O inferno não tem fúria como o de uma mulher desprezada”
Durante três episódios, acompanhamos o caleidoscópio de emoções apresentado por Will Graham e Hannibal Lecter após os acontecimentos do jantar sangrento. Precisavámos entender o que eles sentiam, o que aquela noite significou para cada um, e assim ganhamos três episódios focados exatamente nisso. Acompanhamos a necessidade de Will por Hannibal e a diversão de Hannibal com o caos imposto na vida daqueles que o cercavam. Agora, chegamos sim ao ponto de convergência do caminho traçado por cada um, e automaticamente chegamos também ao ponto de ebulição da história.
Portanto, nada mais justo começarmos a entender melhor o que aconteceu nos oito meses anteriores a essa convergência. Como cada um dos personagens da série, não somente Will e Hannibal, deram continuidade aos seus planos. O mais interessante nesse aspecto, é ver aflorar a personalidade manipuladora de todos os personagens. Todo mundo sofreu, uns mais que os outros, alguns se recuperaram, outros estão em processo de recuperação, mas, em unanimidade, todos mudaram. Todos acordaram.
Como bem entendemos e vimos diversas vezes, Hannibal Lecter tem total consciência de seus atos, e de quem ele realmente é. Ele não finge e não coloca a culpa de sua personalidade psicótica em eventos e/ou pessoas da sua vida. Ele é o que é, e faz o que faz por prazer, por se achar melhor que todos. Independente do que possa ter acontecido em seu passado. Ele mesmo nos disse, não foi o passado que aconteceu com ele, ele aconteceu com ele.
Isso não pode ser dito sobre os demais personagens da série. Hannibal aconteceu para os demais personagens. É gratificante entender que cada um passou por uma jornada, manipulada por Lecter, para se encontrarem exatamente e igualmente nesse ponto. E se a jornada até então era diferente, agora, mesmo que ainda diferente, é uma jornada rumo à um denominador comum.
Afinal, uma coisa é certa nesse jogo de manipulação que estamos presenciando, o alvo de todos, absolutamente todos é o mesmo: Hannibal Lecter. Dr. Chilton, com uma fala precisa, explicou a base da motivação dos personagens de agora em diante: “ todo mundo que passou pelo caminho de Hannibal Lecter perdeu alguma coisa”. Claro que alguns mais que os outros. Mas fato é que, por causa de Hannibal, esses indivíduos estão conectados e mais ainda, são capazes de entender um ao outro como ninguém. Mas no final das contas, era exatamente isso que Hannibal queria, certo?
É por isso que Will sabe o que tem que fazer. Sabe qual é a sua real conexão com Hannibal. Mais ainda, é por isso que Jack também sabe o que tem fazer. Dra. Alana Bloom, Mason Verger e dr. Chilton também sabem. Fato é que, chegou a hora de cada um assumir seu personagem na peça teatral que mostrará o destino (derrocada) de Hannibal, The Cannibal.
E é aqui que mostro minha admiração completa à essa história. Admiração ao lembrar como ela é rica e complexa. Afinal, personagens outrora considerados (por mim) inúteis, aqui, começam a se tornar o olho do furacão dos eventos que estão por vir. Isso só mostra, de novo, como a história que Bryan Fuller quer contar é completa e devidamente planejada, desde o início (damn you, NBC).
Digo isso, pelo simples motivo de: ALANA BLOOM. Essa mulher, tão xingada por mim nas reviews, precisou somente de um mísero episódio, um sorriso torto e um casaco vermelho para me fazer desmoronar e mudar totalmente de opinião. Nunca escondi meu desgosto pela personagem. Afinal, Alana estava ali com aquela cara de paisagem só para ser massivamente manipulada por Hannibal e complicar a vida de Will.
Mas agora, tudo mudou e eu finalmente entendi o porquê que ela tinha que ser feita como palhaça. Era necessário ela estar em total estado de vulnerabilidade e totalmente comprometida afetivamente com um dos dois para, um dia, levar o tombo definitivo. E esse dia chegou, e como chegou. Assim como Will, Alana também morreu naquele jantar sangrento. Mas, ao contrário de Will, a Alana que ressurgiu é porreta demais, e cheia de possibilidades. Determinada, focada e manipuladora, Alana é a primeira a saber o que realmente deve ser feito de agora em diante. Ela passa de mera coadjuvante a diretora da peça teatral da derrocada. Alana Bloom é a Fawkes de Hannibal. Adeus Alana sentimentalmente cega. Olá Alana dos meus sonhos!
Enganados estão aqueles que acham que a manipulação do dr. Chilton foi efetiva. Ele foi de pessoa em pessoa e na realidade não obteve sucesso. Até mesmo com Alana. Se engana quem acha que ela deixou se manipular pelo Dr. Chilton. Ela não se uniu à Mason Verger porque foi manipulada. Os dias de Alana Bloom manipulada, aparentemente, acabaram. Ela se uniu à Mason Verger porque, agora, está no controle de sua situação, e consciente do que está por vir. Mas sim, devemos admitir que o dr. Chilton deu aquele empurrãozinho que precisava, afinal, “hell hath no fury like a woman scorned”.
O que falar sobre o Dr. Chilton? Só posso dizer que agora ele está mais mascarado do que nunca. Por falar em mascarado, chegamos à Mason Verger (tuuum dum tááás). Mason Verger, que pouco conheço, mas já considero pacas! Vale dizer o quão incrível foi a interpretação do Joe Anderson, que conseguiu passar serenidade e até mesmo um certa dose de sanidade, em um personagem totalmente insano. Atrevo a dizer que, ao contrário do que eu achava, não senti falta do Michael Pitt. Na realidade, só lembrei que não era mais ele quase no final do episódio. Ok, o trabalho de maquiagem ajudou nesse quesito, mas fato é que Joe Anderson, mesmo embaixo de quilos de maquiagem, fez de seu Mason Verger mais parecido com o Mason Verger dos livros, e mais ainda, ele fez de seu Mason Verger ainda mais parecido com aquele interpretado por Gary Oldman no filme de 2001 (Hannibal). Aquela voz, meu Deus, quanto tempo eu estava esperando para ouvir aquela voz! Esse era o Mason que eu esperei tanto para ver. Um Mason mais sádico que o próprio Hannibal. Lembrem-se que, o dr. Lecter mata e depois come suas vítimas, enquanto Verger planeja comê-lo vivo. Aqui se faz, aqui se paga. “Dra. Bloom, se eu tivesse lábios, dava um sorriso”, sem mais!
Alguém, além de mim, acha que a carta que o Jack recebeu, supostamente do dr. Lecter, no funeral da esposa foi na realidade elaborada pela dra. Bloom? Eu acho. Nada me tira isso da cabeça. Ele tinha decidido esquecer Hannibal Lecter, e essa carta serviu para o trazer de volta e também para o libertar de vez. E assim, fez ele e Will terem, ainda mais, certeza do que deverá ser feito. Jack não “rompeu” com Will, e definitivamente não “rompeu” com Dr. Hannibal Lecter, ainda. RIP Bella Crawford.
O relógio está correndo e Hannibal sabe disso, o cerco está fechando e ele também sabe disso. A tendência agora é ele se divertir ainda mais. Afinal, ele está deliberadamente atraindo seus inimigos. Não podemos, nunca, esquecer que o dr. Hannibal sempre tem um plano. As peças estão em suas devidas posições e agora o jogo está a todo vapor. Esperem por mais diálogos existenciais e filosóficos.
Quero aproveitar esse momento e fazer singelas e ingênuas perguntas à vocês que disseram que esses três primeiros episódios foram enrolação pura ou que tiveram muitos diálogos filosóficos. Sério que vocês não sabem que esse é o “modus operandi” do Bryan Fuller? Sério que vocês não aceitam como ele decidiu mostrar a beleza em um tema tão grotesco? Sério que vocês não aceitaram a necessidade de mostrar esses sentimentos de forma abstrata? Sério que vocês não aceitaram que tudo que vimos durante esses três primeiros episódios, foi a expressão em tela de uma mente que funciona através da arte? Sério que vocês não lembram que até mesmo o universo literário de Hannibal tem toques filosóficos? Não é somente um romance policial. Exemplo concreto disso é o “O Silêncio dos Inocentes”. Quer mais filosofia do que na relação entre Hannibal e Clarice? Por fim, uma gentil dica: a série é assim, carregada de diálogos filosóficos e existenciais. O aspecto da série é para ser esse mesmo, de pintura transferida para televisão. E é, justamente, por esses aspectos que a série ganhou seguidores fiéis. Ninguém é obrigado a gostar, como também ninguém é obrigado a assistir. Agradeço a atenção.
Aperitivo: semana passada não consegui fazer a review, final de semestre é sempre bem gostoso. Enfim, quero agradecer, de coração, o lindo do Cléverton Bezerra que prontamente fez a review. E que obra de arte escrita foi aquela review, não acharam?
Entrada: quero aproveitar a oportunidade para ter mais um dos meus devaneios: será mesmo que o Bryan Fuller vai mudar tanto a história em relação a Lady Murasaki? No universo literário, Lady Murasaki era mais velha que Hannibal e foi, além de tia, sua professora e amante, quando ele ainda estava em plena juventude, após a morte dos pais e da irmã. Aqui, no universo televisivo, por enquanto, só sabemos que Lady Murasaki é mais nova que Hannibal e, é aquela que guarda o segredo do que realmente aconteceu com Mischa. Ou seja, por tabela, também há a possibilidade de mudança dos eventos relacionados à Mischa. Essa teoria ganha mais força, pela comparação, feita pela Bedelia, entre Mischa e Will. E pela mais fenomenal e sincera frase de duplo sentido que já vi: “qual o sabor da sua irmã”. Bryan Fuller, você não existe!
Prato principal: existe a possibilidade de Chiyo não ser, de fato, a Lady Murasaki?
Sobremesa: Margot Verger, sua safadinha!
#SaveHannibal
















