A arte de dizer apenas o estritamente necessário.

Eu já havia antecipado aqui mesmo nas reviews a grande possibilidade de um episódio centrado em Norma no futuro pelo simples fato de a série estar, pela primeira vez, desenvolvendo um arco para ela já há alguns capítulos. Tongue-Tied (“O gato comeu”) formalizou a importância dada à mudinha e entregou 60 minutos bastante interessantes e bacanas de assistir.

A história de Norma não é lá das mais complexas ou elaboradas do mundo, mas conversa totalmente com a situação que ela vive na cadeia nos tempos atuais, o que é ótimo, já que toda a trama de fazer com que ela seja vista como uma líder espiritual na prisão ganhou uma explicação robusta e passou a fazer sentido.

Norma foi uma mulher doutrinada pelo estilo de vida de comunidades de fé alternativa. Sua vulnerabilidade diante da deficiência (que não é mudez, e sim gagueira, esclarecem os flashbacks) fez com que um falso profeta tenha se aproveitado da moça durante toda a sua vida. E até o penúltimo segundo, Norma acreditou cegamente em seu guru, o que teve um fim na divertida cena em que a personagem profere sua primeira e única fala em três temporadas de seriado.

Ainda que Norma tenha matado alguém (e isso não significa que ela tenha sido condenada por esse crime, vide Miss Claudette, que matou um estuprador mas ninguém nunca descobriu e não estava presa por esse motivo), não acho que a personagem seja perigosa. O empurrão foi claramente por impulso em um momento de humilhação, e o “filho da puta” foi um desabafo e não necessariamente indica premeditação. Aliás, divertidíssimo e muito conveniente – pra não dizer preguiçoso – ver o cara decidindo humilhá-la justamente no momento em que estava na beira de um penhasco.

Mas a minha fé em Norma pode muito bem ser fruto do claro esforço da série em nos manipular para acreditar na detenta. Ao longo do episódio, o roteiro brinca inúmeras vezes com a possibilidade de a mudinha ter, sim, algum tipo de poder, e decide usar Red como a nossa voz dentro desse contexto.

Extremamente cética, a russa ri da fé cega das detentas, e eu dou o maior apoio o tempo todo. Mas, à medida que sua relação com Norma começa a interferir diretamente no progresso da vida da ruiva, primeiro lhe devolvendo o comando da cozinha após o surto de Gloria acusado pelo filho capeta, e depois tirando-lhe totalmente o poder depois de ela maltratar a amiga, faz com que Red – e nós, por consequência – passemos a pensar “mas não é que o santo dessa mulher é forte mesmo? Será que foi ela quem fez isso?”.

No fim das contas, Norma decide seguir sua “vocação” e atender à demanda das detentas, eu uma cena muito bela e poética. Afinal, depois de ter passado a vida seguindo um falso profeta e sendo um mero capacho, Norma finalmente criou asas e se tornou uma profeta verdadeira.

Ou não. Ou ela simplesmente aprendeu que o mundo é dos espertos e que a fé dá um enorme poder de controle popular a seus líderes. Adoro ver a série deixando ao nosso critério o posicionamento em relação a essa ambiguidade. Particularmente, ainda que eu seja cético demais para dar crédito aos supostos poderes mágicos, acredito na boa fé de Norma, e enxergo felicidade legítima no rosto da detenta na última cena do episódio.

Piper, enquanto isso, está se jogando no seu novo negócio das calcinhas com cheiro de xereca de presa. Fetiche é fetiche, mas vamos combinar, quão nojento é isso? Cruz-credo. Foi muito divertido ver como o irmão de Piper manjava do assunto “por ter conhecimentos generalistas”, e bacana testemunhar a visão empreendedora da nossa protagonista e sua capacidade de montar praticamente sozinha uma equipe.

A vida na prisão é uma distorção tão gigantesca da realidade que faz com que esse tipo de ideia e de negócio seja realmente motivo legítimo de orgulho. Alex reconhece a inteligência de Piper, mas parece subestimar sua capacidade de liderança. Ela tem motivos pra isso, já que nossa Katy Perry loira é realmente meio ingênua, mas esse tempo está passando, e a malícia da nova Piper está muito interessante de se ver. Ainda que muitas pessoas torçam o nariz para esse arco (até literalmente, talvez), ao meu ver, ele acabou salvando Piper nesta temporada. A personagem funciona muito melhor quando não está totalmente dependente do seu relacionamento meio doentio com Alex. O estado saudável da relação das duas acaba disseminando-se pela série e gerando um roteiro mais fluido e orgânico. Fico feliz com isso, e torço muito para que tudo continue assim e para que continuemos vendo Orange Is The New Black no melhor que pode oferecer.

Observações:

– O roteiro continua forçando a barra para ligar o conceito de privatização ao de incompetência. Até quando?

– O dilema de Daya não foi uma completa perda de tempo, mas soou um pouco desnecessário e levemente deslocado do resto do episódio, mas valeu por sua interação com Piper. O debate acabou sendo interessante.

– Depois de praticamente protagonizar a temporada passada, o núcleo negro voltou a ser usado basicamente como fonte de humor solto e independente. Nesse episódio, porém, isso funcionou muito bem com as hilárias declarações de Black Cindy e a maravilhosa literatura de Crazy Eyes, cuja arte obviamente cativou a carentíssima Poussey.

– Morri de rir com a série esfregando na nossa cara a bipolaridade de Lolly. Perto de Alex ela se recusa a falar com Piper, mas longe ela volta a agir como BFF. É tão suspeito e tão clara a intenção de fazer com que ela pareça ser uma capanga do Kubra que não consigo não desconfiar muito de que seja apenas uma distração para desviar nossa atenção (e a de Alex) de uma ameaça real que está por vir.

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.