Só nos encontramos no olhar de outra pessoa.
DWIGHT EDGAR GARRISON (1945-2002)
Eu sou verdadeiramente apaixonado pelas cenas iniciais dos episódios de Six Feet Under. Acho que esta ideia é um acerto gigantesco de Alan Ball, especialmente porque elas nos apresentam diferentes facetas do fim de uma vida (e não importa as circunstâncias, se esperadas ou estupidamente aleatórias: o fim é o fim!). Aqui em Someone Else’s Eyes, esta cena conseguiu ainda ser surpreendente. Enquanto eu já me preparava para relembrar de Construção, canção do Chico Buarque, o twist: não foi um operário que caiu da construção, mas sua marmita de metal que atingiu um transeunte que passava na rua.
A competência de Six Feet Under de desenvolver seus personagens e tramas de forma equanimemente equilibrada é digna de louvor. Trama mais que correta, segura, que captura nossa identificação com tais personagens, tão diferentes e tão próximos de nós. Personagens rodeados sob a égide do morrer, mas ainda assim exalando vida. Aquela vida que não é medida pela quantidade de oxigênio consumido, mas exatamente pelo olhar do Outro, que nos fita, nos vigia, nos admira, nos censura, que nos vela. Enfim, que repousa sobre nós afeto, de forma que permanecemos inquietos se não há quem nos mire.
Six Feet Under é tão crua em tocar o dedo nas feridas de nosso narcisismo e em expor nossas misérias. A dependência do Outro e seu olhar. Talvez seja esta a pior de nossas misérias, posto que sem a qual nada podemos fazer.
Brenda, Nate e o noivado dos dois são o tema central desta segunda temporada. Seu instantâneo desejo por se casarem aliado às profundas inseguranças que ambos sentem. Além das dúvidas inerentes a qualquer casal prestes a constituir a sacra instituição do matrimônio (Será que eu o/a amo? Será que vai dar certo?), Nate convive com a constante sombra da morte, além de volatilidade do temperamento de Brenda, a qual vem demonstrando (com sua sequência de surtos, episódio após episódio) mais que uma tensão post-engaged. É como se Brenda resistisse a confiar e depender tanto de uma única pessoa.
Inegavelmente, a saída de Billy do hospital reacende em Brenda os fantasmas de um passado tutelado por uma relação tipicamente infantil (se não cronologicamente, certamente o é, em termos psíquicos). Só aumenta a confusão que ela se encontra e aprofunda os limites que ela deliberadamente cruza (desta vez, sexo com um desconhecido, autor de um livro em lançamento).
Como dilema pouco é bobagem, Lisa retorna a encontrar Nate, revelando que está grávida de um filho(a) dele. Assim, o roteiro segue sua risca de levar Nate a trilhar os obstáculos mais cabeludos em sua luta interior para se adequar à normalidade sociocultural. Exatamente quando ele decide “sossegar” (por amor genuíno à Brenda ou por medo da solidão?), sua amizade colorida de 480000 mega pixels com Lisa gera um fruto absolutamente inesperado, impondo novos desafios ao papai Nate.
Sem o olhar de Brenda (outrora constante) sobre si, Billy recorre à sua amiga Claire para um ensino fotográfico no qual ele está desnudado (seja no próprio corpo, seja na alma). Impressionante a cicatriz nas nádegas evidenciando a remoção da tatuagem “Isabel”. É do próprio Billy um dos diálogos mais brilhantes da série, acerca do mito de Narciso (origem do conceito de “narcisismo” que designa todo o investimento de afeto que dirigimos a nosso próprio eu): não é que Narciso ame a si mesmo – na verdade, ele se odeia -, é que ele não consegue viver sem o olhar de outra pessoa…
Felizmente Claire decidiu se afastar da problemática companhia de Billy, ainda que tenha que conviver – como todo adolescente que se preze – com a mesma alterdependência: afinal, é bem melhor ter uma amiga idiota do que nenhuma.
Após alguns lampejos de assertividade (especialmente, na fase pós-The Plan), Ruth se vê novamente cuidando de todos ao seu redor. Agora, é a vez de Nikolai encher o saco repousar. Impressionantemente, julgo que Ruth sublimou todo seu desejo de se apaixonar (e o risco que isto envolve). Somente isto explica sua dedicação inabalável ao namorado, mesmo após descobrir que ele não fora vítima de um acidente, mas da cobrança de uma dívida – por parte de um agiota da máfia russa. Torcemos para que Ruth Fisher trilhe de vez uma jornada em direção à autonomia emocional (ainda que ele não deva satisfação a nenhum dos filhos…).
RIP 1: Nikolai assistindo Teletubbies…e gostando. Quem nunca???
RIP 2: Belíssima a reação do Nate, enquadrando viúva e filhas do falecido – que brigavam, pois, o pai solicitou ser enterrado no jazigo ao lado da ex-esposa… Valeu a pena romper a sobriedade do tratamento da Fisher&Sons com seus clientes.















