Lucca: a melhor pessoa que não gosta de pessoas. 

O mundo de um showrunner é sempre tomado de fórmulas e planejamentos que deveriam ser intocáveis. A sorte e as circunstâncias, algumas vezes, têm planos um pouco diferentes. Administrar uma série de TV precisa contar com fatores imponderáveis como casting, audiência e executivos muito práticos. Em alguns casos, um personagem ou um ator acabam ficando maiores que o show e isso também interfere no processo. Nem sempre a fórmula consegue ser mantida e isso nos leva a outro tipo de planejamento.

Sempre foi claro pra mim que Kalinda apareceu em The Good Wife não como uma investigadora apenas, mas como a personagem que seguiria em contradição ao mundo de Alicia. Isso as faria se aproximarem como mais que colegas de trabalho. Kalinda era confiante, discreta, muito profissional e não muito dada a laços afetivos… Qualquer semelhança com Lucca não é mera coincidência. Assistir Judge me fez pensar que se não fossem os problemas entre Archie e Julianna no decorrer do tal planejamento, seria Kalinda quem estaria naquela área de serviço abraçando Alicia, porque a amizade entre elas sempre foi uma das melhores coisas do show.

O problema é olhar para Lucca e ver o véu da repetição… É olhar para Jason e ver o véu da repetição… É olhar para a última cena e ver o véu da repetição… The Good Wife correndo atrás do próprio rabo. É estarrecedor ver como a quantidade de velhos casos reaparecendo como “novos” casos cresce a cada semana. Uma porcentagem impressionante dos casos dos episódios parte de algum personagem que já tínhamos visto antes. Se essa for mesmo a última temporada, isso até vai ter feito algum sentido, já que encher finales de fantasmas é uma coisa típica da TV.

Ao menos o caso dessa semana foi bom… O de Alicia, claro. O plot com Diane era de uma chatice tão grande que só terá essas linhas, já aviso. Rever o juiz corrupto é sempre bom, porque os embates com Alicia são ótimos. Sobretudo naquele momento, quando a raiva de tudo e de todos se fortalecia dentro dela. E vocês sabem como é a Senhora Florrick: se ela estiver irritada ou contrariada, ela se vinga levando qualquer pessoa pro abismo onde ela está estabelecida. Dessa vez foi Lucca e a própria firma, que terminaram tendo que pagar por uma teimosia que poderia ter sido facilmente evitada.

Porém, como fugir de tal evento se os roteiristas precisam de uma desculpa para reunificar as firmas pela MILÉSIMA vez? Diane e Cary até agradecem, porque isso significa mais presença dentro dos episódios. Mas, não havia nenhuma razão justa, viável, coerente, para que Alicia e Lucca fracassassem e precisassem aceitar a oferta. É uma manobra totalmente off-camera, decidida pelos criadores, que precisam retomar a “fórmula”, seja lá por qual razão prática for. Pisar de novo naqueles escritórios, ainda mais com uma posição inferior, depois de tudo que aconteceu, é trair absolutamente tudo pelo qual Alicia chorou nos braços de Lucca. É como se o roteiro quisesse dizer: Aceita que seu lugar é a sombra de um homem, Alicia. Sempre. Sim, porque nada me convencerá que não há uma correlação clara entre a ressuscitação do plot Will e esse retorno ao lugar onde ela o reencontrara.

É uma pena, porque a cena do breakdown foi linda… Lucca me emocionou muito e eu esqueci completamente que ela está ali para ocupar um buraco feito no planejamento original. Julianna também estava enfurnada na mesma ladainha de sofrer por Will enquanto flerta com um “amante de uma temporada só” (sério, até o beijo dado no impulso de uma virada foi igual). Mas, estava bem, estava entregue. Suas duas cenas com Eli foram muito catárticas, em especial a que ele conta com detalhes sobre a mensagem de Will, algo que até entendo como necessário para que ela consiga seguir adiante. A dor de Alicia nesse caso me soa completamente compreensível, só acho que a hora de abordar a questão foi tardia. Sobretudo porque reviver qualquer aspecto do passado com Will deveria significar razões para novas direções e não o abraço em antigos vícios.

Assim, esse episódio acabou sendo controverso. Ele colocou um grande holofote em cima de Lucca, que ainda que já seja muito amada pelos fãs, é mais uma imensa reciclagem. De uma forma velada, obscurecida pelo nosso carinho com a dor da protagonista, esse episódio foi um festival brutal de reciclagens e já fulgura pra mim como um marco daqueles caminhos por onde eu queria tanto não ver a série seguir. Contudo, como disse antes, a controvérsia vem da experiência emocional ao assisti-lo… The Good Wife está velha e cansada, mas ainda sabe escrever episódios bons.

Objection Number One: Jason e sua “competência beyond Kalinda” foram tão sublinhados que quase soou como um recadinho.

Objection Number Two: Grande momento o de Bernie tentando olhar para o juiz durante o depoimento e Lucca bloqueando.

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