Um brinde ao retorno de Girls e à partida de Hannah.

A cena que abre a quarta temporada de Girls é muito semelhante à que abre a série: Hannah com seus pais em um restaurante, mas dessa vez, o jogo está inverso. Hannah agora, tem a chance de começar a “ser alguém” (leia-se: ter sucesso profissional). Qualquer jovem pode confirmar que o sonho dos seus pais é que ele tenha um bom trabalho e ganhe seu dinheiro, para só depois se preocupar com a saúde emocional e mental. Girls é um retrato bastante exato do confronto de gerações passadas com a geração dos millennials. Para o segundo, é muito mais importante ocupar um cargo que considere merecedor, do que simplesmente trabalhar, e a culpa, muitas vezes, está na própria criação, que sempre falou para as crianças (que hoje são jovens ou “semi-adultos”) que eles eram especiais.

Hannah, assim como qualquer ser-humano, é especial. Tem suas características próprias, seus demônios, suas neuroses e suas qualidades. O que os milenares não entendem, é que nem todo mundo pode ser “especial” onde trabalha. Girls enfrenta esse questionamento em quase todo episódio, e para os jovens e adultos que se identificam com esse dilema, é muito interessante ver como essas pessoas são representadas.

Marnie também cabe nesse exemplo. A personagem, que já vimos fazer de tudo um pouco quando se fala de trabalho, encontra-se em uma quase crise, em busca de reconhecimento e aceitação que todos sabemos que ela precisa para sentir-se completa. Por outro lado, indo ao oposto de seu egoísmo de pensar que o mundo deve lhe amar, Marnie ama de volta. Na premiere inteira, a personagem é a única que realmente demonstra abalo emocional misturado com felicidade e excitação pela partida da amiga. E a amizade entre Hannah e Marnie nunca foi mil maravilhas, sempre houve confronto, mas sempre houve amor. A cena onde Marnie ajuda Hannah a fechar sua mala é tocante, auxiliada pela direção certeira de Lena Dunham, e a comédia misturada com sentimentalismo que Girls tanto sabe trazer à tela se faz presente.

Iowa é um episódio que mostra a realidade dos (muitos!) relacionamentos da série. Existe uma certa descrença e decepção por parte de Adam e Jessa quando o assunto é a nova vida de Hannah. Seria isso um caso claro do egoísmo do Nova-iorquino? Estamos acostumados com um Adam indiferente, raivoso, mas também um Adam compreensivo e amoroso, principalmente por Hannah. Estamos acostumados também, com uma Jessa egoísta e egocêntrica, mas por outro lado, com uma personagem dócil e serena em alguns momentos. Toda a indiferença dos dois personagens mostra com clareza que Hannah não é o centro do mundo, e o mais interessante é que a série é exatamente isso, quase que ironicamente. Uma protagonista tentando ser o centro das atenções, uma personagem que clama por aceitação. A rejeição machuca. Ainda bem que Hannah se mostra tão animada consigo mesma, que esquece de buscar identificar o mesmo animo nos amigos.

Na premiere da quarta temporada, que promete evolução dos personagens quando se trata de infantilidades, vimos vidas se encaminhando aleatoriamente. Shoshanna está formada, Marnie busca a carreira musical, Hannah indo para Iowa, Adam busca ser um ator, Ray se encontra mais tranquilo e centrado e Jessa, bem, essa sempre será um espírito livre e vagante, pelo jeito. A questão é que essa busca pela realização de novos sonhos e o enfrentamento de desafios que provavelmente se farão existir pelo caminho renderão corações partidos, almas moribundas e ombros caídos. Tudo da forma única de existir e agir que cada personagem de Girls carrega consigo.

Outras Observações:

A cena de sexo entre Marnie e seu “companheiro musical”, whoa. Mostra claramente como a personagem vem se permitindo a viver mais. Uma Marnie completamente diferente da que fazia sexo com o pobre Charlie.

Os pais de Shoshanna justificam perfeitamente sua personalidade.

Adam e Hannah em um “relacionamento moderno” a distância, onde a tecnologia o deixa mais fácil, segundo os mesmos. Mas na verdade, se torna apenas menos difícil.

New York é uma personagem de Girls. Mas a série nunca decepcionou quando abandonou sua locação principal, como nos episódios da casa na praia ou na cidade natal de Hannah. Que Iowa nos traga mais bons momentos.

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