Não veja o mal, não fale o mal, não ouça o mal.
Newton, ao postular suas três leis que viriam a ser tornar cânones da física moderna, com certeza não sabia que sua terceira lei se aplicaria tão bem em outros campos de atuação. “A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade”. Agir, então, sem esperar que não haja nenhuma consequência seria uma ingenuidade sem tamanho. Juliana pode ter pensado dessa maneira, que seus atos não trariam grandes problemas para os outros, mas ao retornar para São Francisco ela tem de lidar com a avalanche de reações que suas ações causaram.
Imagine todo o universo de The Man in the High Castle como uma grande máquina, utilizando a analogia de Smith, e Juliana foi de certo modo a engrenagem que começou a pane em todo o sistema. A simples ação de tomar o lugar da irmã ativou uma cascata de reações, um efeito dominó, na vida daqueles ao seu redor e de pessoas até longe dele. Puro efeito borboleta. E ela sentiu prontamente as batidas da borboleta se tornando um tufão ao voltar para São Francisco.
O clima na cidade não está dos melhores após o atentado ao príncipe herdeiro e chegar no meio disso tudo com todas as relações destruídas não é fácil. Primeiro a relação com Frank. Largar tudo em prol de uma obsessão e isso eliminar da vida de alguém entes queridos não era uma das reações que ela esperava e nada mais do que comum a acolhida que Frank proporcionou a ela. Na casa dos pais as coisas também não andam bem. Guardar o segredo de que Trudy está morta não é dos mais fáceis. Assim nada mais fácil do que ser cooptada para a Resistência. E onde seria a missão? No prédio da autoridade japonesa claro. E após o tenso encontro com Eto-san, Juliana acaba indo trabalhar para Tagomi-san. Após o encontro fatídico no corredor ele contrata a moça, mas acho que ele desconfia de algo sobre ela, e ela por sua vez comprova que pode ser de grande valia ao expor teorias que podem ser de utilidade prática para ele. Quid pro quo. Omissão de responsabilidade, deixar passar em prol de algo no futuro. Nada mais condizente com o proverbio dos 3 macacos que dá nome a um dos episódios. Não veja o mal, não fale o mal, não ouça o mal.
O problema de Smith é que ele não consegue deixar passar. Mesmo no Dia da Vitória, ele continua planejando lentamente o bote. Paciência é a chave. E a capacidade de articulação dele é majestosa, mesmo que usada para o mal. Como uma serpente constritora que vai lentamente apertando a vítima e assim quebrando um por uns seus ossos. Dar corda para se enforcar. A primeira foi Wegener, que fugindo de São Francisco acabou indo cair numa armadilha sem saber. Wegener arriscou tudo mas conseguiu passar os segredos tecnológicos para o Ministro da Ciência japonês, mas isso com certeza foi sua sentença de morte. E qual seria a melhor armadilha do que um almoço de família. Verdades jogadas na cara, oportunidades perdidas e encontradas. Tudo isso regado a discursos de um Hitler velhinho, pretzels e Riesling. E no meio disso tudo Joe. No duelo de farpas e confissões do passado entre Smith e Wegener ele viu tudo aquilo de camarote, até saber o plano de entregar Wegener ele soube. O problema é que a cada dia ele foge mais do caminho proposto por Smith e se aproxima do vórtice de mistério que cerca o Homem do Castelo Alto e os filmes distópicos. Ao ponto de cair na armadilha preparada por Smith com aquele dossiê vazio. Estava claro que aquele perdão após o interrogatório não estava normal. Smith não consegue perdoar e Joe agora deu todas as chances para que sua fúria caia sobre ele.
Frank por sua vez precisou ser perseguido para encontrar sua verdadeira identidade. Como toda minoria a questão de identidade sempre é problemática e como um judeu vivendo num estado em que sua religião, seus costumes são proibidos por lei. Foi com a chegada de Mark que as coisas começaram a fazer sentido. O resultado catártico da oração no final do episódio foi mais uma aceitação da condição do que uma reação da situação. Apesar que a caçada ao “terrorista” culpado pelo atentado a vida do príncipe continua e os Kempeitai estão cada vez mais pertos de chegar nele.
Mas o que foi mais surpreendente foi aquela sala (Sakura) e a estação de escuta. Perceberam que não há japoneses lá dentro? E qual a real função do padrasto/pai de Juliana como chefe daquilo tudo? Essa dupla de episódios serviu como um “turning point” na trama preparando o caminho para a sua conclusão. The Man in the High Castle continua como uma das melhores adaptações de Philip K. Dick para o meio audiovisual. E que continue assim nessa reta final.
Heil! 1: Kempeitai, ou Corpo de Soldados da Lei, era a polícia militar do Exército Imperial Japonês;
Heil! 2: O Seppuku, ou Harakiri aqui no ocidente, é o suicídio ritual de origem samurai. A sociedade japonesa é muito arraigada no conceito de honra, e em tempos imperiais, quando uma grande desonra acontecia o ritual era posto em prática por aquele que sofria tal destino. Consiste em um corte no abdômen do lado esquerdo para o direito, com o intuito de expor as vísceras como sentido de pureza de caráter (estar limpo por dentro). Era feito com um punhal ou um wakizashi (espada curta samurai). Como a morte era lenta e dolorosa o Kaishakunin era responsável por abreviar a dor e degolar o realizador da cerimônia com uma katana (espada samurai), usando um corte limpo e preciso;
Heil! 3: Sieg Heil: Viva a vitória, salve a vitória. Saudação comum nazista;
Heil! 4: Tivemos a presença de Tao Okamoto (de Hannibal) e de Amy Okuda (de How to Get Away with Murder).















