Céu, inferno, anjos e demônios em nossa terrinha de Jah.

Eu sempre tive uma infância bastante bizarra quanto a conteúdos consumidos em minha pouca idade. Se a maioria das crianças assistia a Rei Leão, A Bela e a Fera e O Máscara com os pais, eu sentava no sofá da sala e assistia a Hellraiser, O Massacre da Serra Elétrica e A Experiência. E, se nas caladas eu assistia a Nikita e O.Z. escondido de meus pais, o Santo Graal de meus segredos era Hellblazer. Eu sempre tive uma fascinação louca por histórias sobre Céu, Inferno, com um bom uso de violência e temas que desafiavam todo o contexto em que eu vivia. Dessa forma, o demônio Nergal e John Constantine se tornaram meus heróis de infância e eu me divertia, ao passar dos anos e a transição para a adolescência, com o choque que eu gerava em meus pais quando eu comentava sobre certos plots e mostrava certas imagens, para mim, icônicas. Apesar de ser tão importante para mim, ao saber sobre a adaptação para a TV na NBC, um frio na espinha percorreu meu corpo e decidi que a melhor forma de assistir a nova série seria criar nenhuma expectativa.

E talvez tenham sido essa estratégia de reduzir ao mínimo as minhas expectativas que tenham feito com que eu gostasse desse piloto de Constantine. A série possui problemas claros cá e lá, tanto quando o aspecto sob análise é o ritmo quanto à própria narrativa e, principalmente, aos personagens secundários. No entanto, tendo em vista a base de fãs existente e a vasta extensão da mitologia do material original, era quase impossível não desesperar os roteiristas que viessem a adaptar para a TV. E a prova desse desespero é que, nos primeiros vinte minutos, acompanhamos tanta informação sendo jogada freneticamente que, ao invés de nos empolgarmos, terminamos nos cansando. Afinal, nesse período vimos John no hospício, fazendo um exorcismo, a apresentação de Liv e do anjo Manny, mortes, mundo paralelo dos mortos e várias cenas de terror. E, a cada momento em que uma informação nova surgia, eu sentia um grito feroz dentro de mim: “PQP, PELAMORDEJAH, DESCANÇA POR UM MINUTO ÇAPORRA, CARALHO!!”. E, depois de usar todos os xingamentos possíveis da Língua Portuguesa, o piloto finalmente freou e eu pude começar a aproveitar e a racionalizar aquilo tudo que tinha visto e estava vendo.

Non Est Asylum, pelo menos, conseguiu algo difícil – expor diversas facetas de John Constantine: incisivo, debochado, beberrão, emocional e arrogante. Mesmo assim, senti falta da misoginia, do alcoolismo, dissimulação e O CIGARRO. E aqui é onde a presente adaptação começa a me preocupar. Apesar de o roteiro não fugir de um evento tremendamente violento na história original (Newcastle) e dar, na verdade, pistas de que o tema será crucial para a primeira temporada da série, estamos falando de TV aberta e nem todos têm a ousadia e o tato de Bryan Fuller para bater de frente com o público geral estadunidense. Dessa forma, nesse piloto, se teve algo que incomodou absurdamente foram dois detalhes: a falta de John fumando cigarros e mais cigarros e se afogando no álcool continuamente. E aqui eu me pergunto se a série será capaz de abordar o inferno, os demônios deformados, a violência delirante e a dissimulação sexual fetichista sádica que a HQ abraçou ao longo dos anos. O que eu penso: não. Isso pode ser um problema grave: sim, mas pode ser revertido, desde que tudo seja compensando e velado de forma adequada.

Mas também houve bons momentos e belos detalhes soltos para os fãs. Astra e Newcastle representam um ponto nevrálgico para a construção do protagonista e para o contorno das tramas e das relações que são estabelecidas pelos personagens, assim como na HQ. A ameaça contida e a dubiedade clara das figuras angelicais estão concentradas em Manny (personagem criado para a série somente). A caracterização de John Constantine se assemelha tanto física quanto psicologicamente ao material original (aliás, o figurino de Matt Ryan chega a desconcentrar por ser tão fiel), não deixando de lado o sotaque britânico, o passado familiar traumático e o humor ranzinza e, às vezes, propositalmente sem graça do personagem. Mas, claro que não se vive só de flores, então lá está Liv, uma figura extremamente genérica, incapaz de fazer par com o protagonista e sem capacidade de atrair o público para si, diante de todos os quilos e mais quilos de clichés soterrados em sua composição. Mesmo assim, acertadamente, os roteiristas reconheceram que ela não tinha força suficiente para ser a figura feminina principal da história e descartaram ainda mesmo no piloto e invocaram nos segundos finais Zed.

Diante disso, o que fica de expectativa daqui para a frente é um aprofundamento sobre Newscastle e Astra (o que ocorreu? O que torna esses dois elementos tão importantes para a história?), o desenhar das camadas dos personagens coadjuvantes (principalmente da novata Zed, emblemática para os fãs da HQ), que foram deixados de lado em prol da apresentação do protagonista e a forma que a série irá tomar ao longo da temporada (puro procedural, misto de arcos dramáticos e procedural ou puramente arcos dramáticos – eu aposto na segunda opção). E só resta dizer: até a próxima semana!

P.S.: o piloto exibido na NBC teve mudanças sutis e outras significativas frente ao episódio vazado meses atrás. As maiores mudanças ficaram por conta da retirada de Liv da série e a alteração visual do demônio Furcifer na cena do terraço do prédio. Vale apontar que todas as mudanças favoreceram o episódio.

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