De volta da Caverna do Dragão.
Quem era criança no início da década de 1990 certamente conhece a referência acima de cabo a rabo. Resumidamente, o desenho, inspirado em um dos maiores RPGs de todos os tempos, mostra a jornada de um grupo de jovens que tentavam voltar para casa depois de ter parado numa dimensão paralela. Cancelada pela CBS após três temporadas, a série nunca teve final, e roteiros paralelos falsos circularam por anos e anos pela internet. Em um deles, o Mestre dos Magos, guia do grupo, era na verdade um diabão que queria deixar suas almas vagando para sempre, enquanto o demônio Tiamat seria um anjo tentando salvá-los. Tudo mentira, claro, pois nada disso faria sentido diante dos 27 episódios que de fato foram ao ar.
Mas o que isso tem a ver com Revenge, afinal? Simples. Eu já havia comentado aqui que não conseguia compreender por que Emily subestimava Conrad, o verdadeiro vilão da série, deixando-o tão livre para aprontar o que bem entendesse por três temporadas. Para ela, a diabona era sempre Vicky, a vilã era sempre Vicky, a traiçoeira era sempre Vicky. Tudo bem que nossa rainha está longe de ser flor que se cheire, mas a verdade é que Emily parecia estar presa num desses roteiros falsos de Caverna do Dragão, enxergando demônios no lugar de anjos e vice-versa, enquanto nós acompanhávamos toda a situação real assistindo nossa vingadora dando passos falsos atrás de passos falsos, sempre atrás de uma suposta vilã que fez tudo o que fez totalmente contrariada e, ao contrário de Conrad, já chegou até a se arrepender do golpe contra David Clarke. Emily precisava acordar e voltar para o mundo real, e foi exatamente essa a função de Revolution na trama principal da série.
Ao contrário de Vicky (que, em situações extremas, também é capaz de matar, não esqueci), Conrad não precisa de muito para tirar uma vida ou mandar alguém fazê-lo. Basta que uma pessoa fique entre Conrad e seus objetivos e, zás, um tiro, uma facada, uma ordem de execução, ou até um originalíssimo, sangrento e (por que não dizer?) levemente hilário empurrão na hélice do helicóptero pode acontecer a sangue frio. Desta vez, porém, Emily viu tudo, e, espero, compreendeu onde está seu principal inimigo, aquele que já a teria tirado de circulação caso desconfiasse de suas intenções como Vicky desconfia. Emily enxergou Conrad como o grande vilão de Revenge a partir do momento em que o viu executar Pascal com tanta naturalidade e cara de pau e ainda sair ileso de um empurrão daqueles porque “o piloto confirmou a história” (caramba, quem garante que o piloto não foi cúmplice? Tem que ver isso ae, pelo menos, né, polícia?). Assim, fica a expectativa de que ela tenha percebido o leve problema de foco que vem acompanhando todo o plano de vingança nos últimos três anos.
Curiosamente, em termos de posição no enigmático jogo de xadrez de Revenge, Revolution também aproximou Vicky do time de Emily no tabuleiro, dando-lhe mais munição para odiar Conrad (que não consegue deixar vivo um único amor da ex-mulher, não vou me surpreender se aquele pintor aleatório da primeira temporada tiver virado presunto!) e mais um gigantesco motivo para compartilhar com a protagonista a vontade de destruí-lo. Pela segunda vez, Conrad destrói o futuro e a felicidade de Vicky com outro homem, sempre tirando a vida dele no fim. Se isso não é razão para uma união revengística, não sei o que é!
Revolution também me levou a uma conclusão: a partir de agora, e se só passassem a existir Daniel e Vicky no mundo, nossa rainha poderia ser canonizada e ir direto para o céu na comparação! Bananiel é oficialmente Vilaniel, cúmplice e mentor do assassinato do pai de Margô com o único objetivo de assumir o controle sobre os negócios da francesa. Aliás, garrei amor em Margô, gente! Estou morrendo de dó dela e quero muito vê-la dando a volta por cima, acabando com Daniel e se tornando rica, poderosa, vitaminada e dona de um império em sociedade com Nolan Ross no fim da série (e talvez vivendo um relacionamento triplo com Javier, só pra chocar a sociedade)!
Para a nossa infelicidade, Charlotte saiu do buraco da irrelevância no qual havia sido enterrada e passou, do nada, a receber cartas de David Clarke (WTF???). Para que Jack também tivesse alguma serventia, os dois decidiram brincar de detetives e, claro, como tudo o que vem de Charlotte e de Jack, a história não deu em nada. Ou quase nada, porque, só Jack – que fez a Christiane Torloni em América e surrupiou sorrateiramente uma joia – sabe, mas havia um anel com as iniciais “D.C.” na cabine onde foram escritas as cartas com a mesma letra de mão de papai Clarke. Mas, espera, o capanga mal encarado sabe também, e, por mais que eu saiba que esse provavelmente será o arco bombástico do season finale, todo o sono intrínseco a qualquer trama que envolve Charlotte e/ou Jack me domina só de lembrar dessa história.
Mas, falando em sono, esse arco me leva ao sonho que arrasto desde a primeira temporada: David Clarke vivo, apesar dos pesares. Para o bem e para o mal, o clichê de David aparecendo vivo daria uma necessária sacudida na série e no universo de Emily e Victoria. E, por mais que ele não precise pesquisar sobre si mesmo, nunca se sabe se o tal Kurt Renner, dono da cabine e das supostas cartas, é um comparsa do pai de Emily. Também não sabemos que tipo de informações úteis aquele material fornecia sobre o caso David Clarke e sobre como ele foi retratado pela imprensa – não necessariamente sobre quem é David ou sobre sua culpa, essas, sim, informações que David jamais precisaria pesquisar. Ok, não estou conseguindo convencer nem a mim mesmo. Ah, querem saber? Me deixem sonhar feliz, e até a próxima!
Observações:
– Como acreditar que um cara que começou a temporada como governador eleito de NY consegue fazer tanta coisa sem ser visto? Conrad ficaria bilionário só dando aulas de como despistar paparazzi para celebridades!
– O teletransporte certamente está entre os ninjutsus ensinados por Takeda. Pelas escadas e depois de ter errado o andar, Emily chegou ao heliporto menos de 30 segundos depois de Conrad e Pascal, que foram de elevador (no qual haviam entrado bem antes de ela começar a subir).
– “Mexi nos dados de todo mundo da festa e hackeei o programa”, diz Nolan com toda a simplicidade do mundo, em uma das frases menos verossímeis já proferidas por nosso nerd bilionário. Garantir que qualquer pessoa ali seria brutalmente insultada é ainda mais difícil do que criar um clone virtual que responde tudo certo, mas este último caso pelo menos envolveu anos de trabalho de Javier.
– Um sonho impossível: Charlotte morta. Já pode ficar frustrado porque não vai acontecer? Poxa vida, como que esse povo me termina um episódio com uma cena tão esperançosa?















