Os sons da melancólica trilogia da quinta temporada de Glee.

Quer apavorar o fã de uma série? Só dizer pra ele que por força das circunstâncias, alguns atores não vão poder continuar a assumir as vidas de seus personagens quando o próximo ano chegar. Quer tornar um recomeço impossível? Basta tentar aplicar alguma substituição. Não é como se os fãs respondessem assim propositalmente… É mais uma questão sensorial, um apego emocional até mesmo precioso, que apesar de rejeitar mudanças, também representa um carinho e uma lealdade que manteve o show no ar até ali.

Glee passou pelas duas coisas na quarta temporada. Precisou perder personagens e criar outros e sofreu com isso o impacto que já era previsto. A série perdeu bastante audiência nessa transição, mas quem continuou assistindo percebeu muito rápido que a equipe de roteiristas e a produção musical não estavam pra brincadeiras. O quarto ano foi planejado com duas storylines muito seguras: a vida de Rachel em Nova York e as descobertas de Finn no núcleo escolar. E essa segurança resultou em ótimos episódios, que manipularam a cultura pop e continuaram a ironizar com as nossas morais daquele jeito que só essa série sempre soube fazer. 

Mas então fomos pegos de surpresa, no início do ano passado, pela internação de Cory Monteith. O ator tinha pressa e a equipe de Ryan Murphy, então, precisou rever os últimos episódios da temporada. O efeito foi sentido imediatamente. O season finale do ano quatro foi marcado por uma sensação de que alguma coisa estava faltando, uma confusão de plots inacabados e uma estranha atmosfera de desnorteamento. Não sabíamos, naquele momento, que a morte de Cory, algum tempo depois, iria anular não só o planejamento de uma finale, mas de toda uma temporada seguinte. Assim, o quinto ano perdeu-se de si mesmo, como numa tragédia inevitável, em três atos de tristeza e equívoco. 

Primeiro Ato – A série resolveu lutar para estar no ar tão logo fosse possível. A mistura de profissionalismo com terapia terminaria sendo uma péssima decisão dramatúrgica. A equipe resolveu levar a cabo (às pressas) um projeto de tributo aos Beatles que merecia mais tempo de dedicação e apuro. Frio, esse início de temporada sofreu com o desinteresse da audiência, que queria mesmo era ver o episódio 3, que se despediria de Cory. Após essa homenagem, o plano era ser prático. O núcleo de Nova York não precisaria sofrer nenhuma manobra, já que ele funcionava independente de Finn. Porém, em Lima era mais complicado e o jeito foi entregar essa primeira leva de episódios à função temática. E colocando em perspectiva (e em comparação com o final da temporada), os episódios focados em Katy Perry, Lady Gaga, Miley Cyrus, Billy Joel e mais bonecos e delírios, foram alegoricamente adequados ao propósito cultural da série. Musicalmente falando, também ofereceram bons momentos e até alguma ousadia. O episódio de Natal, que encerrava esse primeiro ato, por exemplo, foi o melhor episódio de Natal de toda a série. 

Segunto Ato – Voltamos do hiato com a promessa de que no ano seguinte tudo se passaria em Nova York, mas pouco antes do episódio 100, as demonstrações de insegurança continuaram, com Murphy mudando de ideia novamente e resolvendo que a mudança definitiva pra Big Apple seria ainda no ano 5. Talvez por terem tomado essa decisão, os episódios 9, 10 e 11, que antecederam o episódio 100, pareceram mais planejados, dedicados a uma storyline pequena, mas efetiva, que culminaria nos episódios 12 e 13, que trariam todo mundo de volta. Esse pequeno período da temporada foi o mais forte e até mesmo as escolhas musicais tiveram mais poder. Isso até, enfim, a maçã oferecida para a série, acabar tendo um gosto bem amargo. 

Terceiro Ato – Do episódio 14 ao 20 (sim, porque a série ainda perdeu dois) vimos uma tentativa de recomeço agonizar diante de nossos olhos. Glee fazia de tudo para continuar sendo lúdica e inspirada, mas todas aquelas despedidas maciças tinham descaracterizado tanto o produto final, que tudo acabou soando melancólico, triste, lamentoso. Rachel, como sempre, era a única que seguia numa jornada coesa, mas os outros personagens pareciam jogados no meio de um tabuleiro de peças misturadas e aleatórias. Sam e Mercedes são uma insistência infundada que nunca compreenderei porque parece necessária para os roteiristas. Artie apenas prometeu independência e Kurt e Blaine chegaram a parecer sem absolutamente nenhuma química. Além disso, musicalmente falando, todos os arranjos pareciam apressados e todas as performances, preguiçosas. Terminamos entregues à piedade da Fox, que trará o programa de volta no ano que vem até a última ordem. Glee não tem toda a culpa desse fracasso e mesmo que cambaleie, ainda faz pela minha rotina musical muito mais do que qualquer outro show poderia fazer. 

Assim, separei 15 das canções que considero mais bacanas dessa estranha quinta temporada. Sim, porque sobretudo, não vislumbro nenhuma felicidade em ver a série acabar. Glee me enriquece com vocabulário musical, com provocações melodiosas e com pérolas textuais que sempre a farão relevante. Bom deixar isso claro. 

A ordem das canções não é totalmente aleatória… É exatamente como gravo num CD-R e escuto no meu discman (sim, eu tenho um discman e sou apaixonado por ele). 

Seasons of Love 

Acho que posso dizer que essa é a primeira versão realmente poderosa da temporada e que rodou a internet até mesmo entre os que não eram fãs. Saída do musical Rent, ela não teve grandes mudanças no arranjo, mas tem sua força na combinação de vozes do coro e na harmonia de bateria que é simplesmente irresistível. Os vocalizes de Amber, nesse caso, foram muito bem pontuados e a canção é uma pequena obra-prima do show. O episódio-tributo à Cory tem muito apelo emocional, mas suas canções são discretas e minimalistas. Por isso os momentos de Santana e Rachel acabaram não entrando nessa lista. 

 

O que pouca gente sabe é que o elenco já tinha gravado essa canção antes, para que ela entrasse no “Graduate Album” da terceira temporada. Cory, inclusive, cantava a música, que foi cortada sem maiores explicações não só do disco como do episódio. O curioso é que a parte solo de Finn na canção é justamente aquela que se pergunta se a melhor maneira de se medir a vida de um homem é a forma como ele morre. 

  

Toxic 

A primeira coisa que aconselho é: escutem essa canção em sua full version e com fones de ouvido. A riqueza de detalhes dela é impressionante. Se a versão da segunda temporada já era incrível, esse tango preparado para o revival do episódio 100 é de enlouquecer. O arranjo de violoncelos e castanholas é de arrepiar e merece nosso mais absoluto respeito e devoção. Além disso, a canção foi trazida de volta pra ser cantada por Quinn, Santana e Brittany, num número cheio de sensualidade. Sem dúvida, uma das mudanças de arranjo mais ousadas e bem sucedidas que a série já fez. 

http://youtu.be/WVAvIcMaRK8 

Wide Awake 

Uma das coisas mais comoventes que Glee já fez em cinco anos inteiros, sem dúvida. A belíssima letra de Katy Perry encontrou uma tradução perfeita no arranjo delicado e sensível produzido para o ótimo episódio Katy X Gaga. Todas as quatro canções desse episódio podem ser consideradas ótimas, mas essa é simplesmente um primor. O piano, o violoncelo no acorde final, a harmonia de vocais arrebatadora, com os graves perfeitos de Jake e os agudos minimalistas de Kitty, e ainda com Unique dosando certinho os momentos de nos arrepiar com sua potência. 

Infelizmente o YouTube não disponibiliza o vídeo da performance, mas ainda assim vale um play pra conferir essa obra de arte, que é bem diferente do original. A letra, que fala sobre dar-se conta de que o tempo do sonho acabou, caiu como uma luva para o terrível momento visto pelos fãs de Perry no filme produzido por ela mesma e que não se poupou de mostrar a ruína de seu casamento. Essa é uma letra que vale a pena ser conferida com atenção. Poucas vezes se vê artistas pop expondo emoções de forma tão sensível e competente. E exatamente por se tratar de uma artista pop é que a versão de Katy acabou indo pro mercado mais dançante que emocional. 

Applause 

Sei que muitos de vocês vão reclamar de Applause nessa lista, mas considero essa versão subestimada. Ouvida com atenção, percebe-se claramente como ela tem uma batida forte e ótimos vocais de Artie. Melodicamente falando, ela é até mais limpa que a versão de Gaga e apareceu na série honrando as premissas conceituais da artista. O brado pela diversidade proclamado por Lady Gaga tem muito a ver com o espírito de Glee e a série sempre dá um jeito de trabalhar essa junção. Applause quase perdeu lugar para a versão de Adam Lambert para Marry the Night, mas colocando em perspectiva a força do arranjo e a performance visual, Applause merece o posto. Deem um play no vídeo, porque só Becky fantasiada e gritando no começo, já vale a conferida. 

http://youtu.be/SZZwMczAMrA 

Don’t Rain on my Parade 

E se alguém além de Rachel cantasse essa que é uma das canções mais icônicas na história de Glee? Pois bem, Santana resolveu cantar e quase fez meu queixo cair. A empáfia da personagem foi ótima para a temporada (Santana ironizou até repetindo alguns movimentos de Rachel), mas é muito difícil fugir das bases clássicas de uma canção da Broadway. Mesmo assim, a produção musical da série tentou e conseguiu dar para a faixa uma pegada mais pop, usando menos instrumentos de sopro e mais guitarras. Além disso, o alcance vocal de Naya Rivera foi mesmo desconcertante. Parecia impossível que uma nova versão nos arrancasse algum suspiro, mas eu fui convencido de que nesse caso, Lea Michele não é soberana. 

http://youtu.be/xTkMQZgQsMI 

Hold On 

Além de uma atmosfera otimista que encerrou muito bem o episódio “Trio”, Hold On saiu lá do ano de 1990 para ganhar uma elegância que Glee sempre soube dar a seus resgates do passado. Cantada por quase todo mundo que estava no episódio (inclusive Demi Lovatto e Adam Lambert), ela tem um refrão delicioso de se ouvir e a performance não se priva de fazer piada com o tom de auto-ajuda da letra. Ainda assim, o resultado é muito gostoso e faz a gente sorrir o tempo todo enquanto escuta. 

http://youtu.be/RH3LtehnPyU 

Let it Be 

O tributo aos Beatles foi muito esforçado, tentou privilegiar o espírito da banda, mas correu sem nenhuma costura narrativa, se limitando a reproduções da mitologia da banda, sobretudo na primeira parte. Em Tina in the sky with Diamonds houve uma busca por uma storyline e talvez por isso, as canções com arranjos mais contemporâneos foram guardadas para serem executadas aqui. O dueto entre Santana e Dani é muito bonito e há uma certa catarse no momento em que Hey Jude surge na cena do baile. Porém, Let it Be, além de ser uma das canções mais perfeitas do planeta, encerrou esse tributo com um quase impossível otimismo e foi arranjada para passar por todo o elenco, em meio a uma melodia cristalina e cheia de mais ótimos vocalizes de Artie. 

http://youtu.be/O6HrPbHNMbY 

Aliás, o grande papel de Artie nessa canção não é coincidência. Essa foi a canção que Kevin McHale cantou em sua audição e ele tem as palavras “Let it Be” tatuadas em sua perna. 

Downtown 

Embora tenhamos uma boa versão de outra canção de Petula Clark em jogo (Don’t Sleep in the Subway), a coisa toda com Downtown é uma questão de simpatia. É impossível não se deixar levar pelo clima otimista daquela tão promissora mudança pra Nova York. Como aconteceu muitas vezes nesse ano, a versão não se afasta tanto do original, mas é um pouco mais encorpada e tem uma cadência tão gostosa que não dá pra parar de ouvir. 

http://youtu.be/CycIKLO0FOY 

Story of my Life 

Embora as versões desse ano não tivessem se arriscado tanto, Glee continuou com uma boa visão de mercado, trabalhando vários hits em vigência no período da temporada. A execução de Story of my Life, por exemplo, foi estrategicamente colocada dentro de um plot que unia o apelo do casal Klaine na audiência jovem e o constante flerte da série com nomes clássicos. Aqui, no caso, Shirley McLaine compunha esse quadro. A versão da canção é muito parecida com o original do One Direction, mas ouvida fora do contexto do episódio, as alternâncias entre Darren e Chris funcionam perfeitamente, do mesmo jeito que já havia acontecido com Perfect, da Pink

http://youtu.be/9wHonAkXfuQ

E quero mencionar também o lindo trabalho de Darren em outra canção que não aparece aqui: All of Me, de John Legend.

Be Okay 

A comemoração do episódio 100 não viveu só de revivals, mas também de algumas novidades. Be Okay foi uma delas.  A versão da série parece ser um pouco mais enérgica que a do Oh Honey, mas o maravilhoso aqui é o casamento das vozes de Naya e Lea. A canção já tem uma batida muito forte, mas como sempre, Glee sabe dar um tratamento de clareza nos arranjos que torna o produto final extremamente agradável. 

http://youtu.be/PKNUBQvsIvs 

Brave 

Frenemies foi um episódio cheio de bons momentos musicais e Brave é outro deles. O original de Sara Bairelles é bem nervoso, mas Glee resolveu manter a base melódica e dar à canção umas calmarias e silêncios bem interessantes. A performance também é muito boa e a música serve como um arauto do que está pra acontecer, que é Santana não sendo corajosa o suficiente para não se deixar levar pela escuridão. 

http://youtu.be/oXUFNIC_SxY 

Party All the Time 

Me crucifiquem o quanto quiserem, mas eu gosto de várias das apresentações de Gwyneth Paltrow no show. Não só o número de Party All The Time é ótimo, como a performance vocal dela aparece muito mais aqui do que em Forget You. Além disso, senhores, essa música foi cantada em 1985 por ninguém menos que Eddie Murphy. Vejam os vídeos e tirem suas próprias conclusões. 

http://youtu.be/JREMC_fWCEs 

 

Uma outra coisa interessante a respeito da celebração do episódio 100 é que uma nova versão de Total Eclipse of the Heart, muito boa por sinal, foi gravada e lançada no álbum, mas não aparece nos episódios. 

Pompeii 

Aqui em Pompeii temos mais um caso onde há uma questão de preferir ou não o arranjo vocal disposto entre vários personagens que difere da uniformidade da versão original. Glee estava procurando uma maneira de invocar alguma catarse depois desse ano tão confuso, então nos perguntava “como seríamos otimistas quanto a isso?”. Carente de números musicais realmente fortes e grandiosos nessa fase Nova York, a série tentou levar todo mundo pra rua e centralizou a figura de Rachel para olhar para a câmera e nos dizer: há um futuro e vocês precisam acreditar nele. Funcionou pra mim e eu passei a curtir a canção, que tem sim, viradas melódicas muito boas e consistentes. 

http://youtu.be/fNKConh-IwU 

Roar 

Roar foi outro exemplo de versão que vi absolutamente TODO MUNDO aprovando e ouvindo. A força da bateria na virada do refrão é TÃO BOA que dá até um nervoso. Outro número cantado por todos os núcleos e com deliciosas interferências de vocalize de Unique e Elliot. Isso sem falar na loucura da selva montada apenas para Will ver, um cipó no meio das sequências com a banda de Nova York, Demi Lovatto com um pequeno solo e muita energia visual. 

http://youtu.be/jwTOK0OuQao 

Roar também é uma das coisas mais bacanas que a série já fez e que tem aquele poder de encerrar um episódio fazendo a gente dançar no meio da sala, sorrir de orelha a orelha e pensar catarticamente toda vez que as batidas do refrão começam de novo, mesmo que no meio da rua, enquanto andamos. É uma versão que impulsiona, e que mostra como as vozes do núcleo da escola eram realmente necessárias. 

I Still Haven’t Found What I’m Looking For 

Eu não estava preparado pra isso… As competições são sempre ótimas, tem mash-ups incríveis e eu sentirei falta delas pra sempre. Sabíamos que essa seria a última, mas eu, pessoalmente, não sabia que essa esplêndida canção do U2 estaria no setlist. Cantar as canções preferidas de Finn e vê-lo em imagens entrecortadas foi um soco no meu estômago e eu chorei o tempo inteiro. A canção tem uma coisa épica nela, uma batida bem marcada, mas um crescimento emocional absolutamente condizente com o momento. 

http://youtu.be/j1Vm5LLH_7M 

E o que dizer do trabalho vocal de Kevin, Chord, Darren e Jenna? Aquelas vozes se incorporam na melodia de forma tão brilhante que não dá pra não se emocionar. Na versão full, inclusive, o ótimo comecinho com aqueles vocalizes clássicos dos glee clubs aparece com muito mais charme e merece uma atenção especial. Esse é, sem dúvida, um momento lindo da temporada e que fecha a era das competições com muita dignidade. 

BÔNUS TRACK 

Por fim, eu precisava falar sobre outra coisa… Outra canção que não precisa aparecer em Top algum, porque ela representa um sonho. Mas não um sonho apenas para aqueles personagens, mas para fãs como eu, bobos e dados a devaneios, que sempre acham que nas conclusões certinhas da arte, reside alguma espécie de aviso da vida, uma escapada de um reino escondido, que muitos sabem como acessar, mas que nem sempre está disponível. 

http://youtu.be/qZY2V3Rmy8s 

A nova versão de Don’t Stop Believing é muito superior à primeira em termos musicais. O arranjo inicial de vozes é delicioso, as subidas de pontes e refrões são muito mais intensas, temos arranjos de sopro dessa vez e um monte de outras vozes interessantes pra ouvir. Porém, mas do que isso, essa sequência que encerra o que Glee já foi um dia também nos dá um recado lúdico, que a maioria dos cínicos de ocasião renega, mas que eu faço questão de levar pra casa. Em algum momento de nossas vidas – e que Deus abençoe a todos que tem essa sorte – uma experiência compartilhada com outras pessoas se torna a base de toda a felicidade que colheremos mais adiante. E isso é real, existe, e não dá pra parar de acreditar. 

Ainda que o quinto ano de Glee tenha sido uma imensidão de erros esmagando alguns pobres acertos, essa série é mais que uma experiência de entretenimento… Ela é um tratado de compromisso com a compreensão do sonho. Dane-se a “esperteza” da realidade… Eu quero continuar sonhando. E vocês?

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