O início da queda do castelo de cartas soviético.
Nesta semana, The Americans entrega um episódio movimentado com implicações no melhor estilo efeito dominó.
Partindo do óbvio, podemos concluir que The Rat foi mais um excelente episódio de The Americans. Confesso que fiquei (positivamente) bastante surpreso com a espiral de acontecimentos que tivemos aqui. Mais do que isso, o capítulo dessa semana foi, ao meu ver e em suma, sobre reações que nos tornam humanos.
Comecemos pela magnífica protagonista dessa semana, que atende pelo nome de Martha. Sua intérprete, Alison Wright, sempre ótima, esteve soberba aqui, ao expressar a avalanche de confusão emocional que sua personagem estava sentindo diante dos acontecimentos a que foi exposta. Pude, mais do que nunca, me identificar e exercitar minha empatia com Martha. Certamente meu cérebro entraria em tilt, tendo minha vida tirada de mim, minha rotina, com apenas uma muda de roupas e sem saber para aonde estaria indo. Que espetáculo de interpretação Alison deu! Um banho de humanidade para uma personagem que há muito simpatizamos e que está brilhando em seu momento de destaque.
Chega a ser cruel Philip ainda a iludindo, com Martha criando expectativas sobre ainda continuar junto com ele seja lá onde for, ou pior, criando ilusões sobre voltar à sua rotina normal segunda-feira pela manhã nos escritórios do FBI. E a rima visual e metafórica exibida em The Rat foi muito bem colocada, no desespero e carência longeva de Martha precisando sentir Philip dentro dela, assim como Elizabeth fez no encerramento do último episódio, que teve outras repercussões que pontuarei mais adiante.
Philip, ao lado de sua agente de campo Martha, também protagonizou o episódio. De fato, ele agiu impulsivamente aos olhos de Gabriel e do Centro ao trazer Martha “para dentro” da operação e tirá-la do alcance de um desconfiado FBI. Tal atitude se deve, em grande parte, a grande humanidade ainda presente no personagem, apesar do trabalho árduo, de moral bastante flexível, que ele executa. Ainda que eles não tivessem certeza do nível de exposição de Martha dentro do bureau, acabou sendo uma boa jogada de Philip agir por instinto. Admirei que ele comprou briga com Gabriel por sua agente, ainda que movido basicamente por remorso e preocupação, outras grandes emoções catárticas e catalisadoras do comportamento humano.
Elizabeth também teve muitos sentimentos para lidar no episódio desta semana de The Americans. Como nada na série é gratuito, pudemos ver aqui a implicação daquela cena de sexo entre o casal que encerrou o episódio da semana passada. O que mais me causou estranheza naquela cena foi a repentina retomada de intimidade entre Philip e Elizabeth, que há muito tempo agem como apenas colegas de trabalho. Claro, teve aquele momento terno quando Phil estava de vigília por Liz durante a quarentena, mas nada no nível do sexo ardente e escapista executado por ambos. O resultado foi Elizabeth tendo que lidar com a sensação de traição que sentiu ao ver Philip sem disfarces diante de Martha. Para ela, aquele era um grau de intimidade e risco muito grande que talvez somente ela tivesse (o direito de experimentar). Foi uma reação latente, interpretada por Keri Russel sem a necessidade das palavras de um diálogo. Notem também a preocupação de Liz servindo o jantar para as crianças preocupada com a dinâmica entre Philip e Martha.
Outra coisa que apreciei bastante em The Rat foi o embate entre Philip e Gabriel. Os personagens já vêm se estranhando há tempos, assim como a animosidade sempre presente nas interações entre Elizabeth e Claudia, handler de outrora do casal. A necessidade de tirar Philip da casa acabou sendo um tiro pela culatra de Gabriel. Ao meu ver leigo, a missão poderia ter sido perfeitamente executada apenas por Liz.
Como Philip mesmo anteviu, era um péssimo momento para deixar Martha, justificadamente abalada emocionalmente e desconfiada, sozinha com um estranho. Foi uma decisão que soou amadora para um time de espiões, sendo ordenada por um chefe que parece ter esquecido da rotina e implicações de operações de campo e sentimentos humanos. Isso ao menos nos rendeu um cliffhanger sensacional, com Martha solta pelo mundo, completamente instável e frágil, fazendo-a um excelente dispositivo “bomba-relógio” de roteiro para os demais episódios da temporada.
Quando a embaixada russa surgiu em cena foi o único momento em que meus olhos se reviraram durante o episódio. Entretanto, ao menos eles tiveram uma pressuposta utilidade real na história da operação de extração de Martha. Porém falharam miseravelmente com uma execução de morosidade amadora.
Acho que cabe aqui uma menção honrosa a Dylan Baker, intérprete de William e sempre um ótimo coadjuvante recorrente em The Good Wife. Com seu nome nos créditos de abertura da série, o ator e seu personagem tem se provado uma excelente adição à quarta temporada da série. Gostei bastante das interações dele com Philip neste episódio, sobre como discutiram seus objetivos e missões, decepções e a saga de Philip para salvar uma agente por ele recrutada. Me pareceu um daqueles papos triviais entre colegas de trabalho de um escritório.
Indubitavelmente, posso afirmar que The Rat foi mais um exercício de dramaturgia muitíssimo bem executado por The Americans. O roteiro sólido, o desenvolvimento dos personagens, suas agruras e conflitos estiveram mais uma vez muito bem representados em tela. O titulo do capítulo, muito espirituoso por sinal, pode ser tanto uma referência metafórica à Martha com relação ao FBI (embora o termo mais utilizado seja mole) ou, sem floreios ou figuras de linguagem, o rato infectado entregue por William a Philip. Uma coisa eu sei, por certo: episódio bom é aquele que termina inesperadamente sem o telespectador sequer sentir o tempo passar e com um ótimo gancho. E esse com certeza foi um deles!















