Ano’.

Confira a programação do 5º Olhar de Cinema aqui.

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