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Behaviorismo, evolução e a Ilha do Doutor Moreau

Nada nunca esteve tão claro quanto o behaviorismo existente em Orphan Black. O comportamentalismo é um ramo de estudo que leva em consideração as respostas a estímulos através da análise do comportamento de indivíduos. Logo, o que temos na série seria o chamado Behaviorismo, um foco direcionado ao comportamento observável. Essa seria então a função dos “handlers” dos clones, não apenas mantê-las ao alcance, mas identificar suas respostas para estímulos específicos. Indo então para o Behaviorismo radical de Skinner, fica mais evidente ainda a forma como os comportamentos são selecionados através de três níveis – Nível Filogenético, onde são englobados os aspectos biológicos da espécie e de hereditariedade do indivíduo – Nível Ontogenético, que é toda a história de vida do indivíduo – Nível Cultural, aspectos culturais determinantes na conduta do indivíduo.
E é exatamente nesse momento que entramos na obra “A Ilha do Doutor Moreau”, livro que o Doutor Duncan lê para Kira e mantém suas anotações. No livro temos um médico que através da ciência realiza experimentos que culminam na criação de criaturas monstruosas. Questões como ética, religião e evolução, além do já citado behaviorismo são exploradas na obra de H.G. Wells e fazem uma perfeita conexão com o próprio Duncan.
O que é mais interessante de se ler em “Ilha do Doutor Moreau” é que no capítulo ‘Doutor Moreau Explica’, todo o texto envolvendo o estudo e aperfeiçoamento das criaturas monstruosas criadas na ilha acabam convencendo o leitor de que certa forma, é compreensível adentrar ramos da ciência e medicina que já existem, mas que muitos julgam proibidos. Moreau e Duncan dividem a mesma opinião e assim chegamos a existência do Doutor Leekie, uma versão menos aprimorada de ambos os doutores, mas que abraça de maneira radical a visão de que as dores sofridas pelos experimentos fazem parte de uma parcela tão pequena a ser paga, que justificam todo o processo sofrido, e isso é tão Moreau.
Também entrando no rol das teorias, gosto de imaginar que talvez a ilha onde os monstros vivem pode acabar sendo o local onde o exército realizou todas as suas experiências, mas isso é só um chute. Afinal, até chegarmos nos clones “perfeitos”, muitos erros devem ter sido cometidos e ver a pequena garotinha clone no final da temporada com o problema na perna me leva a crer que vários outros podem estar sendo mantidos em segredo na “ilha”, com resultados similares de má formação física e até mental. E é exatamente nisso que o livro foca, os monstros criados por Moreau em busca da evolução. Será que o verdadeiro doutor também está lá na ilha (ilha aqui está sendo utilizada meramente como uma referência ao livro, e não a uma ilha de verdade)?

Proletheans, o rio do esquecimento e Prometheus
Os Proletheans foram de certa forma um núcleo um pouco confuso nas duas temporadas de Orphan Black. Começaram inicialmente como uma seita que abominava a criação dos clones e as julgava não naturais. Depois, vimos que existiu uma cisão e através da tutela de Henrik (violentado por Helena) Johanssen se tornaram entusiastas da divisão, clonagem.
Sendo assim, gosto de imaginar o grupo com duas possíveis explicações. A primeira que eu gosto muito é ligada a Divina Comédia e a própria mitologia grega (de novo). Vamos primeiro separar a palavra e analisar a parte fundamental de tudo “LETHE”. Na Divina Comédia temos uma bela explicação de como a alma chega aos céus. O cunho religioso é muito forte e LETHE é o rio do esquecimento, as almas antes de adentrarem ao Paraíso precisam beber do rio para que se esqueçam de seus pecados, rio esse que tem seu topo localizado no purgatório, a faixa de transição. Esse é o primeiro aspecto relevante ao grupo e que vimos muito na primeira temporada, podemos então relacionar esse esquecimento a eliminação de todos os clones, a única forma de purgar os pecados e adentrar ao paraíso. Concluo ainda que o esquecimento se torna então o principal antagonista da ciência. Juntando ao “Pro – que apoia”, temos PROLETHE.
Indo além analisando os Proletheans ao conectá-los a Prometheus, temos novamente a mitologia grega ditando o significado. Prometheus foi o deus que dividiu o avanço com os humanos e os fez evoluir. Entretanto, essa evolução foi a causa do próprio castigo dessa divindade. E o que tudo isso pode significar para série? Que a evolução é o mal que precisa ser vencido e subjugado a qualquer custo, além do mais, utilizar um deus pagão como exemplo a não ser seguido casa muito bem com toda a aura psicótica que a seita adotou.
Quanto ao lado “pró-clone” adotado na segunda temporada, me abstenho de comentários pois em minhas leituras e divagações não consegui conectar nada da mitologia nele, a não ser a própria inversão do significado de Prometheus, antes julgado um exemplo a não ser seguido e agora tido como o único existente, onde a divisão do progresso seria a dádiva divina para a humanidade. Onde divisão pode ser levada ao ponto central das motivações desse novo grupo, a clonagem e a criatura perfeita.
De toda forma, Prometheus na série representa a criação de uma vida que você não pode controlar, onde a imagem do deus se esconde atrás dos perigos em se alcançar mais do que se estava procurando, as consequências não imaginadas. E isso não é exatamente o que a DYAD está passando no momento com os clones e Sarah? Exatamente.
Concluindo essa postagem, espero que tenham gostado de todas as teorias e mitologias que levantei e identifiquei na série depois de muita leitura e muitos copos de café. Orphan Black é uma série que está crescendo e tendo sua mitologia cada vez mais aprofundada e explorada. Por isso é bom ter em mente que o terreno ainda está instável e que muita coisa ainda pode ser descoberta até o final desse clone club tão maravilhoso.















