Quando o Season Finale já começa se destacando pelo seu nome…

Não diria bem que este foi um ano estranho, como diz o título do episódio em uma tradução literal, mas estou seguro em dizer que, definitivamente, este foi um ano como jamais vimos antes em The Good Wife, e como, provavelmente, jamais voltaremos a ver.

Uma acusação que sempre foi feita à série – e infelizmente não posso dizer que é uma acusação leviana – é que ela sempre permanecia em sua zona de conforto e quase nunca ousava. E acreditem, isso nunca foi um defeito para série, uma vez que The Good Wife tem, facilmente, o melhor texto em séries dramáticas nos últimos anos… Logo, permanecer na zona de conforto não necessariamente era um defeito, só era um pouco… POUCO. Pouco demais do que ela poderia oferecer se quisesse ousar.

Contra esses que falavam do medo dos King em deixar essa zona de conforto para trás, The Good Wife fez um ano espetacular e completamente arrebatador, destruindo toda a estrutura que havia construído nos últimos quatro anos… A começar pela saída de Alicia da Lockhart & Gardner que nos deu o inesquecível “Hitting the Fan” e todo aquele arco desenvolvido a partir do nascimento da Florrick, Agos & Associates.

Os acontecimentos daquele episódio ecoaram durante boa parte da temporada e, a cada nova disputa entre LG e FA&A, víamos a série se afastando de sua zona de conforto, dando início a uma nova era em The Good Wife… Uma era em que os King brincavam com os sentimentos que o público desenvolveu pelos personagens nos últimos cinco anos…

Se de um lado tínhamos Alicia e Cary, de outro tínhamos Diane, Will e Kalinda e, em diversos momentos, era absolutamente impossível tomar partido nessa disputa… Ainda mais quando a série se intensificou nas figuras de Will e Alicia, e o amor reprimido deu lugar à mágoa, aos joguinhos e a tentativa frenética de “superar o inimigo”…

Mas daí chegamos à “Dramatics, Your Honor”

Ninguém estava preparado para a tragédia que aconteceu neste episódio… E se os acontecimentos de “Hitting the Fan” foram grandiosos e ecoaram por toda a temporada, os acontecimentos de “Dramatics, your Honor” conseguiram ser ainda maiores e ecoarão até o Series Finale, marcando de maneira irreversível cada um dos personagens de The Good Wife.

Assistir a morte de Will Gardner foi algo sujo, profano… Daquele tipo de imagem que queima a sua retina, fazendo você desviar o olhar… E te deixa absolutamente sem reação… Mas o show tinha que continuar, ainda que nós não estivéssemos prontos e, apesar de nos mostrar o luto dos personagens à morte de Will, os King foram cruéis e não deram ao público esse mesmo tempo de digerir essa morte…

Então vimos o luto de Kalinda, o de Diane e, acreditem, até mesmo o pesar de David Lee… E vimos também, como não poderia deixar de ser, o luto de Alicia… Luto este, que ainda não terminou… Dessa forma, ainda em choque com tudo o que aconteceu, Alicia ficou ao lado do público apenas tentando absorver tudo enquanto as coisas viravam de cabeça pra baixo na série…

E como numa sucessão de fatos aleatórios, aconteceram tantas coisas ao mesmo tempo, que apenas passavam como um borrão neste período pós-morte de Will… E assim vieram Finn Polmar e Louis Canning, comentários sobre uma fusão, o período mais obscuro de Diane à frente de sua firma, e também o período mais obscuro de Alicia, só que diante de sua própria vida.

Além da dor pela perda, vimos surgir em Alicia a dúvida, o medo e a certeza de que sua vida estava seguindo o caminho errado… Vimos o encerramento de seu casamento com Peter e quando ela começou a questionar-se com frequência sobre se estava fazendo a coisa certa em sua vida.

Ou seja, observando tudo o que vimos desde a morte de Will em “Dramatics, Your Honor” até o episódio passado foi basicamente uma mistura de todos os personagens passando pelos estágios do luto…

Vimos primeiro a NEGAÇÃO, representada pela fantástica cena de David Lee indo chorar sua dor sozinho, para depois botar novamente sua máscara de indiferença… Vimos a RAIVA, que acometeu todos os personagens, mas ficou ainda mais evidente em Kalinda, nos momentos logo em seguida a morte de Will… Vimos a BARGANHA, representada vivamente em Diane, tentando a todo custo manter o escritório como uma forma, no fundo, de manter o Will junto à ela, já que a LG representa o maior vínculo já criado entre os dois… Vimos a DEPRESSÃO, e aqui não podemos esquecer do episódio “de folga” da Alicia e como ela se deixou levar por todos os sentimentos, culpas e indagações que ela amorteceu desde a morte de Will…

E com essa Season Finale, chegamos à ACEITAÇÃO

Assim como todos os últimos episódios desde “Dramatics…”, esta Season Finale também se focou quase que completamente em Alicia e Diane. A partir de um caso bobo, envolvendo aquela mulher que sonhava em ser mãe processando conjuntamente a Lockhart & Gardner e a Alicia, por ter sido a advogada responsável pelo caso, e mais ainda, a partir de uma bobagem, como o fato de terem “esquecido” a câmera de videoconferência ligada na LG, tivemos todo o terreno do final da temporada montado.

Até por isso, “A Weird Year” foi um episódio de resoluções fáceis… Finn Polmar saiu de cena sem muito alarde… O “caso da semana”, tão adorado na época em que The Good Wife não saía de sua zona de conforto, acabou ainda mal resolvido… E mais um dos planos de David e Louis para derrubar a Florrick, Agos & Associates e impedir uma fusão com a Lockhart & Gardner teve menos importância do que era para ter…

O foco todo estava em Diane e Alicia e como essas duas mulheres, finalmente, iriam chega à ACEITAÇÃO e pôr fim aos seus cinco estágios de luto.

É bom destacar também que, com as resoluções jogadas pro final do episódio, havia uma preocupação de que fosse uma Season Finale que tentasse enrolar o público e perdesse sua força, o que não ocorreu graças ao ritmo impressionante que foi imposto pelo roteiro desde o momento em que Carey descobriu a câmera ligada na LG, até os momentos finais, aonde vimos Diane finalmente seguir com sua vida longe da lembrança de Will.

Não foi um episódio completamente alheio a críticas e achei que toda a situação envolvendo a formatura do Zach ficou um tanto quanto deslocada durante a Season Finale, apesar de ser um momento de mudança considerável para Alicia e toda a família Florrick… Ainda assim, não posso reclamar por completo dessa trama já que tivemos a oportunidade de ver excelentes cenas entre Veronica e Jackie.

Chegamos então aos minutos finais e era a hora de Diane e Alicia aceitarem em definitivo a morte de Will. Neste sentido, Diane sai na frente. Com a saída de Polmar da disputa à Procuradoria, Eli e Peter tinham que pensar em outro candidato e o nome de Diane é indicado “quase que inocentemente” pelo Governador… Daí começa uma pequena tensão em torno da candidatura ao mesmo tempo em que víamos a guerra pelo controle da LG aumentar mais e mais, levando-nos a acreditar que Diane aceitaria a proposta.

Mas não. Na primeira grande surpresa do episódio, vimos Diane ir à Florrick, Agos & Associates pedindo para ser aceita na firma de Alicia e Cary, em troca de levar para lá sua carteira de clientes.

E assim Diane fecha com chave de ouro sua participação nessa temporada. Não aceitar se candidatar à Procuradoria foi, antes de qualquer coisa, uma resposta clara dela à Peter de que ela merece bem mais do que ser um tapa-buraco para o Governador. E quanto a ir pra Florrick, Agos & Lockhart (talvez?) acaba sendo o cominho mais óbvio para a personagem trilhar… Na verdade, já desconfiava disso desde a morte de Will, mas tinha dúvidas se ainda haveria alguma chance para Diane ir para a Suprema Corte.

As tentativas de Diane de permanecer no comando da Lockhart & Gardner, do ponto de vista lógico, eram descabidas… Não tinha mais o que querer gerenciar ali. A LG era movida pela vontade de Will e, com sua morte, a firma acabou morrendo também… A insistência de Diane, muito mais do que respeito por todo um trabalho de uma vida, era também respeito ao Will… Ela não queria perder a firma que ele lutou tanto para manter, pois, em última instância, seria perder a última coisa que lhe restou de Will, o grande parceiro de uma vida toda, e ter que encarar que a vida deve continuar.

Em um trabalho esplendoroso de Christine Baranski, pudemos ver cada uma das sensações que Diane vivenciou nesse episódio, desde a aparência claramente abatida, de exaustão daquela guerra com Louis Canning e David Lee, nos minutos finais do episódio, até o momento em que suas feições vão se tornando mais fortes e vividas, mostrando a difícil decisão que precisaria tomar, chegando, finalmente, à reunião na Florrick, Agos & Associates onde se mostrou, em definitivo, no controle de sua vida.

Diane enfim passava pelo último estágio de seu luto e, ante a aceitação de que Will não estará mais ali, cortou esse último vínculo que mantinha com seu antigo sócio e foi enfrentar o mundo no lugar mais adequado, diante das situações, a Florrick, Agos & Associates.

Chegamos então à Alicia que, mais uma vez, se colocou no meio da sua rotina frenética e entre ações, disputas com a LG, a formatura do filho, sua mãe, sua sogra, Eli cobrando explicações sobre Finn e o medo de ter de fechar as portas da firma que tanto lutou pra manter, parecia que voltaríamos a ver a mesma Alicia de sempre, escondendo seus sentimentos atrás do combo “trabalho+família”… E tudo se encaminhou, por mais de 40 minutos, a crer que Alicia encerraria sua participação nesta temporada memorável da mesma forma como se portou durante quase toda a sua vida…

Mas se citei o trabalho memorável de Baranski em mostrar os sentimentos de sua personagem a partir do trabalho corporal, igualmente tem sido o trabalho de Julianna Margulies que, já há alguns episódios, tem mostrado uma Alicia infeliz, insatisfeita e, sobretudo, cansada, muito cansada.

Alicia precisa aceitar bem mais do que a morte de Will… Alicia precisa aceitar que, com o Will uma parte dela mesma morreu, uma parte que sempre imaginou um quando, um talvez, um quem sabe… Uma parte que se culpa e se castiga pelas coisas que não foram ditas ou que não foram feitas… Uma parte essencial para criar os desafios que Alicia teria que enfrentar para entender o que ela queria… Desafios estes que a motivavam a seguir adiante… O problema é que, o que ela queria não existe mais, e com isso morreram os sonhos, a vontade, a motivação.

Por isso, é emblemático que logo na temporada seguinte a que terminou com Alicia tomando a maior decisão de sua vida – ao procurar Cary para dizer que aceitava ser sua sócia – a última cena seja novamente com Alicia, só que dessa vez bem mais passiva, apenas recebendo de Eli a possibilidade de encontrar a motivação que ela perdeu com a morte de Will.

A pergunta de Eli para Alicia, se ela aceitaria concorrer à Procuradoria, é bem mais de que uma mera jogada política emergencial de Eli… Para Alicia, trata-se de uma verdadeira porta aberta para alguém que está claramente insatisfeita com a sua vida… Só o que lhe resta agora, é fechá-la, ou adentrá-la.

A série sempre deixou subentendido que Alicia seguiria carreira política e, considerando que Alicia tem seu bad timing sempre atrapalhando… É irônico notar que os King colocaram essa abertura da carreira política de Alicia no melhor timing possível…

No final das contas, “a weird year” encerrou com maestria “an amazing year” de The Good Wife.

E que venham a temporada de prêmios, que essa 5ª temporada merece.

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