A amargura da tragédia.
Esse foi o episódio mais amargo de Ray Donovan. Menos pelo gosto azedo e a dor de cabeça pulsante de uma ressaca da bebedeira do episódio anterior, e mais aqueles desagradáveis minutos de auto consciência quando você percebe que algo está prestes a ser perdido, prestes a escapar de suas mãos. Nessa temporada muita coisa escapou das mão de Ray, o controle das situações principalmente – e não é atoa que os dois últimos episódios comecem com o protagonista deitado sozinho na cama, no sofá, seja lá onde for – o que nos mostra que longe de uma tentativa de recuperar as rédeas do jogo e antes mesmo de perder alguma coisa, o próprio Ray está perdido.
Aí que a história fica mais cínica quando a gente olha para o nosso personagem e percebe que o lugar onde ele passou (e passa) a maior parte do tempo é dentro de um carro. Indo para algum lugar. Voltando de outro. Com destino claro. Para alguém que está perdido Ray parece saber muito bem para onde ir, não? Pois é, não. Ray acha que sabe. Ou pelo menos achava. O amargo sabor desse episódio surge da inevitável constatação de que Ray não tem lugar para ir. Mas alguém pode perguntar: E o trabalho? Seria um lugar possível senão esse escritório revestido de sujeiras – dos outros e do próprio Ray. E o apartamento? Podemos chamar aquele vazio arquitetônico de lugar?
Ray, da tela minúscula daquela câmera com super lentes, visualiza a tão esquecida felicidade da sua mulher que ele mesmo não vê há anos e o inexplicável conforto que ela possui nos braços de outro. Por isso que quando entra na casa do detetive para um possível acertos de contas, ele não espanca Jim pois sabe – mesmo no fundo – que aquele cara é importante para sua esposa e que se encostasse um dedo nele perderia Abby de vez (o lance é justamente saber até quando isso irá continuar). Seria muito em falar de inveja?
E Ray precisa de uma família. Ray só funciona porque sabe que no fundo, por mais disfuncional que seja, por mais conflituosa que tenha virado, por mais ressentida que de fato é, ainda assim ele pode falar que tem uma família. Ray tem tatuado no braço e no peito o nome da mãe e da irmã, ama os irmãos, despreza o pai asqueroso mas nunca foi capaz de matá-lo, protege a filha, atende todos os pedidos do filho. Assim, essa rocha – ou lápide – chamada Ray Donovan, a.k.a. porto seguro, resolvedor de problemas, limpador-de-todas-as-cagadas-que-já-ameaçaram-alguém-nessa-história, se despedaça perante a decepção. Não é preciso de muito. Um plano é o bastante. Um fio de sangue escorrendo de sua boca também. Se no episódio anterior Ray viu a família colidir, nesse, pior ainda, se vê traído por ela.
Mick também encontra traição mas por outras vias. Se há um personagem que ama tanto o passado em Ray Donovan, só existe um. Ao dar oportunidade para contar suas histórias e ganhar dinheiro com elas em Hollywood, Mick se sente o rei. Senta no trono de seus crimes anteriores e discorre verborrágico sobre seus feitos. Cena genial aquela que ele conta o que roubaria na casa do ricaço. Mas não é só de glórias que é feita o passado e sabemos que quando se trata de Mick, muita sujeira escorre desse bueiro. Ao encontrar um conhecido que faz parte do mundo que tenta entrar, é logo expulso. Não há lugar para mais um Mick (de tantos que lá devem ter).
Eis a inevitabilidade da série: escapar da tragédia. Logo, chega até ser irremediavelmente previsível o desenrolar da história de Bridget e Marvin, que já era desde o seu início uma verdadeira tragédia anunciada. Era só esperar o momento certo. As engrenagens narrativas precisas se moverem. Aí temos o dueto final, lúgubre. Carinhoso demais, feliz demais pra série que estamos falando aqui. O plano em relativa distância do carro parando no sinal vermelho é provavelmente das cenas mais batidas da história do cinema, mas e daí? Se a tragédia já é esperada, nada melhor do que corresponder com um arsenal de planos incrivelmente familiares. Mais do que referências, mas a própria consciência de que histórias assim sempre irão acontecer. Dessa forma, a série inscreve por cima sua trama. Palimpsesto. É como uma cadeia inevitável de acontecimentos que Ray Donovan era obrigada por passar.
E que cena foda. O suspense já é construído a partir do momento do “Eu te amo”. As frases saem e ficam no carro. Morrem no carro também. Na luz vermelha, o choque dos primeiros tiros. A violência dos próximos. Bridget ensanguentada saí do veículo assim como parte da cabeça do seu namorado. Viva, ainda bem (e diferente do que eu pensava, inclusive). Mas com um machucado difícil de remediar. Ela finalmente se situa na série. Encontra seu lugar essencialmente dramático. Nada de garota revoltada. Nada de adolescente rebelde. Só o medo que resta. E é aqui Ray acha sua saída. Na tristeza da filha, ele reencontra sua família.
PS.: Cookie Brown será a grande força que Ray enfrentará no final dessa temporada?
PS.2: Achei que a série ia aprender com o episódio anterior, tão sintético, e saber cortar as gorduras dos próximos, porém todas as cenas da Kate foram essas sobras desnecessárias, que acabam atrapalhando a fluência do movimento potente que ia se formando.















