Em Scream tudo que não é culpa sua pode te levar a morte.

O assassinato é uma coisa pessoal na maioria das vezes… Vamos excluir aqui o fator patológico que leva psicopatas a matarem sem motivos, e também os crimes de ambição, esses não são o nosso foco. Nos outros casos, os mais comuns, o assassinato é extremamente pessoal. Mata-se em nome de impulsos emocionais… Amor, ódio, inveja, ira momentânea e enfim, vingança. No item “vingança”, entretanto, geralmente o crime prefere emergir como ferramenta de tortura: matar alguém próximo do seu inimigo é bem mais eficiente.

Essa é a base de Scream desde o filme original. Chega a ser assustadora a forma como Sidney foi condenada a uma vida cercada de morte por razões que não tem absolutamente nada a ver com ela. “Mas ela é filha da mulher que provocou a loucura dos assassinos”… Sim, e aí reside um pouco da misoginia cultural criticada pelo roteiro de forma bem lúcida. Maureen foi uma mulher intensa, sexual, que se arriscava em nome do próprio prazer. O julgo veio como num inferno cristão. Ela foi assassinada e sua prole perseguida para sempre somente porque ela quis sentir prazer. Ainda bem que Kevin Williamson dava uma resposta a altura, fazendo com que a “vítima” fosse osso duro de roer e sobrevivesse lutando e desafiando.

Agora na série estamos diante de mais uma perseguição em nome de uma culpa atribuída por osmose. Emma só é culpada por ser filha da mulher por quem o primeiro assassino foi apaixonado. Ao menos é isso que podemos dizer por enquanto, já que existe uma chance de o ghostface moderno apenas estar usando essa mitologia para ter motivos pra esfaquear pessoas. Por conta da riqueza de detalhes e conexões que ele tem estabelecido é uma chance pequena, mas ainda sedutora.

Infelizmente precisei fazer uma review dupla e aproveitei pra tentar ver esses episódios como um panorama complementar. É como se em Aftermath o assassino fosse um pouco exposto e em Exposed os personagens começassem a ter seus segredos jogados ao vento. Em ambos os casos a sensação é de que tudo é muito malicioso e muito pouco sincero. O que o assassino quer quando se mostra é estabelecer seu reinado, mas de forma alguma aquelas coisas deixam de ser somente um cenário proposto.

Aftermath foi teatralidade mórbida em essência. O assassino matou Riley, explodiu o carro de Tyler com o corpo dele sem cabeça dentro, deixou os recadinhos no yearbook para serem o chamado para a origem da máscara, levou Emma até o covil para que visse um porco morto, recortes, coisas sinistras penduradas, a cabeça pútrida e ainda o computador de Nina, cheio de detalhes ainda mais sórdidos.

Esse episódio já valeria pela piada de Noah com Pretty Little Liars, mas de fato fiquei surpreendido e contente com essa analogia dos covis. O texto acertou em cheio ao falar de inverossimilhança dentro dessas liberdades criativas teatralizadas, porque elas são isso mesmo, uma forma dramática de representação. Scream lançou mão dela agora, como série, porque há tempo para ser mais sofisticado. Assim, traça um caminho ramificado paralelo aos filmes, mas ainda ligado a eles pela auto-referência e metalinguagem. É aquilo de “estou dizendo que isso é ridículo, mas estou fazendo isso também”. Exatamente como quando Sidney disse “detesto esses filmes onde a mocinha corre escada acima ao invés de fugir pela porta da frente”, e acaba correndo pelas escadas quando o ghostface faz sua primeira investida. O charme de Scream é esse e sempre será.

Os podres que saem do computador de Nina levam aos eventos do episódio seguinte. Exposed não foi tão nervoso quanto o anterior, mas serviu pra nos dar alguns apontamentos importantes. Foi um episódio que continua buscando aquele envolvimento com cada um deles, aproveitando para ampliar as possibilidades de suspeita. A parte de estar envolvido continua prejudicada pelo elenco pouquíssimo carismático, mas a parte da suspeita foi produtiva.

Soubemos que o pai de Brooke aparentemente matou a esposa, foi descoberto por Nina e Tyler, e chantageado. Do outro lado, Jake e Will repetem a jogada por motivações estranhas, pouco claras. O professor também tem ligações com essa rede de divulgação de segredos virtuais e no caso dele, está ainda mais difícil entender como chegamos até ali. É bem isso mesmo, jogar com a suspeita sem aprofundamentos, fazendo com que o público tire conclusões precipitadas exatamente como os personagens.

Até agora, tudo gira em torno do massacre promovido por Brandon James no passado e isso nos leva às culpas de Emma, transmitidas para ela pelo que a mãe possa ter feito naquela época. No fim derradeiro desse mistério, eles têm a opção de reunir todo esse imbróglio para justificar os crimes. Mas, também podem usar o passado só como aquilo que vimos no covil: uma desculpa teatralizada para deixar a carnificina mais apelativa, saborosa e midiaticamente interessante.

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