Dentre diversos significados possíveis para o verbo devanear, podemos facilmente encontrar aquele em que tal ação significa “pensar em coisas vãs, quiméricas, utópicas; fantasiar”, sendo essa a proposta desta nova coluna que apresento aos leitores do Série Maníacos: ir um pouco além da notícia, mas um pouco aquém da reviews…
Quantas vezes eu não estava assistindo a um episódio de The Vampire Diaries anotando informações importantes do enredo para colocar na minha review e me pegava pensando “mas porque diabos a Nina Dobrev fez essas mechas?”, ou quantas outras tantas vezes não vi a notícia da 546ª série de heróis da CW e só conseguia me perguntar “por que, meu Deus… Por quê?”.
Este é o lugar para indagarmos questões que permeiam o nosso amado meio televisivo, mas não necessariamente tem a ver com a produção do seriado em si, podendo ser questão de bastidor, de recepção do público, ou ainda questões que a mente humana é incapaz de responder, como por exemplo: “afinal, qual foi a treta entre Julianna Margulies e Archie Panjabi nos bastidores de The Good Wife?”.
E tenho a honra de inaugurar esta nossa primeira coluna com um ponto bem crítico acerca da atual indústria de séries televisivas: por que as grandes emissoras estão dedicando muitas horas de suas programações para alguns poucos produtores? Que pacto foi esse que a Shonda fez com o capiroto? Qual o limite de séries de super-heróis da CW? Teremos um Chicago High School em breve na programação da NBC?
Brincadeiras a parte, o assunto é sério. É inegável a crise de criação pela qual a indústria de entretenimento americana vem passando, tanto no cinema, quanto na TV, com uma série de remakes, spin-offs e readaptações, inclusive de filmes clássicos para a televisão.
E para fugir de crises criativas, normalmente, o melhor a se fazer é oxigenar o meio trazendo novas ideias, com novas pessoas, e a grande sucesso de Mr. Robot do (até então quase) desconhecido Sam Esmail nos mostra bem isso… Mas como oxigenar o meio televisivo se as maiores emissoras abertas americanas apostam sempre nos mesmos produtores?
Não é um acaso que o título dessa nossa primeira coluna faz referência ao documentário Muito Além do Cidadão Kane (Channel 4, 1993) que falava sobre o monopólio exercido pelo então proprietário da TV Globo, Roberto Marinho, e seu poder sobre políticos e meios de comunicação em massa no Brasil, fazendo analogia à Citizen Kane (1941), filme que retratou no personagem-título a figura de um grande magnata da imprensa americana e o poderoso império que construiu…
Nos setenta e cinco anos que se passaram desde o filme de Orson Welles até hoje, certamente Shonda Rhimes poderia assumir o posto que foi de Charles Foster Kane (Welles) no longa, pois certamente é hoje uma das maiores figuras do meio televisivo.

Por meio de sua produtora, a Shondaland, Rhimes hoje domina cerca de 28% da grade de produtos originais da ABC, com Grey’s Anatomy, Scandal, How to Get Away With a Murderer, The Catch, e se unindo a elas a recém-aprovada Still Star-Crossed, fazendo com que Shonda estreie sua 5ª série na emissora, e sem previsão de que vá parar por aí.
Números idênticos ao de Rhimes na ABC tem Dick Wolf na NBC com a estreia da 4ª série da franquia Chicago nessa próxima fall season. Chicago Justice se une à suas irmãs Chicago Fire, Chicago PD e Chicago Med, e também a Law and Order: SVU, que também ocupam cerca de 28% da grade da NBC dedicada às produções de Wolf.

Aliás, a produção desenfreada de spin-offs é algo constante na carreira de Dick Wolf, que antes de escolher Chicago como berço de suas novas criações já tinha feito algo parecido com a franquia Law and Order, que hoje tem em SVU sua última representante, o que nem por isso quer dizer que esteja perto do fim, uma vez que todo ano começam negociações entre Wolf e NBC para lançar um novo produto da franquia.
Também com 5 séries em uma mesma emissora, soma-se a lista de uber produtores Greg Berlanti, que vem dominando a grade da CW com suas séries de super-heróis da DC Comics. Ele que já ocupava a grade da emissora com Arrow, Flash e Legends of Tomorrow, passará a ser responsável por 33% das horas de programação original da emissora com a transferência de Supergirl da CBS, e a estreia de Riverdale na próxima summer season, sendo sua “ocupação” na grade da emissora maior do que a de Rhimes e Wolf em razão da CW produzir menos horas de conteúdo original do que ABC e NBC.

Berlanti, no entanto, é ainda mais presente na TV aberta americana do que Rhimes e Wolf por ter outras séries de sua produtora nas grades de outros canais, como The Mysteries of Laura e Blindspot, ambas da NBC, tendo a primeira sido cancelada este ano, e esta última renovada por ter sido um dos maiores sucessos da última fall season.
As situações são diferentes, temos que ver que nem todas as séries são criadas por eles (algumas são só produzidas) e nem todas seguem o mesmo padrão – Wolf tem uma franquia clara, Rhimes tem produtos independentes e Berlanti criou um multiverso de heróis – mas a verdade é uma só: três das cinco maiores emissoras dos EUA fornecem quase um terço de sua grade para três únicos produtores? Por que isso acontece? Qual a gravidade nisto? Há como contornar essa situação?
A primeira pergunta, a meu ver, nos leva para uma daquelas questões de causa-efeito… Ao começar o meu texto indaguei a concentração dos canais em três únicos produtores justamente quando passamos por uma crise criativa, e enquanto alguns acham que esta crise é o efeito dessa concentração, ela pode muito bem ser a causa.
A televisão está sob pressão. Há anos que falam que a TV morrerá e dará lugar aos serviços de streaming ou outros meios mais modernos de produção de conteúdo audiovisual (teoria esta em que não acredito, mas que pode ser tema de uma futura coluna), e a migração da audiência para estes outros meios fez com que os canais, sobretudo os de TV aberta, tomassem posturas mais conservadoras.
O medo de arriscar, perder a audiência (que já está bem menor) e com isso perder seus anunciantes (principal meio de manutenção da TV aberta) fez com que os canais se mantivessem no que lhes é mais seguro. A CBS, por exemplo, que não tem um único produtor dominando sua grade (há algum tempo citaria Chuck Lorre aqui, hoje não), pouco sai de sua zona de conforto em lançar suas sitcoms e seus procedurais, anos após anos.
Por este mesmo motivo que ABC, NBC e CW continuam apostando firmemente em Shonda, Dick e Greg, pois sabem que se tratam de apostas seguras.
Shonda escreve muito bem, suas séries são sempre recheadas de plot twists e mortes surpreendentes e sua capacidade de atingir o público feminino entre 20 e 30 anos (que não por acaso está incluso no público-chave buscado pelos anunciantes) é a certeza de que qualquer série produzida por titia Rhimes vai gerar burburinho.
O mesmo sucesso que Shonda atinge com o público feminino é alcançado por Dick no público masculino, mas mais do que fidelização com um gênero específico, Wolf foi inteligente em fidelizar o público que gostou de Chicago Fire lá em 2012, e foi se deixando levar por cada nova série lançada e quando for parar pra ver, vai estar assistindo Chicago Office, Chicago Garbage, Chicago Teachers, e sabe-se lá mais o quê.
Já a CW sempre se mostrou atenta às novas tendências do público jovem. Alcançou o sucesso com The Vampire Diaries quando os vampiros estavam em evidência, tentou ampliar sua grade com outras séries fantasiosas e não teve medo em migrar para os super-heróis quando a Marvel Studios explodiu nos cinemas.
Basicamente, em resposta ao questionamento central dessa coluna, isso acontece em razão de uma postura mais conservadora dos canais por medo de arriscar e ver seu público migrar pra uma Netflix da vida…
Tal fato não é exclusivo da ABC, NBC e CW, como já vimos com o exemplo da CBS, e como podemos notar também com a Fox, que após anos sem conseguir lançar um grande hit passou a ressuscitar seus hits do passado, como 24 Horas, Arquivo X e, mais recentemente, Prision Break.
Isso, meus caros, é o mais puro medo…
E suas outras perguntas, Thiago? Há gravidade nisto? Existe uma forma de contornar essa situação?
Sim, eu vejo gravidade nessa postura covarde das principais emissoras americanas, mas nada para nos desesperarmos… Enquanto esses poucos produtores estiverem entregando produtos de qualidade (e você pode não gostar de alguma ou de várias das séries citadas, mas todas as produções de Shonda, Dick e Greg têm suas qualidades), não há razão para acender tochas e ir pras ruas pedir o impeachment dos presidentes de ABC, NBC e CW.
De fato, concentrar considerável tempo de grade nas mãos de poucos produtores é prejudicial para a renovação do meio e o surgimento de novos talentos, mas também não é nada preocupante, pois como o já citado caso de Sam Esmail, estes novos desenvolvedores de conteúdo estão encontrando outros caminhos para ascensão na carreira, por meio de canais fechados ou até mesmo serviços de streaming como Netflix e Amazon.
Quem perde, nesse caso, são os próprios canais abertos, que não inovam tão rapidamente quanto seus “competidores” e, muito provavelmente, quando forem contratar qualquer um desses novos produtores que estão surgindo já o farão quando eles estiverem consolidados no mercado, pagando bem mais do que pagariam se tivessem dado chance a eles enquanto eram meros desconhecidos.
Enfim, para quem, assim como eu, é fã da boa televisão, a época pode não ser das melhores, mas longe de ser o fim de tudo também… Se você não gosta, não assiste! Simples… Eu mesmo não sou nem um pouco adepto das séries de heróis da CW e nem por isso me incomodo pelo fato delas existirem… Quando está estreando mais uma nova produção de Berlanti na emissora mais amada do mundo eu simplesmente vou pro meu Netflix assistir o que me der na telha…
Da mesma forma, não sou um fã da franquia Chicago, e dificilmente vejo algo além do piloto das séries… Dou preferência a uma boa maratona de uma série que nunca vi e já foi finalizada!
Já as séries da titia Shonda… Bem, quanto a essas eu prefiro não me manifestar pois a quantidade de amor que tenho a minha vida é proporcional ao tamanho do medo que tenho dessa mulher.
Mas correndo risco de vida ou não, temos hoje muitas opções de entretenimento… E quem mais perde são aqueles que não querem se renovar… O público, ao meu ver, apenas ganha…
Esta é a magia dos tempos atuais…
E a magia dessa coluna, meus queridos, é que por serem devaneios, não há certo, errado, bom ou ruim… O que eu escrevi aqui são apenas os meus devaneios…. Devaneiem também! Questionem o que eu falei, comentem, tragam argumentos contrários… Só não vale xingar ninguém nem morder o coleguinha do lado.















