Pisando em território pantanoso.

A minha reação assistindo Not For Attribution pela segunda vez foi a mesma que tive durante a primeira experiência. McNulty, finalmente revelando para o expectador todos os detalhes mais importantes de seu plano, começa a criar um serial killer fantasioso para forçar a administração pública a conceder mais verbas ao Departamento de Polícia de Baltimore. Depois disso a intenção é desviar essa verba para cuidar do caso de Marlo.

Não sei como funciona o sistema penal americano, mas posso garantir para vocês que isso dá cadeia, e como. A história é um pouco exagerada, mas nós sabemos faz tempo do que McNulty é capaz para driblar a cadeia de comando e resolver seus casos, custe o que custar. Nenhum problema aqui. A sirene de alerta pisca quando Lester Freamon surge dentro do esquema todo e sem hesitação compra a ideia de seu companheiro. Azedaram o vinho.

Comecei a refletir sobre minha hesitação em aceitar a presença de Lester dentro da história do serial killer. Nesse momento é que lembrei todas as vezes em que o detetive aconselhou McNulty a fazer exatamente o contrário do que é feito aqui.

The job will not save you. It won’t make you whole, it won’t fill your ass up”

E mais…

A life Jimmy, you know what that is? It’s the shit that happens while you’re waiting for moments that never come”

Essas duas citações partiram de Lester e foram dirigidas a McNulty. O detetive sempre teve um relacionamento tranquilo e desconectado com o trabalho. Foi ele quem passou vários anos na área de Penhores sem uma reclamação, resignado com o seu destino. Qual a utilidade de envolver-se pessoalmente com um trabalho que não dá a mínima para você?

Estamos falando aqui da filosofia inerente ao personagem durante todas as temporadas, e ela é violentamente quebrada quando Lester, sem um momento de dúvida, entra alegremente no circo de horrores montado por McNulty. Nesse contexto Bunk representa o expectador: estupefato diante dos acontecimentos altamente improváveis que se desenrolam na sua frente.

Pelo menos temos outras narrativas mais interessantes nesse episódio para discutir. A relação entre Marlo e Prop Joe talvez seja a mais intrigante delas. Sem nem perceber, Joe está ajudando a cavar seu túmulo, fornecendo notas limpas para que seu “parceiro” de negócios tente alcançar Vondas diretamente e tirar o intermediário do caminho. Nesses percalços, entretanto, fica muito exposta a total inexperiência do chefão de West Baltimore sobre alguns assuntos. O conceito de banco, um lugar onde você deposita seu dinheiro e não precisa se preocupar com roubos, é quase demais para a cabecinha minúscula de Marlo processar.

A insistência em buscar Omar também reflete a mente fechada do personagem. Nesse episódio até mesmo Snoop questiona a decisão de seu chefe: para que cutucar a onça que está dormindo feliz, sem causar problemas a ninguém? O argumento nem sequer passa pela cabeça de Marlo. Omar causou danos a ele e não foi punido. Isso é inadmissível. Fim de discussão. Corta para o violento assassinato de Butchie e a incrível cena em que Omar recebe a notícia. Em menos de cinco segundos a face de Michael K. Williams (agora indicado ao Emmy, vejam só) vai de pura tristeza a uma carranca resoluta e vingativa. Seu ser é automaticamente programado para reagir dessa forma. Não há escapatória: Omar sabe que precisa voltar para Baltimore.

Na nova narrativa da temporada vemos uma velha máquina midiática contorcendo-se para sobreviver ao advento da Internet. Me lembro com clareza de ter a impressão, durante a primeira vez que assisti a série, de que a trama do Baltimore Sun demorava para engatar e realmente puxar o interesse do expectador. É impossível avaliar isso agora com o conhecimento prévio, mas a direção dessa trama é realmente indistinta no terceiro episódio, principalmente considerando o número menor de capítulos encomendados para a quinta temporada.

Talvez o momento mais interessante seja o crossover entre a administração de Carcetti com Gus, através do qual a notícia que o prefeito quer é veiculada na mídia. Isso gera um efeito dominó que afeta Burrell, Rawls e Daniels, todos atentos para o movimento de qualquer adversário. O engraçado é que isso tudo foi causado pela insistência do comissário em usar estatísticas adulteradas, mesmo quando o prefeito pediu expressamente que ele não fizesse isso. O costume está tão enraizado na cabeça de Burrell que ele sequer considera a opção de não praticar o ato. Cinco temporadas depois e The Wire, em vários quesitos, continua a mesma.

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