Da boca de Sally saíram palavras que Don não ouvia faz tempo.

É impossível imaginar Mad Men sem Sally. Também é difícil lembrar rapidamente de outro drama onde um personagem infantil evoluiu tanto e se fez tão necessário para a narrativa (talvez A.J. e Meadow em The Sopranos). A relação entre Don e Sally diz um tanto sobre a série, e nos diálogos entre os dois nesse episódio, vimos o amadurecimento da filha, como ela começa a lembrar Betty em alguns momentos e como isso parece perturbar Don. A profundidade de ambos personagens transforma sua relação em algo incrível de se presenciar. Seu relacionamento foi construído entre mentiras e ausências, mas apesar de tudo isso, existe amor. Don ama sua filha, mas o que soa estranho ao espectador “moderno” é ver a diferença no tratamento de uma criança naquela época, poucas demonstrações de afeto, pouca intimidade. O pai ensina e inspira o filho. A mãe toma conta da filha. Isso também acaba transformando a relação entre Don e Sally em algo um pouco desconfortável, que poucas vezes soa prazeroso para qualquer um dos dois, e é por isso que quando um “Happy Valentine’s Day, I love you” acontece, ficamos todos boquiabertos, Don, eu e você.

Don fora de seu habitat natural ainda consegue mostrar como um workaholic é capaz de se sentir deslocado ao tentar fazer qualquer outra coisa. A primeira sequência do episódio mostra um Don entediado, sujo, amargo, que desperta o alarme às 7:30 por questão de hábito, mas só acorda depois do meio dia. Que come do pacote, que precisa se policiar na bebida, que se arruma apenas para receber sua secretária com informações do lugar onde já não mais é bem quisto. Don vive assim porque Megan já não faz parte de seu dia a dia, mas se está (mais) infeliz (que o normal) não é por sentir falta da esposa, mas sim, da agência.

Ah, a agência. Mad Men nunca foi uma série especificamente sobre publicidade, mas utiliza a profissão para exemplificar as mudanças sociais que ocorreram durante seus seis anos de exibição. Além de apresentar essas mudanças em suas campanhas e clientes, também trata de exemplificar avanços na configuração da sociedade através das posições dentro da própria empresa. Em A Day’s Work mais passos importantes são dados e analisar as dinâmicas de trabalho podem ajudar a entender o contexto de uma época de evoluções e revoluções. As secretárias negras, Dawn e Shirley já conquistaram seu espaço, mas isso não significa que todos sentem-se confortáveis ao seu redor, Cooper, o indiferente Lou Avery, uma outra secretária que aparece na sequência onde as duas conversam na cozinha: pequenas expressões e opiniões que ainda carregam preconceito, ou medo da aceitação do espaço dos negros e das mulheres, em uma sociedade anteriormente dominada pelo homem branco. Joan e Peggy também são representantes dessa evolução, suas batalhas pela busca de espaço no mercado de trabalho não são menos dignas por serem brancas, mas foram mais fáceis.

O episódio ainda divide seu foco entre Don e Peggy, e a segunda também se vê perdida ao tentar lidar com situações que fogem de sua alta capacidade como redatora. Peggy sempre foi um fracasso no amor, e isso significa que datas como Valentine’s Day são pesadas, tristes e carregadas de pensamentos e questionamentos. Mas a crise emocional de Peggy não se criou apenas nesse momento. No episódio passado já vimos a personagem com dificuldades de relacionamento com seu novo direto de criação (Lou Avery), e dificuldades com os vizinhos. Por que uma mulher precisava abrir mão de toda sua vida pessoal para ter sucesso profissional? É injusto, mas é a realidade. Isso acaba (mais ou menos) justificando a atitude amarga e mesquinha de Peggy ao saber que as flores eram destinadas a sua secretária.

Ambientada em duas cidades diferentes nessa temporada, Mad Men consegue expressar comportamentos de seus personagens apenas pelo lugar onde atualmente habitam. Megan, por exemplo, é uma artista, uma mulher independente e de espírito livre, nada mais justo que sua vida se passe em Los Angeles (quente e avermelhada pela direção de fotografia), nos exclusivos Hollywood Hills. Don, por outro lado, mais centrado, sério e conservador é a cara de New York (e sua escuridão, onde o que é iluminado é predominantemente cinza). Sua relutância em torno do assunto da mudança de cidade só mostra que algumas pessoas preferem o conforto do que já é conhecido aos desafios do novo. Don evoluiu, mas apenas o suficiente para acompanhar a sociedade.

Outras Observações:

A evolução dos figurinos e a diversificação de seus funcionários transformaram as agências de Mad Men em algo muito mais cool. Já é possível perceber uma intensão de transformar o local de trabalho em algo mais descolado e descontraído, da maneira como é hoje.

O episódio cita Ogilvy e McCann, duas agências importantes para a história da propaganda. É incrível quando a série estabelece conexões com o “mundo real”.

Como os personagens da agência “antiga” (Cooper, Sterling, Pete e Don) estão apagados e sendo superados profissionalmente pelos novos sócios. Sinto uma virada de poder em breve.

E por fim: saudades de Bob Benson.

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