A pluralidade de Glee chegou ao fim… Assim como sua forma deliciosa de ampliar nosso vocabulário musical.
Seis anos atrás parecia que tudo seria uma questão comercial… Se tem uma coisa que Glee pareceu aos olhos da maioria das pessoas, foi não passar de um mero produto oportunista oriundo do sucesso de High School Musical. É claro que houve uma porta mais passível de ser aberta depois desse fenômeno, mas Glee também não demorou a provar que era muito mais que isso. Seu primeiro hino foi uma canção dos anos 80 de uma banda que a maioria dos jovens da época não conhecia. E ainda que tivesse um compromisso de visitar os hits das grandes divas do momento, a série também revivia clássicos, manipulava mitos e reverenciava ícones. A experiência musical de Glee era muito mais que competente… Era poderosa e única.
Pra mim é muito fácil compreender essa magnitude, porque eu coloco em perspectiva o quanto sentirei falta dessa pluralidade, e quase dá vontade de me deprimir. O universo musical do show estava tão incutido em mim, que a lista de saudades doloridas vai me perseguir por muito tempo depois daqui.
1 – Começava com a canção tocando no episódio, geralmente editada. Muitas vezes ali mesmo ela já parecia forte, outras vezes só me ganhava depois de ouvida com mais detalhes.
2 – Terminado o episódio era hora de baixar a versão full.
3 – Depois que a temporada terminava, um grupo delas era escolhido e gravado num CD, para ser ouvido em plenitude no meu discman.
4 – Das 22 canções que geralmente cabiam na mídia, 15 eram escolhidas para fazerem parte dessa lista.
5 – Esse CD (e mais as que ficavam na memória do telefone) ia comigo para todos os lugares, embalava todos meus momentos mais contemplativos, tristes e felizes, e me diziam o que eu precisava ouvir, de modo certeiro e inevitável.
A rotina musical da série também tinha suas belezas e engrenagens. Esperar uma temporada nova de Glee começar, era esperar pra saber quais seriam os novos itens desse sistema divertido de especulação sonora.
1 – Grandes hits do verão apareceriam em novas e ousadas versões, que geralmente abririam mão dos sintéticos e apresentariam arranjos instrumentalizados.
2 – Tributos a nomes do pop ou do clássico seriam espalhados pela temporada.
3 – Um musical seria reencenado.
4 – Mash-ups entre artistas improváveis seriam apresentados.
5 – Números épicos de competição seriam promovidos.
6 – Novos nomes seriam divulgados… Nomes já estabelecidos seriam reinventados.
7 – E haveria as versões sem nada de novo, mas que valiam a pena apenas porque, enfim, era o jeito Glee de respeitar os gênios.
Cada uma dessas coisas representa, sobretudo, o acesso ao conhecimento. Se esquecêssemos de todas as qualidades e defeitos dramatúrgicos do show, ainda sobraria sua música. E isso, senhores… Isso é intocável, porque mesmo quando Glee errou numa versão, acertou no apelo, no compromisso. Ela levou a cada um de seus espectadores, a oportunidade da descoberta, aquela oportunidade mágica de saber.
(eu, o namorado e alguns amigos dentro de um bar gay no Rio de Janeiro)
(uma canção ecoa da televisão, ligada num canal de áudio)
Namorado: … eu não sei se vou.
Amigo 1: Eu também não, mas estou curioso pra saber o que será a “experiência 4D”.
Amigo 2: Provavelmente vão jogar água na gente quando aparecer uma cena de chuva.
Namorado: Credo, eu não vou então… Mas, eu sabia que eu conhecia essa música de algum lugar.
Eu (que cantarolava): Eu quero muito ir…
Namorado: Você conhece esse filme, Rick?
Amigo 1: Você não tem idade pra ter visto, Henrique.
Eu: Foi na TV… Mas eu nunca tinha me interessado por ele, embora já tivesse ouvido falar.
Namorado: Mas você deve gostar, tá aí cantando a música.
Eu: Fizeram Rocky Horror no Glee.
Namorado: Ah, o Glee… Eu já ia chutar essa.
Eu: Assistir na boate já conhecendo as músicas vai ser muito bom… Nós vamos, né?
Amigo 2: Mas eles não vão fazer a versão do Glee.
Eu: Tem problema não… Eu canto na minha cabeça.
Ter ido ver Rocky Horror depois da série, ter comprado um CD do A Great Big World por causa da série, saber de cor canções clássicas de outros musicais como Rent, West Side Story, Grease, Into the Woods e tantos outros… Conhecer tanto repertório de Ariana Grande mesmo sem nunca ter ouvido seu álbum, achar Lady Gaga ótima só pelo que Glee diz através dela, amar mais Britney Spears pelo que fizeram com suas canções, me orgulhar de ver o Keane e o Young the Giant serem parte do show, chorar com tributos de Whitney, Michael e Madonna e ao mesmo tempo saber mais sobre Billy Joel e Beatles… Tudo isso foi um imenso orgulho. Porque Glee tinha a mágica da paixão e era capaz de olhar de forma lúdica até para canções que eram amaldiçoadas pelo estigma da superficialidade. Isso era lindo… Glee te fazia conhecer, te fazia reconhecer, te fazia redescobrir.
Mas enfim, esse post era mais para falar sobre o sexto ano e já estou aqui, digredindo. O que a série fez pela sua última temporada, dramaturgicamente, já foi muito bonito e sensato. Musicalmente falando, foi como se, pelo fato de não terem mais um compromisso com subir a audiência e sim apenas mantê-la para o fim de um contrato, a produção musical se desse o direito de usar um catálogo inconcebível para anos anteriores. Ou isso, ou o catálogo disponível se resumia a muitos hits dos anos 80 e 90, responsáveis por deixarem a sexta temporada com uma ternura melancólica, o que era, quase propositalmente, uma coisa muito positiva pro show.
Claro que tivemos os grandes nomes do momento, apenas para reforçar como vai ser difícil daqui pra frente pensar “o que Glee faria com essa canção?” e saber que não teremos a resposta efetiva. Na minha lista das 15 melhores músicas da última temporada, pensei em apelo emocional, fuga do original e arranjo. A ordem, como sempre digo, não é aleatória… É a exata ordem em que gravo num CD.
Take Me To Church
A dramática e poderosa canção do Hozier tem uma infinidade de covers na internet. Na voz daquele que é uma das maiores descobertas de toda a história da série, Take me to Church ganhou um arranjo de corais e bateria que faz os pêlos dos braços emanarem eletricidade. A voz de Noah Guthrie é tão absolutamente mágica e comovente, que fez essa música soar como uma espécie de hino divino, realmente. A canção tem um videoclipe icônico sobre homofobia e isso está absolutamente dentro da proposta da série e da última temporada. Recomendo que vocês ouçam a versão inteira (cortaram dois minutos inteiros na edição) e com fones de ouvido. É um deleite, senhores… Um deleite.
https://youtu.be/J4jG8cR7y9c
All That Bass
Meghan Trainor fez essa canção divertida sobre ser um gordinho orgulhoso e Mercedes e Roderick resolveram cantá-la no porão da casa de Rachel no ótimo Transitioning. Embora as duas versões se aproximem, as vozes de Amber e Noah subirem o nível e junto com o arranjo mais encorpado, deixaram a canção mais elegante e limpa. Glee tinha muito isso de deixar o áudio mais cristalino, justamente porque com boas vozes, não precisava se valer tanto de efeitos sintéticos. E Jesus… Quando Noah canta o mundo para.
https://youtu.be/XG2kT_sSWhs
Hand in my Pocket / Feel the Earth Move
O episódio com mash-ups entre Alanis Morissette e Carole King foi uma ideia ótima. Embora os álbuns escolhidos não estivessem tão incutidos dentro dos plots, as versões das canções foram muito bem estudadas e foi difícil saber qual escolher pra colocar aqui. A união de You Learn com You’ve Got a Friend e a de Head Over Feet com You Will Love me Tomorrow, também tinham muita força. Escolhi o dueto entre Santana e Brittany porque considero que de todos os mashs, esse é o mais orgânico, que parece mais com uma coisa só, que soa mais como uma música fluída, sem separações rítmicas. A faixa ficou gostosa de ouvir e de cantarolar e mesmo que o número, no episódio, não tenha sido bom, a música é um presente desse sexto ano pros fãs.
https://youtu.be/KygFX8VkX7w
Take On Me
O show de canções que transitam entre os anos 80 e 90 começou com Take On Me, esse hino do A-Ha que revolucionou a época com seu videoclipe em rotoscoping, que faturou nada mais nada menos que seis prêmios no VMA de 1986. Glee não mudou absolutamente nada no arranjo, mas mereceu muitas reverências por ter usado a mesma técnica no número coletivo, que aproveitou pra fortalecer, também, as raízes do show: o New Directions canta junto pela escola pra conseguir novos integrantes, dá um show e ninguém se importa.
https://youtu.be/Cp3_ZZ7B26o
Problem
E se os fãs conheciam a força de uma banda oitentista de um lado, os ávidos por hits contemporâneos puderam se deliciar com essa versão frenética de Problem, da Ariana Grande. Também não há grandes inovações no arranjo instrumental (fora um tostão de banda marcial), mas os vocais distribuídos entre Santana, Quinn e Brittany deram um toque especial pra canção, que também veio acompanhado com uma grande performance (muito bem coreografada) no campo de futebol da escola.
https://youtu.be/AzcTPHI-B8w
I Know Where I’ve Been
Vou pedir licença a vocês para dizer, emocionadamente e novamente, que esse número é um dos mais especiais que a série já fez e também é, sem dúvida, uma das coisas mais belas que já vi na história da televisão. I Know Where I’ve Been é uma faixa extraída do musical Hairspray e que lá, serve como pano de fundo para uma discussão de cunho racial. Glee não foi a primeira a subverter a mensagem para a questão sexual, mas foi a primeira, sem dúvida, a reunir um coral de 200 transexuais, para junto com Unique (vivido por um sempre injustiçado Alex Newell), encerrarem o especial episódio Transitioning, que tratava da delicada transição de Bestie para Sheldon. Alex tem uma voz desbundante de tão linda, o coral é cheio de gente que exala paixão pela experiência da vida, a letra diz tudo aquilo que todo discriminado quer dizer, o arranjo é um esplendor e a inserção do número é de uma delicadeza que esfrega na cara do mundo o quanto Glee não estava aqui pra brincar somente, mas para promover a inclusão pelo diálogo e pela arte. Senti um orgulho que não cabia no peito por ser fã desse programa… E vou me sentir assim pro resto da vida.
https://youtu.be/tEaBHdNvoTU
Home
O primeiro número com os novos integrantes do New Directions aconteceu no segundo episódio da temporada e trouxe – para nossa alegria – todo o espírito do show de volta. A canção do Edward Sharpe & The Magnific Zeros é um ícone da música folk e em Glee encontrou um sinônimo musical perfeito, em forma de banda marcial. Geralmente canções folks não tem vocais muito limpos, então, ouvir a faixa cantada pelas vozes cristalinas do elenco foi sensacional.
https://youtu.be/306JHaBBrLw
Cool Kids
O admirável investimento da série em canções que vão para todas as direções estilísticas do mercado continuou com Cool Kids. A música tem uma letra que reúne praticamente a essência de Glee inteira e saiu do indie de sua versão original para uma abordagem pop-otimista de fazer sorrir o coração. Não há grandes mudanças no arranjo original, mas a música merece destaque por tudo que ela comunica ao público do show.
https://youtu.be/Iq8VY84sYsM
Break Free
Quem também não teve mudanças significativas nos arranjos foi Break Free. Mas, Ariana Grande aparece de novo nessa lista por conta do episódio Child Star, uma verdadeira viagem nonsense de Glee que faz qualquer um se deliciar. A razão pela qual essa canção entra ao invés de Lose My Breath (também cantada pelo irresistível Myron) é o resultado final, com os vocais de outros membros do grupo amenizando o anasalamento dos agudos do menino. Além disso, esse é aquele tipo de canção que você escuta e fica uma semana sem conseguir tirar da cabeça.
https://youtu.be/VAnEk58wFcA
Father Figure
Aqui voltamos ao mundo dos anos 80 e 90. Foi apenas nesse sexto ano que Glee resolveu fazer números de artistas desse tempo, usando a seu favor artistas como Roxette e George Michael. No ótimo plot sobre sensibilizar Sue cantando as músicas preferidas dela, Father Figure surgiu como uma paulada. Dominada por Roderick, apresentou um arranjo de coro maravilhoso e fez direitinho aquele papel de “comece só apreciando e depois salte da cadeira”.
https://youtu.be/BJyTwc3xv7Y
Popular
Fiquei bastante impressionado com o fato da produção musical da série ter demorado tanto pra usar a faixa Popular, do musical Wicked. A letra é uma espécie de diálogo direto com as analogias que a série vivia fazendo e tinha tudo a ver com metade dos personagens. Mas, terem reservado a canção por tanto tempo só demonstrou mais esperteza da equipe, já que a deliciosa versão cantada por Rachel e Kurt no emblemático 2009 é um presente pros fãs, gruda no ouvido e te faz cantar alto pela sala. Foi o terceiro número do mesmo musical cantado por Lea e Chris e fechou com chave de ouro essa parceria.
https://youtu.be/XMhDC8PTxmo
Uninvited
Passamos do penúltimo episódio para o primeiro, quando as desgraças de Rachel são embaladas pela minha canção preferida de Alanis Morissette. Foi uma escolha perfeita para abrir a última temporada e embora também não haja muita inventividade no arranjo, o trabalho vocal de Lea nos relembrou tudo que Rachel representava pro show. Uma voz límpida e uma interpretação absolutamente dramática.
https://youtu.be/yDzxv1m2cuM
Mustang Sally
Quando Glee se permite covers como esse eu me encho de orgulho. Essa canção é de 1965, mas ficou mais conhecida ao ser gravada por Wilson Pickett um ano depois. Talvez uma galera mais jovem se lembre dela do filme The Commitments. A versão usada em Glee tem muitas semelhanças com o original, mas por conta da clareza do arranjo e da voz de Noah, ganhou uma força impressionante. Quando Roderick começou a cantar eu quase caí pra trás… Ele tem aquele tipo de voz que faz toda e qualquer coisa cantada por ele parecer irresistível.
https://youtu.be/iwadbnLJWl8
This Time
Respeitando seu legado de canções originais, Glee terminou seu último ano não com o trabalho de um dos personagens, mas sim de um dos atores. Darren Cris compôs essa música e Lea Michele ficou com a responsa de dar aquela dramaticidade característica. A letra é totalmente emocional e embora deslize por obviedades naturais da inexperiência, foi salva pelo arranjo de violinos arrebatadores. A última frase, entretanto, é uma resolução afetiva deles para com seu trabalho e nossa para com a série.
https://youtu.be/ieUPxz25glg
I Lived
Acho que muita gente pensou que Glee fosse usar um de seus clássicos como último número. Bem, essa nunca foi uma série dada a obviedades e qual foi nossa surpresa ao ver que o elenco todo se reuniu para cantar uma versão PERFEITA de I Lived, do One Republic.
https://youtu.be/qaqVwlkTENc
Eu nem sei por onde começar… Se não bastasse o elenco quase todo junto, o monólogo lindo de Sue, a mensagem de “veja o mundo como ele deveria ser”, ainda nos destroem com esse arranjo poderoso e irretocável dessa canção ao mesmo tempo sombria e otimista. Os vocalizes de Kevin McHale e Lea Michele espalhados pela canção, os uníssonos destruidores, aquele refrão que te tira do seu eixo, te faz se orgulhar do que já fez e desejar poder sugar tudo que puder da vida… Não há uma só vez em que escute essa canção e não sinta meu coração transbordar, que não sinta uma vontade imensa de chorar de alegria e de pular onde estiver, gritar aquelas palavras com toda força do meu espírito e me acabar. I Lived encerrou essa delícia de série com todas as honras necessárias e merecidas e fez com que sua última sequência fosse tão marcante e emocional como foram cada uma dessas seis temporadas de verdade e utopia.
E quem quiser, pode clicar aí no vídeo abaixo, que foi gravado por Harry Shum e liberado no YouTube, mostrando um dos takes da gravação desse último momento.
https://youtu.be/o91BQQOwlAM
Então, para encerrar esse post, resolvi trazer de volta as listas com as 15 canções escolhidas para cada temporada.
Aí vocês podem relembrar quais foram as eleitas e fazerem vocês mesmos suas considerações (lembrando que as ordens são sempre aleatórias). Através desse quadro, escolhi 20 músicas dentre todas as temporadas e criei o que seria o meu Top dos Tops.

É claro que sempre haverá canções que não apareceram e que descobrimos tempos depois que foram injustiçadas (Don’t Speak, Umbrella, Homeward Bound, No One is Alone… e por aí vai). Listas existem para serem contestadas, mas também existem para reverenciar sua origem. O sexto ano foi, musicalmente, como o parceiro perfeito para o que a série se propôs a fazer narrativamente. Veteranos em meio aos jovens… Clássicos em meio aos contemporâneos… Um casamento peculiar entre o legado de um tempo e o tempo para um novo legado. Aquele deixado por Glee e todos os que tiveram a sorte de estar com ela cantando junto.
Em tempo: último texto sobre Glee, prometo.
















