O primeiro racha a gente nunca esquece.
Não dá pra não dizer que nossas empreguetes não brilham independentes umas das outras, cada uma com seu arco isolado. Mas algo que Marc Cherry sabe fazer perfeitamente bem é criar plots que aproximam duas (ou até mais, de vez em quando) integrantes do grupo de protagonistas de suas obras. E é impressionante o tamanho da força que suas personagens ganham quando se unem, em tramas que, mesmo rápidas ou superficiais, sempre acabam dando pano para a manga e nos divertindo deliciosamente.
As escolhidas da vez foram Rosie e Carmen, graças ao fato de que a segunda, agora desempregada, começou a trabalhar para Mister Spence. Em primeiríssimo lugar, há de se destacar a HILÁRIA cena da entrevista de emprego, com Carmen fazendo o papel da intérprete mais maledicente de que se tem notícia. Esse é um recurso batidíssimo, mas que sempre acaba funcionando, principalmente quando nos é apresentado com um contexto tão divertido como o de uma Carmen desesperada por um emprego que consegue transformar até a pergunta “Você pode trabalhar nos fins de semana?” em algo absurdamente ofensivo para a entrevistada e em seguida responder “Ela não gosta de trabalhar nos fins de semana” depois de um surto da mulher. Ponto pra Carmen, e ponto para o roteiro que explorou muito bem o estilo de humor da personagem, que deu à cena um tom bem leve e nada forçado.
Carmen pode ter eliminado o primeiro empecilho e conseguido seu emprego fixo, mas ela não contava com a ira da empreguete mais católica de Beverly Hills, que se matou de ciúmes de um homem que nem era dela, gerando o primeiro racha de empreguetes com motivos plausíveis de ambos os lados. A briga entre Marisol e Rosie, na temporada passada, era motivada pela mentira contada pela primeira para preservar a própria identidade, e era óbvio que ia terminar com as duas fazendo as pazes e Rosie ajudando a amiga na investigação. Já na briga atual, não é tão simples tomar partido ou tentar adivinhar quem vai ceder.
Confesso, sou #TeamCarmen nessa briga. A mulher precisava de um emprego e não tinha o menor interesse no patrão. Até acho que o sentimento de Rosie é compreensível, mas ela se equivocou muito na abordagem ao praticamente chamar a amiga de vagabunda durante a conversa. Thiago Lourenço é #TeamRosie, só para deixar claro que realmente não há como definir um lado certo e um errado nessa história.
É claro que essa briga não duraria muito tempo, e foi bom ver as duas amigas se acertando – Carmen depois de um toque de Marisol e Zoila, e Rosie guiada por seu novo patrão – e ainda terminando tudo em uma divertidíssima cena em que ambas ajeitam o decote uma da outra, cada uma à sua maneira, claro.
Falando no novo patrão de Rosie, a empreguete ilegal foi a personagem cuja história mais progrediu no episódio, inclusive em aspectos um pouco difíceis de aceitar. Como aquele velho caído conseguiu ficar tão ativo, digitando, sorrindo e mostrando sinais de extremo bom humor e safadeza apenas no intervalo de tempo entre o episódio anterior e este? Pensemos bem, não deu tempo de Carmen conseguir um novo emprego, mas deu tempo de o personagem se recuperar absurdamente. Os resultados de uma fisioterapia, principalmente em casos graves como o de uma sequela de derrame, podem levar meses! Como isso é possível? Meu medo é de que essa melhora milagrosa tenha sido uma conveniência do roteiro: Devious Maids precisava que o velho estivesse naquele estado para que esse episódio funcionasse, e assim foi feito. Mas poderemos avaliar melhor essa questão e até aceitar essa aceleração dos fatos se, ao longo da temporada, percebermos que há muita história para contar e pouco tempo para desenvolver essa trama.
Outro fato curioso: nem Didi e nem Lucinda apareceram, mas o sobrinho, sim. Aparentemente, a série só tem orçamento para um personagem de cada vez dessa família, o que soa meio estranho, mas é um problema que o roteiro tem conseguido contornar. Imagino que a próxima bola da vez seja Lucinda, o que me deixa ansioso, já que precisamos de alguns podres dessa mulher para que a trama continue interessante – e para que tudo caminhe em direção a Rosie tornando-se herdeira do patrão e alvo das duas mulheres da família.
Zoila e Genevieve, a meu ver a melhor relação de Devious Maids, foram duas que também conseguiram se destacar bastante no episódio. Se, por um lado, dava para enxergar a anos-luz de distância o fato de que aquele entregador era um garoto de programa contratado por Genevieve, por outro o marido de Zoila acabou sambando na nossa cara ao sair da posição de aparente melhor marido do mundo para a posição “mas homem é tudo igual mesmo!”. E isso só fez valer ainda mais a pena a sequência em que Zoila interrompe a bronca no michê para lhe tascar um beijão quando o marido se aproximava. Impagável! Ou melhor, pagável. E, com um preço de US$ 1.000, por que não aproveitar?
Quem também usou bastante de manipulação e enganação foi nossa maravilhosa Evelyn Powell. O plano de transformar o marido paranoico em um aparente maluco que vê e ouve coisas para que ela pudesse ficar sozinha com Tony (que tem muito mais cara de michê do que o michê de Zoila, vale dizer) foi simplesmente genial! Esse núcleo está funcionando muito bem como alívio cômico, ao menos até que as reais intenções do segurança venham à tona. Ao mesmo tempo, há uma leve sensação de que os Powell seguem meio avulsos na série, e, por mais que eu adore esse núcleo, acho complicado sustentar sua presença ali baseada apenas em carisma. Espero que eles tenham um papel relevante na temporada.
Relevante, aliás, é uma palavra que passa bem longe de Valentina e seu pool boy. A jovem empreguete simplesmente não consegue ser interessante, não consegue fazer por merecer nossa atenção. E, por mais que ela não apareça tanto, certamente aparece bem mais do que eu gostaria. Sugestão para Marc Cherry: trocar Valentina por Odessa (que também é uma empreguete, afinal) nesse elenco fixo. Seria um ganho sem tamanho! E o fato de Odessa não ter aparecido nesse episódio me preocupa um pouco, já que, sem Alejandro na jogada, a russa simplesmente não tem mais lugar na série. Só consigo torcer para que Odessa também arranje um emprego ligado a uma de nossas protagonistas. Por enquanto, chega de Valentina, que certamente teremos uma overdose dessa chatilda no episódio que vem, com o retorno de Remi.
Resta-nos, então, falar um pouco sobre Mariboring, que até que estava menos boring nesta semana. Mas pode ser apenas meu bom humor por rever Brianna Brown como a fofíssima Mrs. Taylor, que passou de patroa para BFF de Marisol. A personagem é tão adorável que é completamente compreensível que tenha recebido algum tempo de tela para nos despedirmos antes de ela se retirar de vez de Beverly Hills. Entendo a decisão de tirá-la de cena, apesar de eu não achar nem um pouco ruim a ideia de ver mais momentos dessas duas amigas fofocando no futuro. Principalmente depois do conselho de Taylor digno de levar para a vida: é muito mais fácil confiar em um homem que não confia em você. #ficadica
Quanto ao grande mistério da temporada, fica cada vez mais difícil acreditar em algo bombástico como a revelação do season finale. Certamente, a paternidade do pool boy não terá nada a ver com o assunto, não só pelos clichês envolvidos como também por ter sido trazida à tona cedo demais. Agora, precisamos tirar o chapéu para a interpretação de Joanna Adler na cena em que Opal mente descaradamente para a protagonista. Ao mesmo tempo em que há um ar de sinceridade legítima que não torna absurdo o fato de Marisol ter comprado a história da empregada, há também certa falsidade no olhar de Opal, direcionada especificamente a nós, para que percebamos que há uma mentira envolvida ali.
Curiosamente, acho que pode haver outra explicação para os US$ 5 milhões deixados por Nicholas para o garoto. Se o personagem tiver, por exemplo, assassinado a ex-mulher naquele flashback inicial, Opal sabe de tudo e tem Nicholas nas mãos desde então. Extorsão pura e simples. E uma extorsão que pode também não ter relação direta com a questão de Dahlia, e sim com qualquer outro podre de Nicholas ainda a ser revelado. De qualquer forma, bondade e altruísmo claramente passam longe do noivo de Marisol, e mal posso esperar para chegar ao fundo disso.
Mas enquanto isso não acontece, nada melhor do que rechear a temporada com episódios divertidos e despretensiosos como Crimes of the Heart. Sigo satisfeitíssimo com a série e muito animado pela garantia de que nossos próximos dois meses serão marcados por deliciosos 42 minutos semanais de puro entretenimento latino.
*Este texto é o produto de uma conversa entre os reviewers Thiago Lourenço e Luiz Gustavo Cristino, e assim serão as reviews de Devious Maids daqui em diante. Porque a gente não é Avon, mas a gente conversa, a gente se entende. O resultado é esse aí.














