Homeland e sua arte de me deixar com “cara-de-caneca”. 

É até engraçado… Ao planejar como seria a review do episódio passado de Homeland, me peguei pensando em como essa temporada tinha sido organizada de uma forma que dava a impressão de estarmos diante de três temporadas diferentes. A fase Aayan, a fase Saul e a fase Quinn. O referido penúltimo episódio, diga-se de passagem, terminou com um momento extremamente tenso, subindo numa escalada de expectativas que dizia: sim, acho que em Islamabad as coisas ainda vão voltar a ferver. O Season Finale tinha tudo para ser uma grande surpresa… Acho que eu só não contava que estaria diante de uma surpresa como essa. 

Algumas coisas acontecem de uma forma tão inusitada que eu costumo dizer que me deixam com “cara-de-caneca”. É aquela expressão que revela uma semi-inconsciência do mundo, levando-nos para uma espécie de galáxia inóspita onde o que está diante de nós não tem como ser julgado pelas vias consideradas “normais”. Ao final desse season finale eu estava meio assim, em coma perceptivo. E antes de escrever esse texto eu pensei muito mesmo, porque o nível de nonsense apresentado pelos roteiristas era tão grande, que eu fiquei sinceramente inseguro de fazer uma crítica, com medo de que Long Time Coming escondesse alguma genialidade conceitual imensa, e eu não estava alcançando. Se for isso, aliás, peço que me esclareçam, porque quero muito entender o que foi que aconteceu. 

Pra começar, os eventos da caçada por Haqqani não continuaram. Até aí tudo bem, já havíamos falado sobre o quanto a postura de Quinn era idiota. Quando o episódio começou com Carrie lidando com a morte do pai, eu pensei que, de volta aos EUA, as ações do final da temporada fossem se concentrar no papel de Dar Adal nesse engodo todo. Era um choque de continuidade arriscado? Era, claro. Sobretudo porque Quinn teve uma crescente emocional muito marcada e isso insinuava um investimento do roteiro na mesma direção. Mas, eu também estava disposto a entender que a participação de Dar Adal na trama tinha se tornado o foco da questão. 

E então, Quinn apareceu e de repente o fato de ter quebrado uma infinidade de regras, agredido e ferido colegas e ser dado como desertor, ficou pelo caminho. Ele era muito procurado num momento e no outro aparecia no mesmo quarto de hotel de sempre, incólume. Além disso, a força de seus ideais e determinações perdeu intensidade e víamos, novamente, o mesmo Quinn lamurioso do começo dessa temporada. Aparentemente ele não é forte o suficiente para tomar decisões por si mesmo e condicionou sua saída dos esquemas com o romance que teria com Carrie. Algo que é, obviamente, completamente imbecil para quem conhece a agente mesmo que por cinco minutos. Sinceramente, não tive nenhuma compaixão por ele quando o vi tomando a decisão de manter-se “naquela vida”. 

Até aí já estava muito estranho, mas foi ficando mais estranho ainda quando a mãe de Carrie apareceu e o Season Finale de uma temporada que se apoiou inteira nas dinâmicas de poder entre governo e terrorismo, virou o Season Finale de um drama da ABC, em que ir atrás de pais negligentes, descobrir irmãos desconhecidos e evitar pessoas porque se está “lidando com muita coisa”, são praticamente parte do DNA do gênero. Eu ia vendo aquilo acontecer e me perguntava porque raios estávamos perdendo minutos preciosos do último episódio do ano com conversas sobre o passado da mãe e do pai de Carrie. Se ao menos aquilo tivesse alguma ligação com essa temporada… Mas não, não tinha. Podemos até forçar a analogia entre Carrie ter sido abandonada pela mãe e agora lidar com a possibilidade de precisar fazer isso com a filha… Mas pelo amor de Deus, precisava mesmo de um episódio de Season Finale inteiro pra isso? Sabemos que essa questão materna é importante para a Carrie da Season 4, mas você não entuba drama familiar na goela de seus espectadores, quando na verdade construiu sua jornada até aqui, lidando com política e reação. Se existe um exemplo bom  para “balde de água fria dramatúrgico”, é esse. E podem até começar a ladainha do “você não gosta porque Homeland não faz o que você quer”, porque eu vou sentar e aceitar as críticas. Só duvido muito que esse final tenha sido o final dos sonhos de qualquer um de vocês. 

Até mesmo a ligação de Dar Adal com Haqqani foi explicada com um inexplicável senso de minimalismo. A coisa toda parecia uma espécie de chantagem paternalista barata: “Olha, eu tiro seu  nome da lista negra, mas você tem que me PROMETER que não vai mais andar com os terroristas. Terroristas são feios”. Em troca, o vídeo de Saul foi salvo. Agora, eu me pergunto se não é bastante ingênuo acreditar na “palavra” de alguém como Haqqani, que ao esfaquear Fara naquele massacre, deixou bem claro que NÃO tem uma. Mas ok… Bora fazer um arranjo com ele, vamos acreditar nas “boas intenções” e na “boa vontade”, porque enfim, negociar com terroristas de repente virou o que o governo americano mais sabe fazer… No meio desse absurdo todo, a inteligência paquistanesa (cheia de bons personagens que foram ignorados nesse finale) é que acaba sendo o elo mais forte dessa trama toda. 

Enfim, a última coisa que eu queria era estar aqui reclamando do Season Finale de Homeland, principalmente porque acreditei na melhora e me diverti imensamente nas últimas semanas. Porém, mesmo sabendo que meus elogios serão esquecidos e que voltarei a ser o inimigo dos fãs, não posso deixar de demonstrar meu desconforto com essas decisões. Tenho a sensação de que quiseram elegantizar a temporada fazendo um finale introspectivo e psicológico, quebrando bruscamente o ritmo alto do episódio passado e nos dizendo “olha como somos corajosos”. Mas, não funcionou pra mim. Eu sentia como se estivesse assistindo o season finale de uma temporada diferente. Era como um universo alternativo onde deixei de ver Homeland por alguns anos e depois caí na contemplação de um episódio aleatório, escrito com mãos inspiradas nas clássicas tragédias gregas, onde tudo a respeito do protagonista era de quem ele era pai ou filho. 

Não é a primeira vez que a série dá saltos bruscos no Season Finale… Ano passado, Carrie também perdeu alguém e vimos muito mais do período de conformidade do que do período de choque. Sendo assim, não é como se Homeland estivesse traindo seus traços estilísticos. Não, ela não está. De fato, ela está sendo fiel ao maior deles: sua instabilidade criativa. Fico com a sensação de que quando ela abraça seu espírito político e violento, ela encontra seu bálsamo. Mas, toda vez que ela tenta ser um produto de investimentos dramático-pessoais, ela flerta com o clichê, com o chavão… Me desculpem, mas quando o que se salva do finale é a possibilidade de um novo desentendimento entre Carrie e Saul, é porque houve muito pouco para se aproveitar. 

Estou decepcionado… E sinto decepcionar aqueles que acharam isso bom. A quarta temporada de Homeland foi do céu ao inferno inúmeras vezes. Vou guardar a parte do céu com carinho e seguir adiante. Ano que vem o mundo se renova. Obrigado e até lá.

At Last: Lockhart apareceu numa ceninha bem rápida, mas o suficiente para confirmar que eu vou sentir muita falta dele.

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