A Boa Secretária de Estado.
Usando uma metáfora que um série maníaco entenderia, por cinco temporadas The Good Wife tem sido pra CBS, o canal que a exibe, uma espécie de aluno brilhante na universidade que só se preocupa com o time de futebol: uma série criticamente adorada e premiada, mas com audiência no máximo razoável no canal dos procedurals (NCIS, CSI) e das comédias mais tradicionais (qualquer coisa da fábrica de Chuck Lorre) que têm audiências mostruosas, mas ficam sempre pra escanteio quando se discute qualidade. Pois esse ano o canal parece ter decidido apostar num caminho diferente. Nas noites de domingo, que a audiência dos EUA já se acostumou a associar com os melhores dramas da TV a cabo, o canal montou um line-up que parece fazer sentido e se complementar, tematicamente e no público que pretende atrair: o tradicionalíssimo jornalístico 60 Minutes, seguido de Madam Secretary, e depois a Boa Esposa.
Madam Secretary é, na aparência, como sua companheira, uma série muito mais séria e ambiciosa do que a média da CBS. Téa Leoni é Elizabeth McCord, ex-agente da CIA que se aposentou e foi dar aula de história numa faculdade na Virginia em que o marido ensina filosofia. Os dois passam os dias cuidando dos filhos adolescentes e de cavalos numa fazenda. A série começa com a morte do Secretário de Estado num acidente de avião, e lá vai o presidente, Conrad (Keith Carradine), pedir que McCord assuma o cargo. “Não é que você pense fora da caixa, é que você nem sabe que existe uma caixa”, enuncia o presidente antes mesmo que o primeiro bloco do piloto termine.
É um pouco demais: mesmo que a gente aceite o fato de que o presidente entre num carro e vá até a Virginia ao invés de pegar o telefone e ligar, ou de que ele teria feito isso sem ser seguido pela imprensa (e mesmo que a gente releve o fato de que nenhum país em sã consciência elegeria Keith Carradine presidente), essa frase não desce. É o tipo de coisa preguiçosa que enfraquece um piloto, e que, infelizmente, se repete nesse aqui algumas vezes (“We’re parents. We’re teacher. We’re horse owners”; Elizabeth recitando as línguas que fala…).
Daí pra frente o episódio salta dois meses, e entre os plots abordados estão: o resgate de dois adolescentes sequestrados na Síria, um jantar pro rei polígamo da Suazilândia, um ex-colega de McCord da CIA que acha que o acidente de avião que matou o antecessor dela não foi acidente e que acaba morto ele próprio num acidente de carro, e a tensão política na relação da Secretária com o Chefe de Gabinete do presidente. Os dois últimos plots, fica claro, vão permear a série. É um ritmo meio amalucado de eventos simultâneos, paralelos e mais ou menos complexos que The West Wing consagrou, mas que é bem difícil de imitar (nem o próprio Aaron Sorkin conseguiu em The Newsroom; e não foi por falta de tentar). Mas aqui a tática não chega a ser prejudicial, e é até relativamente bem conduzida: eventos recentes (muito posteriores à gravação do piloto, diga-se) colocam um quê de urgência na trama do sequestro, e o rei da Suazilândia tem de fato uma penca de esposas e filhos, o que adiciona uma graça à cena do jantar.
Dando um passo pra trás e pensando no que o piloto diz sobre o futuro (ou não) de Madam Secretary, é difícil fazer uma previsão definitiva. Téa Leoni é uma atriz talentosa, sutil e cheia de recursos, e alguns dos outros atores – o grande Zeljko Ivanek em particular – são muito bons. A ideia de ambientar uma série no mundo da diplomacia americana oferece oportunidades imensas, que séries de espionagem (Homeland) ou ambientadas no mundo da política doméstica (House of Cards) ou na vida doméstica de políticos (Scandal) não necessariamente podem aproveitar.
O problema é que, por hora, McCord parece uma heroína convencional no mau sentido – uma “mocinha” –, o que pode ser fatal pra série. A insistência do piloto de fazê-la parecer a pessoa “do bem” recomenda colocar o pé atrás: unidimensionalidade, especialmente numa série centrada ao redor do poder, é um vício fatal. E os pesonagens coadjuvantes, talvez com a exceção do Chefe de Gabinete de Ivanek, não deixam qualquer marca, e mentalmente eu me refiro à equipe de McCord por hora como: “a moça do protocolo que desconfia da chefe mas vai virar melhor amiga dela logo”, “o speechwritter engraçadinho e estabanado”, “o cara que é meio canalha e se preocupa com política”, “a moça negra que satisfaz a necessidade de ter uma personagem negra” e “o secretário”. Eu espero muito que a série encontre um caminho pra esses personagens, e pro marido e pros filhos da protagonista (alerta “perigo criança em série” pros dois, especialmente pra menina – eu curti moderadamente a tendência anarquista do moleque). Fiquemos com o exemplo de West Wing: sem aquele time fortíssimo de coadjuvantes pra servir de porto de referência enquanto a trama girava na velocidade de um redemoinho, o público teria saltado fora do barco antes mesmo de ele sair do porto (e, sim, eu estou usando a metáfora clichê do episódio; se Tim Daly pode eu também posso).
Curiosamente, mas nem de longe por coincidência, tanto The Good Wife quanto Madam Secretary tem algo que ver com a vida de Hillary Clinton: Alicia Florrick é uma mulher publicamente traída pelo marido político que tem que refazer a vida; Elizabeth McCord é uma mulher inteligente, loira e competente que assume a Secretaria de Estado. O que Alicia tem, e que McCord não mostrou, e que a quase-e-talvez-futura-Presidente Hillary tem até demais, é ambição, e astúcia, e ardil.
Se por cima do interessante, mas limitado, esboço de pessoa que McCord parece ser nesse piloto a série conseguir acrescentar substância, defeitos, desejos, medos e equívocos – alma, enfim – a CBS pode ter na mão a repetição da alquimia única e até aqui irrepetida que tornou The Good Wife não só TV levada a sério, mas acima de tudo boa TV.















