De todas as litas que bolamos nas últimas semanas, essa foi de longe a mais difícil. É muito comum em um Top 10 algumas injustiças acontecerem e isso faz parte do desafio, o comprometimento de colocar sua mão no fogo por aquilo que você acredita. De início esse era para ser mais um Top 10, mas rapidamente descobrimos que o número de injustiças seria absurdo e por isso expandimos para um top 15. Como principal critério foi decidido que apenas seria válido um ator ou atriz por série e também descartamos qualquer série cancelada ou com perigo iminente de cancelamento. Confira.

15. Charlie Hunnam (Sons of Anarchy) – Por Camis Barbieri 

Um dos jovens atores de maior talento na atualidade – e que não poderia ficar de fora dessa lista – é Charlie Hunnam. Com uma carreira de papéis ousados e que pendem mais para o lado dramático (embora ele tenha comédias bacanas no currículo), ele se firmou, definitivamente, com Jax Teller, de Sons Of Anarchy e é exatamente esse trabalho que lhe rende essa posição dentre as 15 atuações mais marcantes de 2014.

Charlie não é só um rostinho (e corpinho!) bonito. Ele é também extremamente talentoso e capaz de levar com perfeição cada emoção de Jax, o que não é um trabalho fácil, devido à profundidade exigida pela série e pelo personagem. O ator personificou o ódio cego, a frieza dos assassinatos e o calor da vingança com facilidade. Ao mesmo tempo, entregou suavidade, fragilidade, decepção, dúvida e dores profundas, capazes de fazer o telespectador sentir tudo isso com a intensidade pretendida (e exigida) pelo roteiro da última temporada de Sons Of Anarchy.

14. Allison Tolman (Fargo) – Por Philipe Rodrigues

Afinal, o que é mais difícil: ser reconhecida como uma boa atriz numa série ruim, ou ser reconhecida como uma boa atriz numa série consagrada, como é o caso de Allison Tolman em Fargo? A verdade é que a atriz soube interpretar a mocinha da série com bastante carisma, resultando numa grande empatia por parte do público para com a personagem Molly. Tenho percebido que nos últimos anos agradar como “protagonista mocinho” tem se tornado mais difícil do que agradar o público executando o papel de anti-herói, e se observarmos isso, a atuação da atriz ganha ainda mais méritos.

A entrega de Tolman para viver a encucada policial foi visível, junto ao bom humor que se fazia presente na perfeita química entre ela e Colin Hanks. Notem que de início a personagem Molly soa meio forçada, mas conforme a atriz vai ganhando espaço para desenvolvê-la (com a ajuda do ótimo roteiro), esse aspecto vai se diluindo, até que Molly e Gus passam a equilibrar perfeitamente a trama ao lado de Lorne Malvo e Lester. Tolman entrega uma mocinha cômica, inteligente e corajosa, atuando com maestria ao lado de feras como Martin Freeman e Billy Bob Thornton, o que serve apenas para frisar o grande talento da atriz, que se destaca facilmente como uma das melhores de 2014.

13. Clive Owen (The Knick) – Por Lucas Fernandes

Clive Owen é uma figura carimbada na TV e Teatro britânico. O ator inglês começou a atuar em programas da BBC e ITV e em várias montagens de Shakespeare, antes de alçar o estrelato cinematográfico, conquistado após “Closer – Perto Demais” papel que rendeu uma indicação ao Oscar, pavimentando assim uma eclética carreira com filmes dos mais variados gêneros. E após anos ele retorna à TV, americana desta vez, e em The Knick Owen brilha mais uma vez.

Ele consegue desenvolver com competência indubitável o Dr. John W. Thackery. O irascível médico ao mesmo tempo em que entra em fase de apogeu, com rompantes de genialidade ao conseguir criar métodos para resolver questões da medicina até então fatais, sofre o declínio na vida pessoal em consequência de seu vicio em drogas (cocaína e ópio). E quanto mais o vicio piora, mas Clive Owen sem entrega ao personagem num interpretação matadora carregada numa dualidade de “O médico & O monstro”.

As crises de abstinência em que recolhe garrafas de Coca-Cola pra retirar a cocaína da fórmula (em 1900, a Coca continha cocaína), a aplicação da dose na veia peniana, o assalto à farmácia… É uma pancada visual após a outra no decorrer da temporada de estreia, chegando ao sublime, quando consegue passar todo o estado de espírito do personagem em apenas um olhar, como na poderosa cena que fecha a temporada: o plano do rosto imobilizado num estado torpe, enquanto lentamente a câmera vai focando o vidro de heroína, o “novo” vicio do Dr. Thackery para a temporada seguinte.

Seja engolfando os colegas de cena num turbilhão de atuação sóbria ou chafurdando no estado mais baixo do vício do personagem, Clive Owen se sagra com uma das melhores atuações do ano de 2014, rendendo indicações ao Globo de Ouro e ao Satellite Awards. E que em 2015, Owen e Thackery continuem dando um show em nossas televisões.

12. Mads Mikkelsen (Hannibal) – Fernanda Santana

Imaginem o quão difícil é a tarefa de Mads Mikkelsen! Afinal, estamos falando de Hannibal Lecter, um personagem devidamente conhecido e que gera altas expectativas. A dificuldade é ainda maior quando lembramos que Anthony Hopkins também deu vida à Hannibal Lecter. Hopkins que faz parte da minha pequena lista de atores que compensam até em comercial de marca de papel higiênico duvidosa. Sim, meus amigos, Mads Mikkelsen tinha uma dura tarefa pela frente quando aceitou viver o personagem, e não importa se é uma versão mais jovem. Portanto, me impressiona a coragem de Mads, que abraçou o personagem com tamanha autoridade e capacidade que, hoje, já não há mais necessidade de comparação com Hopkins e muito menos há como negar o quão certa foi a sua escolha para o papel. Mads nos mostra com eficiência essa versão mais jovem de Lecter e tudo que o fez se tornar aquele que conhecemos através das adaptações cinematográficas. Mads conseguiu dar ainda mais charme e elegância ao personagem, além de fazer ser mais abrangente a noção que temos sobre o quão voraz e perigoso Hannibal Lecter realmente é e pode ser.

Lecter é um dos mais assustadores serial killers da dramaturgia, ao mesmo tempo que é, também, um dos homens mais elegantes, inteligentes e charmosos. É exatamente por isso que são poucos aqueles que realmente desconfiam da índole do doutor canibal. Mads deixou muito mais agradável, amedrontador e interessante acompanhar esses “primeiros” passos. Na segunda temporada Mads abusou de seu talento e não deixou muito espaço para os atores de outras séries. Ele, junto com Hugh Dancy, foi a definição do que é transcender qualidade, utilizando um texto que por si só já é fantástico. Temos que entender que, o que faz Hannibal ser essa série fora do comum e inteligente é a total fusão entre roteiro, efeitos visuais e atuação, principalmente de Mads Mikkelsen e de Hugh Dancy. Atrevo a dizer, inclusive, que nessa segunda temporada eu não consigo ver uma separação de qual dos dois foi melhor. A atuação dos dois, bem como a história dos dois personagens, são tão conectadas que eu já não consigo mais ver e/ou entender onde um começa e o outro termina.

Mads e Hugh se tornaram um só, e sem um deles, talvez, nada nessa segunda temporada teria funcionado. Sim, foi Mads Mikkelsen que entrou nessa lista, mas na segunda temporada de Hannibal, Mads Mikkelsen não seria nada sem Hugh Dancy e vice e versa. Mas, basta pensarmos em Anthony Hopkins e no peso que o personagem Hannibal Lecter tem, e entendemos realmente o porquê é Mads Mikkelsen que está nessa lista, afinal não há como negar que era ele quem tinha a tarefa mais dura em mãos, de fazer de um personagem, que já era tão impressionante, ainda melhor. Parabéns ao Mads, que executou esse trabalho duro e difícil com maestria e autoridade, para a nossa alegria.

11. Ruth Wilson (The Affair) – Aaron Engel

A Inglaterra é uma mina de talentos artísticos que a Showtime vêm explorando muito bem. Michael Sheen brilha em Masters of Sex enquanto que em The Affair os dois protagonistas são da terra da rainha. Mas enquanto Dominic West faz um bom trabalho (algo que ele nunca deixou de fazer, é bom lembrar), Ruth Wilson é quem realmente tem um material mais denso e interessante para trabalhar, e ela o faz com tamanho comprometimento que é fácil imaginá-la debulhando-se em lágrimas após gravar algumas das cenas mais depressivas da série. A atriz joga para cima de si todo o peso de um filho perdido e um casamento quebrado, e quando chega o momento de explodir ela o faz com maestria. É uma atuação assombrosa, difícil de digerir e propensa a causar pesadelos. Mais impressionante ainda é sua capacidade de convencer tanto como uma mulher cínica e sensual em Luther como uma mãe depressiva e suicida em The Affair, uma habilidade bem aproveitada nos dois pontos de vista da última, que trazem impressões distintas sobre a mesma personagem. Ruth Wilson tem tudo para continuar a brilhar.

10. Julianna Margulies (The Good Wife) – Por Thiago Leal

É incontestável que The Good Wife é hoje uma das melhores séries em exibição na TV americana, pela qualidade imensurável de seu texto e pela forma como os King evoluíram a trama da série nestes últimos seis anos, mas não há como ignorar a qualidade do elenco que dá vida de maneira irretocável ao excelente texto que lhes é passado. Matt Czuchry, Christine Baranski, Archie Panjabi, Josh Charles, Chris Noth e Alan Cuming são apenas alguns dos nomes que engrandecem ainda mais a qualidade de The Good Wife, mas mesmo fazendo trabalhos irrepreensíveis à frente de seus personagens, nenhum destes conseguem eclipsar o brilho da protagonista, interpretada brilhantemente por Julianna Margulies.

Margulies já era uma atriz reconhecidamente talentosa antes de The Good Wife, mas foi na série jurídica da CBS que alcançou o título de uma das melhores atrizes da atualidade. É muito comum em séries tão destacadas e com personagens tão profundos como The Good Wife, que a figura do “protagonista” perca a força diante da complexidade dos demais personagens que o rodeiam, mas isso não ocorre em TGW. Além dos personagens fixos brilhantes, a série ainda tem a capacidade de criar um dos mais geniais elenco de personagens semi-regulares e/ou participações especiais da história da TV, mas em nenhum momento o texto deixa de ser dedicado inteiramente à Alicia Florrick… E bem, com o texto dedicado para sua personagem, Julianna Margulies o pega e simplesmente arrebenta, destrói, vira dona de uma série que poderia ser de qualquer um dos outros geniais personagens.

Julianna consegue mostrar não apenas a complexidade que envolve os sentimentos de Alicia com relação à sua conturbada vida pessoal e as reviravoltas recentes em sua vida profissional, mas também soube mostrar toda a evolução que a personagem sofreu nesses cinco anos, mas sobretudo nos dois últimos, quando abriu a Florrick, Agos e Associates e sofreu com a morte de Will, perdendo a fé de que estava fazendo algo de útil em sua profissão e aceitando a ideia de ELI de se candidatar à Procuradora. Se o texto da série sempre privilegiou Margulies, nestas duas últimas temporadas deu a possibilidade para a atriz apresentar uma das melhores – senão a melhor – atuação feminina da televisão em 2013/14, não sendo nada surpreendente seu Emmy na última temporada e a força do seu nome na próxima temporada de premiações. Juliana Margulies é basicamente a representação da série em que atua: fina, elegante, talentosa é algo raro de se ver na televisão com muita frequência.

9. Carrie Coon (The Leftovers) – Henrique Addefinir 

Uma das razões pelas quais The Leftovers é uma série tão boa é a bagagem de informações e impulsos velados que ela carrega. Para aqueles que curtem desvendar analogias em dramaturgia, uma narrativa assim pode ser muito prazerosa. Mas, para aqueles que não curtem pode ser penoso, e esses fãs também tem todo direito de se sentirem assim. A questão é que a própria premissa da série já impõe que ela trabalhe com complexidades na forma como a natureza humana se expõe perante a dúvida e o desajuste. Ou seja, não teria como The Leftovers ser de outro jeito.

A história criada por Tom Perrota é muito atrelada ao que não está na superfície. Após 3 anos do Dia da Partida, todo mundo se sente obrigado a voltar ao cotidiano, ainda que algo extremamente perturbador tenha mudado a ordem estabelecida das coisas. Uma das maiores seqüelas deixadas pelo evento foram os sentimentos de culpa e pesar naqueles que ficaram. Entre os personagens da série, Nora é aquela com mais motivos para ter surtado: seu marido e seus dois filhos foram levados e como essa “abdução” funciona como uma espécie de morte sem corpo, supõe-se que os estágios do luto fossem os destaques de qualquer abordagem. Mas, aí é que está… 3 anos depois de perder a família, Nora precisa voltar a viver ao mesmo tempo em que precisa seguir o protocolo, o ritual da perda, que no caso dela, se tornou até mesmo uma espécie de referência.

Carrie Con entra no jogo para buscar a substância dessa personagem. Nora não pode chorar como se tivesse perdido a família ontem, mas também não pode deixar de demonstrar o peso das emoções. A maior sacada de The Leftovers é que lidar mesmo com a tragédia, só os Remanescentes Culpados lidam, os outros personagens vivem aquela existência turva, incômoda, em que o racional pede que você siga e o emocional grita “como você pode viver depois do que aconteceu?”. Carrie é uma das melhores atrizes desse ano justamente porque conseguiu captar essas camadas turbulentas da personagem como ninguém. Nora tem uma força agressiva que tenta permanecer obscura exatamente porque o mundo exige que ela seja uma vítima. Então, Carrie imprime esses conflitos em suas expressões e principalmente nos seus impulsos, nos confundindo com uma mulher que por hora é frágil e em outras horas é brutal. Ela faz a personagem oscilar entre a ternura e o cinismo, entre o desejo e a dormência, sufocando o que seria, sem dúvida, uma mulher com um perfil social esmagador. Foi no episódio Guest que isso ficou imensamente claro… Ali, Carrie Con estapeou os fãs da série com uma representação violenta do que a dúvida e a culpa são capazes de provocar num ser humano. Ela, mais que qualquer outro ator de The Leftovers, alcançou a excelência no compromisso da exposição das reações provocadas pela verdade mais oculta entre os personagens da série: é a memória do que foi que me impede de viver o que fica.

8. Viola Davis (How To Get Away With Murder) – Marco Antonio Junior

Seguindo a tendência de atores consagrados da “telona” passarem para a telinha, e arrasar em seriados e telefilmes americanos, Viola Davis surgiu em How To Get Away With Murder para chamar a série de dela. E não poderia ser diferente. No papel de uma advogada e professora que trai o marido e é amante de sexo selvagem na cama, a atriz já indicada ao Oscar não tem ninguém a sua altura no elenco (tirando Connor que tenta com sucesso, mas ainda é um canastrão); e então, Viola comove/estraçalha/engole qualquer sentimento pedido pela personagem. Em qualquer tipo de cena, ou nos tribunais ou perguntando sobre pênis do marido em celulares de menina morta, admiramos o seu potencial com facilidade e espontaneidade: característico de bons atores. A série é como se fosse o seu parque de diversões, e pelas nuances narrativas (ora focadas nas peripécias dos estagiários, ora focadas na advogada), ela transita numa montanha russa de emoções com maestria de quem sabe a força do seu papel – a manipuladora de tudo e de todos.

Sempre é válido lembrar a cena dela se desmontando da maquiagem após um dia de serviço, mas como essa cena já está em toda lista aqui do SM (e já a relembrei nestas poucas linhas – sim, ela é grandiosa), vamos à outra igualmente memorável para exemplificar o porquê de sua presença neste Top de performances. Era o sexto episódio da temporada de estreia. Tínhamos ali uma Annalise impecável defendendo seu cliente frente a um Senador. Não tinha juiz, não tinha promotoria, não tinha observadores, muito menos ordem naquele tribunal. A atuação dessa mulher estava lá no ponto alto da nossa montanha russa: uma Viola calma, serena, persuasiva, mas que atacava e pulsava por todos os cantos da cena. Tão boa, mas tão boa, que se ela virasse pra tela (tipo nosso amigo Underwood) e mandasse o espectador tirar a roupa, 98% do público faria isso. Os que ainda se mantivessem de roupa sairiam da sala com medo da humilhação dos demais peladões. HUEHUE A entrega é perceptivelmente integral ao personagem. E acho que vendo sua Dra. Keating, muitas atrizes devem sonhar com um papel de advogada bitch numa série de TV, pois Viola Davis mostrou neste ano, que essa personagem bem feita é presença garantida nas listas de prêmios e de melhores performances por aí.

7. William H. Macy (Shameless) – Por Rodrigo Canosa

Ao longo de todas as temporadas de Shameless, William H. Macy é sempre um dos grandes destaques do elenco da série com sua excelente interpretação do polêmico e incorrigível patriarca da família, o beberrão Frank Gallagher, de forma que suas aparições em listas de melhores do ano não costumam ser novidade. No entanto, uma vez que a trama da 4ª temporada finalmente levou Frank a ter que conviver e sofrer as consequências de seus abusos, Macy teve a oportunidade de desenvolver ainda melhor o personagem, aprofundando-se na interpretação de seu vício e conseguindo demonstrar o quão intensa é a dependência de Frank por álcool ou qualquer outra substância que o tire da realidade.

O roteiro certamente ajudou muito, porém foi Macy quem conseguiu tornar verossímil o fato de Frank não mudar seu comportamento nem mesmo à beira da morte, em uma atitude suicida muito semelhante (claro que à moda Frank Gallagher) à do personagem de Nicholas Cage em Despedida em Las Vegas. No mais, como o personagem não se deu por vencido, pudemos ainda ver Macy em sua sempre ótima interpretação de Frank cometendo suas típicas trambicagens, desta vez voltadas para conseguir para ele um transplante para garantir sua sobrevivência, culminando em uma cena épica ao final da temporada que coroou a soberba temporada do ator na 4ª temporada de Shameless.

6. Eva Green (Penny Dreadful) – Por Carlos Müller

Desde a época de ouro do cinema estadunidense, há sempre uma francesa presente para embasbacar a todos. Claudette Colbert nos anos 30, Leslie Caron nos anos 50, Simone Signoret e Anouk Aimée nos anos 60, as Isabelles (Adjani e Huppert) nos anos 70 e 80, Juliette Binoche nos anos 90, Audrey Tautou nos anos 2000, Catherine Deneuve em doses homeopáticas desde sempre. Sempre um sopro de arte dentro da comercialidade. Contudo, nenhuma delas perdurou na indústria: elas, à francesa, saíam de cena em busca da essência da profissão e se eternizavam na memória de cada geração que marcaram.

Nessa lógica, na metade dos anos 2000 fomos apresentados a Eva Green por Bernardo Bertolucci. Como se nunca tivessem visto o magnetismo de uma francesa, crítica e público se prostraram diante da majestade de Eva. Esse magnetismo fez com que ela ganhasse o papel de bond girl em Casino Royale, ofuscando a novidade do primeiro 007 loiro. Oito anos depois de Vesper Lynd, conhecemos Vanessa Ives em Penny Dreadful. Na televisão, meio no qual a arte está cada vez mais presente, Eva nos contagia como uma mulher paranormal e perturbada, impossível de ser desvendada por causa de todas as camadas de personagem que só as francesas conseguem atribuir. Ela é o grande mistério da trama para os homens (todos subjugados a ela), e para nós também.

Depois da EvaMania, vieram Marion Cotillard levando o Oscar por um desempenho magnífico como Edith Piaf. Emmanuelle Riva sendo aclamada por Amour,  e depois Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos. Mas Eva é a ovelha negra de barrete vermelho: foi para a televisão, nos deu uma das melhores atuações do ano, e marca a presença da pátria do brioche, da champagne e da rainha decapitada nesse Top de atuações. Falando em inglês, mas com cada milímetro de sua imagem e talento cantando A Marselhesa, Eva Green é a primeira grande francesa da televisão. E, mis amis, nós série maníacos nunca a esqueceremos.

5. Aden Young (Rectify) – Por Pedro Henrique

Daniel Holden é uma incógnita. O personagem é multidimensional: profundo, misterioso e sombrio, porém também é dócil, inocente e inteligente. Isso coloca nas costas de Aden Young a responsabilidade de entregar em sua atuação elementos condizentes com todas as diversas características do protagonista de Rectify. O personagem de Young, que em uma cena pode ser um anjo, para na próxima se transformar em demônio, traz para a série a constante dúvida sobre a culpa ou inocência por um crime do passado. Mas não há dúvidas sobre o quão brilhante Young é, sendo capaz de sensibilizar e irritar, de fazer sorrir e de fazer chorar. Sua atuação é sensível e desarma emocionalmente o espectador ao longo da montanha russa de emoções que Rectify é.

4. Jeffrey Tambor (Transparent) – Aaron Engel

Jeffrey Tambor merece o quarto lugar nessa lista porque nesse ano teve um desafio singularíssimo e complexo como ator, um caminho pelo qual poucos intérpretes tiveram que passar em sua carreira. E sua mensagem é sublime. Enquanto somos bombardeados com a imagem espalhafatosa da comunidade LGBT, o ator nos entregou um personagem muito mais “comum”. Não que o espalhafato não exista, mas é que a mídia parece tão hipnotizada por esse tipo de transsexual, cheio de trejeitos e sotaques esquisitos, que trazer uma imagem mais sóbria é uma mudança extremamente agradável. Maura é calma, a princípio insegura com si mesma, temerosa e carente de uma atenção que seus filhos egoístas nunca lhe deram. A grande mágica que Tambor produz, entretanto, não se explica com palavras. Uma empatia incomensurável emana da personagem, e nos sentimos conectados emocionalmente a ela durante todo o decorrer da série. Choramos com suas derrotas mesmo que sua performance de “Somebody That I Used To Know” seja sofrível. Lamentamos quando ela toma atitudes egoístas, as mesmas que tanto lhe dóem quando praticadas pelos filhos. Tambor é delicadeza pura, e sua capacidade de transformar sua aparência nada delicada em uma performance que seja permeada por esse adjetivo é um atestado do poder dessa atuação.

3. Uzo Aduba (Orange is The New Black) – Por Guto Cristino

Quando Uzo Aduba fez os testes para fazer parte do elenco de Orange Os The New Black, tinha em mente o papel da atleta Janae Watson. Felizmente, a visão de Jenji Kohan enxergou na atriz o brilho necessário para uma personagem muito mais complexa, e juntas elas deram vida à nossa querida Suzanne “Crazy Eyes” Warren.

Nesta segunda temporada, Crazy Eyes deixou de fazer apenas participações e se juntou ao elenco fixo da série, consequência e mérito do excelente trabalho de Aduba para encarnar essa mulher que navega suavemente entre a doçura e o temperamento violento. Nesta segunda temporada, a competência da atriz foi novamente evidenciada no terceiro episódio, nos belíssimos e surpreendentes flashbacks dedicados ao passado da personagem.

Crazy Eyes se perdeu um pouco em meados da temporada quando passou a ser um dos soldados mais fiéis de Vee, mas Aduba em momento algum deixa a peteca cair e é capaz de nos tocar e nos emocionar quando notamos que mesmo os atos mais bárbaros e duvidosos de Suzanne têm origem na sua inocência. Não por acaso, o excelente season finale “We have manners. We’re polite.” ganha seu nome depois de um arrebatador discurso da personagem em mais um dos inúmeros shows dessa atriz que nos conquista a cada episódio e a cada ano, e que merecidamente entrou para a história como o primeiro Emmy de Orange Is The New Black por uma atuação. Resta-nos torcer para que seja o primeiro de muitos.

2. Kevin Spacey (House of Cards) – Por Thiago Leal

O que posso falar que justifique a presença de Kevin Spacey numa lista de melhores do ano quando sua própria carreira nos demonstra que sua AUSÊNCIA é que seria estranho?

Kevin é mais um dos nomes consolidados no cinema que resolveram migrar para a televisão, e certamente foi um dos principais chamarizes da série que marcaria a entrada da Netflix no nicho de produções originais. Tudo em House of Cards nos preparava para uma produção espetacular: a direção/produção de David Fincher, a ideia de uma trama política mais densa e inteligente e, sobretudo, a presença de Kevin Spacey dando vida ao protagonista Frank Underwood. E depois da estreia de House of Cards pudemos verificar que todas as nossas apostas sobre a série estavam corretas e HoC era sim tudo o que imaginávamos. Mas havia uma coisa que não poderíamos imaginar: que Frank Underwood era o coração pulsante da série, e que a forma como Spacey compôs seu personagem daria alma à House of Cards.

Em House of Cards não apenas vemos os atos – muitas vezes inescrupulosos – de Frank, mas também entramos em sua cabeça a cada vez que a quarta parede é quebrada, vendo a profundidade com que a mente de Francis arquiteta seus planos. A composição do personagem feita por Spacey, somada à própria personalidade que o texto da série destaca para Frank e a evolução constante do roteiro chegam a espantar, transformando Frank Underwood em uma das figuras mais emblemáticas da televisão e House of Cards em uma das melhores séries da atualidade. E não é nenhum demérito ao brilhante texto de Beau Willimon, mas a razão do espetáculo que vimos no nosso Netflix nos últimos dois anos é muito mais em razão de um brilhante trabalho de composição de um personagem por um ator do gabarito de Kevin Spacey do que puramente do texto da série em si. Em resumo: House of Cards não seria a série fantástica que é se qualquer outro ator que não Kevin Spacey desse vida à Frank Underwood. E se Spacey deu azar de concorrer com um “inconcorrível” Bryan Cranston na reta final de Breaking Bad na última temporada de premiações, este ano fica a minha torcida para o reconhecimento deste trabalho ímpar que o ator vem desempenhando em House of Cards.

1. Matthew McConaughey (True Detective) – Por Gabriel Oliveira

Matthew McConaughey se notabilizou em seu começo de carreira por ser mais um “rostinho bonitinho” de Hollywood, atuando em diversas comédias românticas despretensiosas e sem qualidade. Foi ao longo da carreira, no entanto, que passou a se entregar mais a papeis dramáticos mais complexos, como podemos ver nos recentes Amor Bandido e Clube de Compras Dallas. Diante desse quadro, seu papel como Rust Cohle em True Detective não poderia ser diferente. Sua composição de personagem é sublime, desde as cenas passadas no presente até a narração da história principal. O aspecto niilista de Cohle é transmitido de maneira tão orgânica que suas teses pessimistas e absurdas chegam a soar como verdadeiras. Ainda que não seja uma atuação explosiva como outras grandes performances recentes na TV (o que ajuda a explicar o fato de não ter ganho um Emmy, juntamente com o fato de concorrer com Bryan Cranston), seu trabalho de incorporar uma personalidade tão errada é realmente digno de aplausos.

Mas a verdade é que, mesmo com o brilhantismo de sua atuação, McConaughey é muito ajudado pela inegável química que tem com Woody Harrelson, seu amigo de muitos anos. Um ajuda o outro a se elevar como ator, e isso contribui com a naturalidade com a qual os diálogos entre eles são conduzidos. Independente disso, McConaughey é o ponto alto de uma série sublime. Pena que não o veremos na segunda temporada.

Menção Honrosa: Julia Louis-Dreyfus (Veep) – Por Henrique Addefinir 

Existem algumas emoções que são relativamente fáceis de captar e reproduzir quando você estuda interpretação. Amor, ódio, dor, são algumas delas. Esse tipo de sentimento pode ser traduzido de forma muito imediata através do rosto e da linguagem corporal. Mas, existem outros que não são tão fáceis assim porque geralmente quando sentimos, tentamos disfarça-los. O constrangimento é um deles.

Julia Louis-Dreyfus é a rainha da expressão do constrangimento. Qualquer fã de Veep sabe que quando o assunto é constranger e envergonhar, Selina Meyers põe qualquer um no chinelo. Porém, isso jamais seria possível se não houvesse uma atriz realmente capaz de fazer aparecer no rosto – de modo muito sutil – as coisas que geralmente sentimos em silêncio, aos trancos e barrancos do nosso mundo interior. É uma coisa dificílima de fazer, porque precisamos pensar como o personagem, mas fazer esse pensamento surgir no olhar sem que ele seja óbvio. Quando, além disso, você ainda precisa fazer a plateia rir, aí a coisa toda vira um negócio insano. E Julia consegue pensar, fazer aparecer e fazer parecer engraçado. Isso não faz dela apenas uma atriz infalível, mas uma atriz quase sobrenatural, que tem a inflexão, o raciocínio, a expressão e o impulso cômico. Isso não é para qualquer um, senhores… Não é mesmo.

Essa menção honrosa é uma das mais honrosas que esse site já concedeu. Claro que muito disso se deve ao trabalho realmente brilhante dos roteiristas de Veep. Mas, nenhum texto como aquele chegaria tão longe sem uma deusa da naturalidade por trás dele. Julia é uma atriz de latências… E ainda bem por isso.

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E para você, quais foram as estrelas das séries que se destacaram em 2014? Compartilhe conosco sua opinião na área de comentários abaixo.

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