NATHANIEL SAMUEL FISHER, JR. (1965-2002)
Se alguém pedisse para você desenhar um círculo perfeito, qual seria sua reação? Ficaria incrédulo quanto a tarefa e nem faria o teste ou começaria a desenhar um círculo atrás do outro, mesmo que isso levasse horas, dias, semanas? Mais do que mostrar algo de sua personalidade, tentar desenhar um círculo perfeito é um exercício de percepção da nossa própria humanidade. Podemos encher folhas infinitas de desenhos e não conseguir confeccioná-los, mas, se pararmos por alguns momentos para olhar os círculos imperfeitos que fizemos, perceberemos que eles serão diversos, dificilmente existindo dois iguais. E o que isso representaria? Que somos humanos. Podemos sempre almejar alcançar a perfeição em nossas vidas, no entanto não somos assim. Temos nossos aspectos positivos e negativos, comeremos nossos erros e acertos e, assim, nos diferenciamos uns dos outros. O título dessa première da terceira temporada de Six Feet Under demonstra muito sobre o caminho de seus personagens seguiram, ao longo de seus quarenta e oito minutos e, no fim das contas, constatamos que, apesar de todos ansiarem cenários ideias, eles apresentam imperfeições, que, ao invés de condenáveis, entregam a beleza de suas existências.
Claire Fisher foi quem trouxe a lógica dos círculos para o episódio. Depois de passar tanto tempo em um processo de autodescoberta e de identificação de seus anseios, a caçula enfrentou a realidade de uma escola de arte. Você não chega lá para ficar produzindo os seus projetos, sendo amparado pelo coaching dos professores. Na verdade, como qualquer outra escola ou universidade, é necessário abordar a arte de forma abrangente. Por outro lado, a insatisfação da garota está fez com que ela negligenciasse as atividades que ela realizava, que, possuíam um fundamento de descoberta, de despertar a inspiração. Desenhar o círculo perfeito poderia ser uma forma de o professor fazer os alunos enxergarem as diversas facetas que nossa humanidade é capaz de produzir, assim como precisamos de muito esforço para atingir uma situação ideal. E até mesmo o desenho do modelo humano, que trocava de posição a cada 30 segundos, era um exercício de produção não de obras de arte, mas de reprodução de nossos primeiros sentimos, do primeiro impacto ao encararmos algo novo.
David e Keith se colocaram em polos opostos de suas expectativas. E é necessário ressaltar a maturidade do roteiro com ambas as figuras, pois, apesar de compreendermos a lógica do diretor funerário, também percebemos os momentos em que ele exagera, assim como compadecemos de Keith em suas frustrações, apesar de não sermos coniventes com sua forma agressiva de lidar com as pessoas em seu redor. O ideal para o ex-policial era que o parceiro entendesse que, quanto mais ele fosse grosso, mais ele estava demonstrando o amor. Por outro lado, David se espelha tanto em Keith que deixa de buscar interesses próprios, o que, felizmente, ele começa a reverter ao final do capítulo. No entanto, o momento mais representativo do casal em Perfect Circles foi o quase-sexo. Keith estava cansado, mas abriu a possibilidade de transar. David, em seu anseio por perfeição, em uma cena cômica, chegou ao ponto de aparar até os pelos do nariz para então voltar para o quarto e praticar o ato. A essa altura, porém, o parceiro já tinha dormido.
Ruth protagonizou uma das cenas mais belas da série, quando, conversando com Maya, revela que a gravidez de Nate não foi planejada e que ficou aterrorizada com a responsabilidade de um filho para criar. Seu protecionismo com a neta não é condenável. O problema é que Ruth, desde a morte do marido, teve somente a floricultura como um projeto que a retirava dos problemas de sua casa e dos filhos. Mas até isso ela perdeu e o que restou a ela foi focalizar sua possibilidade de felicidade em Maya. A intensidade com que ela fez isso, porém, incomodou Lisa, que está longe de seu ideal de vida com Nate. Mesmo que ela afirme para a amiga que ela teve um relacionamento com o marido por oito anos, a realidade é que o rapaz não deve enxergar isso dessa forma. Até porque sua percepção de relacionamento mais real e maduro provavelmente reside em Brenda. A presença de sua chefe, Carol, não ajuda sua situação. Perto de Carol, a família Fisher é bem equilibrada e estruturada emocionalmente. O perfeccionismo da produtora de cinema é tão aguçado que, até mesmo quando ela chora, há uma nota de caricatura e falsidade. E, dentro de sua lógica de perfeição, ter alguém compadecendo por suas emoções é uma fraqueza inaceitável e isso a leva a humilhar Lisa. Resta saber até que ponto chegará a tolerância de Carol frente a existência de Nate, que impede que Lisa se dedica exclusivamente a ela.
O ponto alto dessa estreia, no entanto, ficou com Nate. Que início de episódio intenso e arrebatador. Começamos com o medo da possível morte do personagem, pregamos o caixão com sua conversa com o pai e, depois, passamos a entender que havia um jogo psicológico acontecendo na mente do rapaz. O gato de Schrödinger foi usado de uma forma tão exemplar que merecia aplausos. Na premissa de Nate, naquele momento, ele estava sendo operado e tinha cinquenta por cento de chances de sair vivo ou morto. Diante disso, na divagação de sua mente desacordada sendo operada, ele estava, ao mesmo tempo, vivo e morto e somente quando terminasse os esforços dos médicos é que ele poderia, de fato, morrer ou continuar a viver. A sequência final de sua viagem foi o momento estilisticamente mais incômodo e deslumbrante da série, uma cena que testava os limites das crenças do rapaz. Ele acreditava que havia bilhões de universos, que, se ele morresse ali, ele poderia encontrar conforto na possibilidade de existir em um cenário alternativo? Não, ele não estava pronto para aceitar morrer ainda. Ele tinha que continuar sua busca pelo significado de sua existência, algo que o persegue desde a primeira temporada.
NATHANIEL SAMUEL FISHER, JR. (1965-
O Nate que sobreviveu, casou-se com Lisa e mora numa dependência da casa de Carol, infelizmente, não mudou tanto depois da cirurgia. Seu egoísmo, por exemplo, continua lá quando ele descobre que não foi resultado de planejamento e sim de um incidente. Ele não pensa na dificuldade que sua mãe deve ter passado, na quantidade de esforço que seus pais colocaram em prática para que ele pudesse crescer bem, nem no fato de que sua filha também não foi planejada. Ele consegue unicamente constatar que sua existência é aleatória.
Six Feet Under deu início a sua terceira temporada de forma intensa e esbanjando a sensibilidade que se tornou sua marca registrada.















