Uma temporada e um season finale para serem celebrados.
Há certas regras no universo das séries. Quando um projeto entrega uma temporada de estreia ótima, o segundo ano acaba por sofrer da necessidade de alargar o universo básico do material, aumentando as possibilidades de perder o controle sobre a história que se pretende contar. Dessa forma, quando comecei a assistir o Chapter 14 de House of Cards, eu me encontrava dominado pelo temor de que a série se aventurasse por novos caminhos que viessem a minar sua qualidade, ao invés de ressaltá-la. Esse temor foi alimentado pela morte de Zoe, pela adição da Deep Web, de novos personagens e da instalação de diversos plots interdependentes. Doze capítulos depois, cheguei ao season finale, tive que admitir minha estupidez em meus medos e abraçar o fato de que essa foi uma temporada para ser celebrada.
O cenário político de House of Cards é debochador, passando a impressão de se encontrar em um limiar entre a realidade e a caricatura escancarada. Para mim, no entanto, essa é somente uma máscara que ela veste para não causar espantos no público. Em seu âmago e ao longo de sua execução, a série entrega um retrato fiel e cruel da política estadunidense, mas, mais que isso, usa a Casa Branca como um laboratório do cenário mundial. Prova disso é o fato de que, nos últimos treze capítulos, nós fomos apresentados não somente aos bastidores nacionais da política, mas também sua relação com a economia, com a sociedade e com as diversas instâncias que compõem um país, ou melhor, um Estado. Diante da teia delicada, complexa e perigosa que adentrou nesse ano, não é de se espantar que o roteiro tenha crescido e se destacado tanto. Beau Willimon não somente conseguiu trazer coerência para House of Cards, mas, principalmente, desafiá-la, sem ter medo de tirá-la do muro.
Frank Underwood é um indivíduo pragmático, implacável e egoísta, não se prendendo a limites morais e éticos para alcançar seus objetivos e manipulando a política de seu país de acordo com seus interesses. Aos olhos da moral ou da ética, ele seria um ser a ser rechaçado. Perante à pregação da separação entre a política e a moral, ele é um indivíduo a ser celebrado, cultivado e, se possível, copiado. Por entender essa separação e acreditar intensamente nela, Underwood construiu seu Modus Operandi com mentiras como seu substrato principal. E, se teve algo marcante em sua movimentação nesse Chapter 26, foi o fato de ele destilar mentiras continuamente, ao longo de quase todo o episódio. Começando pela entrevista em que diz “Eu sirvo a esse país e minha nação, não a mim mesmo”, passando pela carta sedutora que envia para Walker e atingindo o auge nos momentos em que Frank fala com Garrett de forma a encorajá-lo a lutar pelo seu cargo enquanto, para nós, se rosto não consegue esconder por completo sua expressão de escárnio.
Walker, aliás, assumiu a trajetória trágica da temporada. Com a saída de Lucas Goowin, Zoe Barnes e a fuga de Janine Skorsky, o véu trágico da temporada recaiu sobre o (agora) ex-Presidente. Este, um homem cujo sucesso político foi resultado do apoio e do apadrinhamento de outros indivíduos (alcançando níveis paternais com Tusk), que foi incapaz de perceber que a ambição palatável de seu (então) Vice-Presidente e se deixou adentrar e acreditar em uma amizade, a qual veio a ser sua destruição. Diante disso, o season finale transita sua visão sobre o personagem do deboche até a melancolia, em seu discurso de renúncia, durante o qual vimos ele citar a importância da amizade de Frank, evidenciando ainda mais sua cegueira sobre seus similares de gabinete.
Ao longo dos treze episódios, nós vimos a adição de vários novos personagens no universo que girava em torno de FU. Em certos momentos, a série parecia estar caminhando rumo a tramas independentes e que fugiam do cerne da história sendo contada. Estupidez minha subestimar a inteligência do texto a mim sendo apresentado. A relação entre Jackie Sharp e Remy Danton, mais que uma tridimensionalização das duas figuras, serviu de catalisador da derrocada de capital de poder de Danton e a concretização da personalidade calculista e quase blindada pela ambição de Sharp. A trama do projeto de lei de Claire, além de aproximá-la da Primeira-Dama, permitiu, principalmente, que ela pudesse agregar capacidades políticas para si e, diante de seu sacrifício, se provar como a única figura capaz de confrontar FU no mesmo patamar, uma vez que não titubeia quanto aos objetivos almejados.
Além disso, a trama de Doug Stamper e Racher Posner, que minguou em banho-maria por tanto tempo, entregou suas justificativas de existir no season finale. Mesmo conseguindo o assento principal na Ala Oeste da Casa Branca, não podemos ficar com um sentimento de total segurança em relação ao futuro de nosso protagonista. Rachel será a constante lembrança de que há uma ponta solta na teia construída por Underwood nos últimos dois anos, uma peça que pode derrubar todo o castelo de cartas levantado pelo (agora) Presidente, principalmente, devido ao conhecimento da relação entre Stamper e Posner por parte de Gavin. Este último fato agrega coerência ao roteiro, que impediu que a Deep Web fosse trazida somente como um mero instrumento para a queda de Lucas.
Essa também foi a temporada em que a série provou que não pretende ficar presa a fórmulas e personagens: depois de Zoe, Janine e Lucas, abriu-se mão de um de seus personagens principais – Doug. Além disso, foi o momento de House of Cards sair do muro e fazer críticas à política como um todo e aos Estados Unidos especificamente. Tivemos a questão do estupro no ambiente militar, a desconstrução do estereótipo dos hackers, dos cyber terroristas e da justiça estadunidense, que pune quem expõe suas imoralidades e mentiras. E, para não quebrar a lógica estabelecida, o season finale também teve sua parcela de críticas: a continuação da recusa de mostrar os desdobramentos das tensões militares entre China e EUA em prol da jogatina política de bastidores e a expatriação de Feng, que, mesmo certo de ser morto em seu país de origem, não recebe a misericórdia de Underwood, uma vez que ele não tinha mais utilidade no novo cenário.
Mas antes de dar meu adeus à temporada, eu tenho que ressaltar momentos maravilhosos desse episódio. Walker falando que Frank trará virtude para a Casa Branca; conversa entre o último e Tusk no corredor da ópera, que foi, talvez, o diálogo mais belo e mais bem escrito da série até o momento. O susto dos dois ao imaginarem que alguém estava ouvindo a conversa deles, afinal tudo ali são bastidores, coisas que devem ser mantidas sob o véu de mentiras e esconderijos. A conversa entre FU e Michael Kern: indireta, apesar de assustadoramente explícita. O momento em que Tusk abraça seus sentimentos de traição, raiva e mágoa e denuncia Walker. O choro de Claire: curto, contido, mas intenso. E, claro, aqueles dois toques na mesa do Presidente que FU deu no último segundo do episódio (não nego que gerou arrepios no corpo e me fez vibrar de empolgação).
O que nos resta agora é esperar pelo terceiro (e provável último) ano da série. Depois de alargar suas bases e suas fronteiras narrativas ao máximo, o que falta a House of Cards é mostrar a derrocada de Francis Underwood e eu torço por isso. Afinal, não haveria maior rima narrativa que alguém ambicioso, implacável, imoral e cruel na vida de FU para que ele sofra do próprio veneno que ele personificou um dia. E aqui acaba nossa cobertura da segunda temporada de House of Cards. Até ano que vem.














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