
Eu acho estranho quando as pessoas descrevem Breaking Bad como uma série lenta. Claro, não estamos falando de uma 24 ou Prison Break, mas o ritmo sempre me pareceu balanceado, e mesmo que não fosse, eu estaria satisfeito, pois muito além das tramas tensas e explosões, essa é, não uma série, um estudo sobre desenvolvimento de seres fictícios que poderiam muito bem serem reais. Admito que não comecei tão fã dela. Metade da primeira temporada não funciona por tentar estabelecer um distanciamento racional que não leva a nenhuma reflexão ou resulta em algo produtivo. A infame greve dos roteiristas teve um papel nisso, o que ainda não safa Vince Gilligan e cia dos pecados estruturais cometidos na primeira temporada e no início da segunda.
Spoilers abaixo!
Foi em “Peekaboo” que tudo mudou. O que antes era um bando de boas ideias cozinhadas na ordem errada se tornou a receita perfeita que guiou a série ao sucesso nessa segunda parte da segunda temporada. Conseguindo amarrar tudo e dar um sentido poético aos flashforwards, partimos para a terceira e tudo isso foi por terra. O que era uma ótima série se tornou uma (a?) das melhores em exibição, assim abrindo caminho para um hall glorioso e privado de séries com temporadas quase perfeitas. Sim, a temporada foi nesse nível.
A principal mudança foi na escrita. Os maravilhosos roteiros continuaram a aparecer em doses cada vez mais frequentes, personagens secundários ganharam sentidos apropriados e o longo caminho que Walter White percorreu se tornou cada vez mais imponente e obscuro. Mas acima disso, a diferença principal da temporada foi o seu planejamento, ou melhor, a falta de um. Sim, ao contrário da anterior, ela não teve um plano mestre, muito menos ursos de pelúcia em piscinas. Os roteiristas foram se virando episódio após episódio, com somente uma noção básica do que aconteceria. Jogada arriscada? Sim. De sucesso? Claro. Vários fãs de televisão repetem como um mantra que séries são organismos vivos, que se modificam e acabam dizendo ao criador o que fazer, quais caminhos seguir. Eu concordo 100% com isso e digo mais: o de Breaking Bad foi um dos primeiros a realmente ouvir. Esse não é o único fator que leva a esse tipo de tática, outro como o das atuações – que podem funcionar ou não, assim esticando ou encurtando a estadia de um personagem – entram em cena, mas o que importa é que a boa escrita prevaleceu, chutando de vez a noção ridícula que certos fãs tiraram de Lost: a de que tudo deve ser planejado.
Quanto às histórias, elas trazem ainda mais o senso de perigo que sempre funcionava nas temporadas anteriores, mesmo quando usado em péssimos momentos. O confronto dos primos com Hank em “One Minute” não foi premeditado, e sim uma saída encontrada para eliminar personagens que não teriam uma boa história nos episódios finais. E todos nós sabemos o resultado: um episódio praticamente perfeito. Também foi com Hank que vieram outras mudanças importantes para o destino que a série tomou. Personagens do mesmo calibre ganharam importância, com Saul Goodman ainda mais enterrado na pilha de merda que seus parceiros o colocaram e com Gus virando a mente brilhante por trás de todos os esquemas e servindo como vilão definitivo para uma série que lutou tanto exatamente por isso, alguém que fizesse frente ao Walt.
Falando nele, que imbecil, não? Um telespectador precisa de simpatia (mesmo que mínima) com o protagonista para gostar de uma história, e no começo nós até tínhamos. Agora, depois de matar dezenas de pessoas direta e indiretamente, é impossível não sentir repulsa e, ironicamente, continuar torcendo pra que ele vença. Não estou criando uma ilusão de que tudo será arco-íris e fontes de chocolate para ele após o series finale, mas ainda há algo nesse ser humano horrível que nos leva a querer que as coisas funcionem no fim. Talvez sejam os seus laços familiares ou a negação da condição de “cara ruim”, simplesmente continua ali. E enquanto um foge a todas as custas da verdade que veio a tona e se torna mais evidente a cada segundo, outro prova que não é essencialmente ruim, só muito confuso. Essa conclusão distorcida que o roteiro chegou não deixaria de ser brilhante nas mãos de outro, porém, se torna muito mais nas do Aaron Paul. Sem um arco definido, ele acaba flutuando ao redor das decisões do seu mentor, mas quando tem a chance de brilhar, não decepciona. Dá vontade de roubar um Emmy e levar até a casa dele após os monólogos brilhantes dessa temporada.
Tudo isso, todas essas visões, levam á jogada final. O movimento desesperado de Walt para salvar o mundinho odioso que ele mesmo criou envolve, surpresa, surpresa, sangue. E é olhando para esse episódio, “Full Measure”, que percebemos até onde a série chegou e até onde ela pode ir. Puxando e quebrando todos os limites, sem medo e arrependimento.
Parabéns a todos os envolvidos numa das melhores temporadas de televisão que eu tive o prazer de presenciar e que não poderia passar em branco aqui no blog, mesmo sem uma cobertura semana após semana. Que continue assim.














