É hora de reconhecer o vício dos velhos hábitos.

Vocês vão achar essa uma referência estranha, mas tem uma canção do Paulo Ricardo chamada A Cruz e a Espada, que na sua versão mais pesada, nos anos 80, não conseguia imprimir completamente o espírito existencialista de sua letra. Mais tarde, nos anos 90, num dueto com Renato Russo, o cantor conseguiu alcançar essa excelência. Nas palavras, cheia de simbolismos, ficava claro que estávamos falando do limiar entre inocência e amadurecimento. Em dado momento podemos ler assim:

… Agora é tarde, acordo tarde, do meu lado alguém que eu nem conhecia. Outra criança adulterada pelos anos que a pintura escondia. Agora eu vejo aquele beijo era o fim… Era o começo do meu desejo e se perdeu de mim…”

Impossível não correlacionar isso com tudo que vimos em Shameless no episódio passado. Ao pensar em Debbie me lembrei dessa música, que deve ter sido escrita imbuída dessa compreensão hedonista que a classe artística conhece muito bem. Apesar de estarmos diante de uma comédia, também sabemos que a série absorveu um pouco da aura dramática que permitiria – ainda bem – que as complexidades dos personagens ganhassem mais substância, ao invés de se expressarem de fora pra dentro, como na maioria dos produtos do gênero.

Acho que ao invés de The Two Lisas, o nome do episódio deveria ser Cross and Sword. Ficaria muito parecido com um título de episódio de Game Of Thrones, mas imprimiria bem essa dualidade de essências que surgiu na nova temporada. Embora estivéssemos diante de uma boa trama envolvendo a especulação imobiliária nas redondezas, esse episódio foi costurado por Fiona, Debbie e Sammy, daquele jeito que já é bem característico pro show. Enquanto Fiona já começa a reconhecer de modo consciente sua propensão a fazer péssimas escolhas, Sammy faz o mesmo no modo delusional. Sobra Debbie flertando com o legado do sangue, daquele jeito melancólico de quem sabe que está indo na direção errada, mas que simplesmente não pode evitar.

Fiona: Semana passada os primeiros indícios de autocrítica da personagem começaram a aparecer e foi uma coisa linda. No entanto, são muitos anos jogando água fora da bacia e as coisas não vão se resolver em um dia. Num primeiro momento, Fiona não entende o recado de Sean sobre ser tóxica e continua indo pelos trilhos errados, insistindo no bad boy traidor. A surpresa ficou por conta do investimento em Gus, que surgiu por acaso, soa bastante sensível, mas que já foi engolido pela sexualidade dela. No fundo sempre torcemos pra Fiona encontrar um bálsamo, mas também sabemos que dificilmente ele vem. De novo ela teve uma pista do que precisa deixar de fazer, mas ainda é cedo pra dizer que ela vai começar a aplicar essas percepções.

Sammy: Essa está aqui porque sabemos onde foi parar seu plot. Não dá pra levar a sério que Sammy reconheceu seus defeitos e tentou acertar com o sujeito que encontrou a mando do pai. Mas, podemos dizer que ela também está sofrendo, tardiamente, as consequências de ser filha de quem é. Frank vendeu-a por uma máquina de fazer cerveja e é aquela loucura de sempre… Ele age de modo “responsável” querendo entregar a encomenda, mas isso custa a autoestima da filha e a casa de Sheila. Acho apenas maravilhoso que todo mundo só não tenha explodido junto com a casa porque Sammy deu um chilique e todos saíram. Porém, a pergunta que não quer calar é: E Sheila? Não quero ficar sem ela.

Debbie: Essa foi, sem dúvida, uma das melhores conduções narrativas do show em toda sua trajetória. Não só por eles terem tido a paciência de esperar a personagem se construir junto com a atriz, mas porque os anseios de Debbie se dividem entre a natural sede de crescimento físico de uma adolescente comum, mas com o adendo de estar inserida num ambiente nocivo, que pode transformar a experiência do amadurecimento num pesadelo. Então, é exatamente isso que acontece… Debbie repete todos os erros que cresceu vendo. Dá uma festa inconsequente, inibe o próprio direito de ser ingênua, converte crescimento em sexo e o faz do jeito errado e com o cara errado. A discussão toda sobre aquela espécie de “estupro” é interessante, porque se fosse o contrário o rapaz jamais seria perdoado por ter feito sexo enquanto ela estava bêbada. Aí Shameless acerta de novo… Uma garota de 14 anos pode ser acusada de molestar um homem mais velho enquanto ele está inconsciente?

Há um grande momento, quando Fiona se senta ao lado da irmã, e ela lhe conta que perdeu a virgindade e pede apenas para ser ouvida, sem julgamentos. E não poderia mesmo ser de outra forma… Seria natural que Fiona quisesse que a irmã não cometesse erros como os seus, mas não há condições de impedir essas circunstâncias quando o clã dos Gallaghers age o tempo todo como se a desgraça fosse inevitável. Aliás, esse é o grande tema desse ano: inevitabilidade.

Tivemos um pouco de Mandy e Lip, com ela sendo bem mais eficiente que Fiona no quesito “preciso parar de repetir meus enganos”. Mas, Mandy é outra perda sentida… De fato, acho que estamos seguindo numa crescente de eventos que promete colocar a quinta temporada de Shameless lá no topo. Estou realmente impressionado e encantado com a forma ambígua com a qual estão estruturando a narrativa. O deboche está ali ainda, notório. Mas, tem tanta alma implícita no meio da loucura, que cada minuto de episódio fica ainda mais delicioso de assistir.

Fiona’s Tips: Mickey perdeu seu bordel… Acho que é agora que a crise com Ian vai começar a aumentar.

Fiona’s Tips 2: A casa do leite de Kevin e V foi uma boa ideia, mas por enquanto as cenas deles só servem para fazer ele parecer mais fofo e ela mais chata.

Fiona’s Tips 3: Carl “atendendo” no armário da escada, HAHAHAAHAAH.

Fiona’s Tips 4: Passei duas review chamando o Sean de John e acho que em protesto ele não apareceu essa semana.

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