Claire Underwood é uma personagem trágica. O primeiro episódio de House of Cards estabeleceu competentemente o perfil de Francis: um homem frio, calculista, implacável e sagaz. De lá pra cá sua jornada foi o foco da série e a principal parcela de Washington apresentada ao público. Discretamente, o roteiro foi formulando a esposa do protagonista. Uma mulher que devotou sua vida ao marido, mas que não fez isso de forma forçada: ela tinha objetivos tão grandes quanto os de Frank e abriu mão de convenções e de lealdades sexuais para se dedicar ao futuro compartilhado. Sim, ela teve oportunidades de escapar da teia do marido, mas suas ambições e os anos dedicados às mesmas impediram que ela se desvencilhasse dele. A terceira temporada veio com o intuito de mostrar uma mudança no rumo da personagem: ela queria deixar de ser a sombra do esposo, queria garantir o seu futuro, caso o dele tivesse prazo de expiração. Apesar de subestimada por todos em seu redor, até mesmo por seu companheiro, Claire demonstrou pulso firme, capacidade de negociação e inteligência ímpar para compreender os diversos fatores que influenciam e geram pressão em decisões de caráter internacional. O caminho dela parecia seguro e otimista, independente da qualidade do relacionamento dela com o marido. Isso, no entanto, veio por água abaixo nesse Chapter 36. E doce e elegante como poesia, o golpe duro e cruel partiu exatamente daquele que foi humilhado por ela: Viktor Petrov.

O episódio passado foi um primor de roteiro e direção. Dessa vez, o destaque ficou com as atuações. Fazia tempo que o elenco completo de House of Cards não entrava em uma sincronia tão furiosa. A crise do Vale do Jordão não teve uma abrandada, os riscos derivados do agravamento da situação na região ficavam progressivamente maiores e até mesmo a população comum dos Estados Unidos passou a se preocupar com o que acontecia além das fronteiras do país. A presidência continuou a ser mais problema que solução para Frank. Uma tentativa de vender sua candidatura ao público e de responder perguntas se tornou basicamente uma sabatina quanto ao perigo da operação de paz. O que era uma tentativa de ganhar clamor nacional e internacional se tornou um peso morto que poderia engessar sua campanha eleitoral. Tudo piorou quando Petrov fez o anúncio de que iria para dentro do olho do furacão, o que tendia a escalonar a tensão ainda mais. Frank então tomou a atitude que pode vir a alterar todo o curso de sua vida pessoal e política: ir encontrar Viktor para negociar a retirada das tropas russas e, consequentemente o fim da operação da ONU. Diante do estágio a que as coisas tinham chegado, o prejuízo menor seria dar fim a tudo e impedir que mais sangue fosse derramado.

O problema é que o objetivo de Viktor era exatamente derrubar a força conjunta. No momento em que ele se colocou a encontrar o presidente russo, ele deixou a vantagem da negociação completamente nas mãos de Petrov. Este sabia que as forças estrangeiras iriam se retirar do Vale do Jordão, então seus objetivos sofreram mudanças e passaram a abarcar novas demandas e a mais monstruosa e inteligente de todas foi exatamente a retirada de Claire do cargo de embaixadora da ONU. A primeira dama alertou o marido que qualquer movimentação sua em torno do russo traria somente diminuições para os Estados Unidos, seu aviso não surtiu efeito e ainda perdeu a posição de poder que ela demorou tanto tempo para conseguir. Toda a conversa entre Lars Mikkelsen e Kevin Spacey foi um banho de atuação, atingindo o ápice quando o primeiro questionou o estadunidense se ele teria a coragem de matar alguém.  A expressão límpida e calma de Spacey entregou um traço de Underwood que o russo julgava não existir. Mal sabe ele que Peter Russo e Zoe Barns foram as adições mais recentes à lista de abatimento de Francis. Mesmo assim, é inegável que o presidente levou o maior golpe de sua carreira. Ao acreditar que as palavras de Alexi tinham sido criadas para iludir a embaixadora, ele derrubou a trégua que tinha alcançado no Chapter 33. Agora resta descobrir se ela se absterá de apoiar o marido, se buscará vingança ou se manterá a imagem pública intacta, mas a situação pessoal apagada. Sem Claire, Frank não tem como vencer a eleição e, ao criar uma rachadura no relacionamento do casal, Viktor conseguiu seu maior trunfo.

Remy Danton, Jackie Sharp e Doug Stamper também deram continuidade a suas histórias. Os sentimentos entre os dois primeiros estão aflorados novamente. O curioso entre Danton e Sharp é o fato de que eles exalam uma química romântica intensa, o que é completamente destoante da carga política de House of Cards e, mesmo assim, não fica um aspecto estranho, mas integrado às teias complexas entre os personagens. A prova de como os dois são bem sucedidos juntos é comparar com a parceria sexual entre Yates e Baldwin, que é desprovida de sentimentos. Sharp também tem que considerar suas ambições. Se ela assegurar sua lealdade a Underwood, ela poderá alcançar maiores patamares de poder. Se ela largar o presidente, ela voltará ao congresso e ficará presa ao trabalho de que ela quer se desvencilhar. Outra possibilidade seria ela cavar seu caminho em direção a Heather Dunbar. Mas como ela conseguiria ganhar a confiança da candidata? Stamper, por outro lado, se deixou aproximar da família do irmão e teve um flash de como sua vida poderia ser se ele largasse o trabalho político e investisse em seu lado pessoal. Por último, Thomas começou a se revelar. Sim, ele era o prostituto de Scorpion e ele fez isso por dinheiro unicamente no início. Depois, ele desenvolveu um vício pela conexão sentimental de transar com e acompanhar homens em crise, ouvir suas histórias e compartilhar uma conexão emocional mesmo que por breves momentos. A tensão erótica entre Frank e o escritor foi palatável, mas não foi somente sexual, a aproximação e a confiança emocional estabelecida entre eles foi o que vimos ali e, talvez, seja o que tenha preponderado. Será que Yates pode vir a ser o novo Tim Corbett do protagonista ou será que ele perderá a confiança no escritor em breve?

Agora que a operação no Vale do Jordão acabou, o cenário internacional será deixado de lado? Mesmo que não seja completamente esquecido, ele terá participação reduzida e o foco poderá ficar sobre a campanha presidencial. Restam três episódios o circo prometer incendiar Washington inteira.

P.S.: o mais belo e triste momento do episódio – Claire sendo negada o direito usar o cabelo na cor que quer. O olhar de Spacey ao final do episódio declara a força dos acontecimentos do episódio.

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