Quando duas pessoas estão prestes a brigar, por que não mais uma taça de vinho?
É inegável que House of Cards seja uma série que mostra como um congressista consegue manipular a política nacional como quer. Esse aspecto já pode ser visto desde o primeiro minuto do piloto, e Beau Willimon faz questão de manter essa atmosfera durante toda a sua história. No entanto, cada vez mais vemos que Frank Underwood não trabalha sozinho, e sua odisseia em direção ao topo da política americana só existe por conta de seu intenso apoio. Este vigésimo capítulo da série trata precisamente disso, em todos os seus aspectos.
Escrito por Bill Kennedy e dirigido por James Foley, o episódio trata de uma tensão devido a um vídeo publicado pelos republicanos através de grande financiamento. Frank logo descobre o envolvimento de Tusk no processo, e envia Doug para que esse problema seja resolvido, seja com Daniel Lanagin, aliado de Tusk, ou com Xander Fang. Enquanto isso, um jantar entre a família Underwood e a Walker é arquitetado mesmo com os atritos entre presidente e vice. Nele, Frank e Claire dão um empurrão mais forte em direção a uma crise envolvendo o primeiro casal da América.
Tudo neste episódio procura mostrar ao espectador que Frank, apesar de genial em suas armações, raramente se envolve diretamente com seus planos, preferindo utilizar outras pessoas para executar seus pensamentos. Seu novo hobby de remontar o cenário da guerra civil, no qual seu antepassado viveu, revela exatamente esse espírito manipulador do personagem. Assim, não é por acaso que no único momento em que seus planos fracassam, é no cenário em miniatura que sua raiva é descontada. Aliás, é extremamente saudável vê-lo falhando algumas vezes, tornando o personagem crível, especialmente quando os verdadeiros avanços são oriundos das ações de Claire e Doug.
Esta primeira tem um papel fundamental no principal plano de Frank, de desestabilizar a presidência dos Estados Unidos através de uma crise familiar. É interessante como House of Cards investe no trabalho em equipe, em que tanto Frank quanto Claire sentem que a semente plantada há algum tempo, envolvendo Christina, começa a surtir efeito. Nesse ponto, é fácil provocar uma enorme briga através de algumas doses extras de álcool, coisa que Claire percebe rapidamente. Essa trama ainda parece um pouco desnorteada, mas certamente veremos um desfecho satisfatório para ela muito em breve.
Do outro lado, está Doug. Esse arco está em uma fase muito mais quente do que o anterior, e por isso é natural que seu destaque seja muito maior. Aqui, o único diálogo de Frank com o espectador se torna importantíssimo, revelando um sentimento de ódio consigo mesmo, por não ter percebido a armadilha em que estava entrando (o que também se reflete em sua sensação de impotência após o diálogo com Lanagin). Essa rivalidade entre ele e Tusk tem evidenciado uma série de falhas humanas em Frank, o que tende a trazer benefícios por transformar o empresário em uma real ameaça, coisa que outros personagens jamais chegam a ser.
No entanto, alguns problemas precisam ser ressaltados. Todos eles se concentram na participação de Doug. Por ser um personagem utilizado como mero apoio, qualquer trama centrada nele é obrigada a conviver com a sombra de Frank, criando um inevitável sentimento de desconfiança e estranheza no espectador. Assim, quando o vemos não se divertir em uma noite de sexo com Tammy, a garçonete do cassino, ou rejeitar duas garotas chinesas por não conseguir parar de pensar em Rachel, não conseguimos sentir empatia por ele, tornando todo esse arco desnecessário, tomando tempo de tela de algo que poderia agregar mais às tramas de real importância.
Mas esse é o único aspecto em que House of Cards não é bem-sucedida. Mesmo as tramas que servem apenas como suporte aos interesses de Frank conseguem se sair bem. Aliás, aqui vemos nascer mais um pupilo do vice-presidente, que surge na pele de Seth Grayson. Sua natureza dúbia o torna um personagem naturalmente intrigante, o mostrando ora diante de Remy Danton negociando pela cabeça de Frank, ora revelando a este ter sido contratado pelo lobista, e afirmando ter interesses que vão muito além de dinheiro. Assim, a série faz questão de jamais revelar ao espectador quais são as verdadeiras intenções dele, ainda que dê a entender ser mais um do lado de Underwood. Aliás, a forma com a qual ele afirma ser uma honra trabalhar para um homem como Frank contrasta de modo sublime com o diálogo em que Lanagin rejeita oferta semelhante.
Se Grayson se revela como mais um candidato a Zoe Barnes, Jackie Sharp começa a ter o mesmo destino da falecida jornalista. É interessante como grande parte dos aliados de Frank parecem querer usá-lo da mesma forma que ele costuma fazer, e a nova líder dos democratas se revela uma boa aprendiz ao segurar uma lei protegida pelo vice-presidente para atender a seus próprios interesses. Dessa forma, House of Cards cria uma série de “miniaturas” de Frank Underwood que podem atrapalhá-lo a qualquer momento a bel prazer, o que gera uma estrutura interessantíssima para futuras tramas, bem como as atuais.
Além disso, o episódio dá um grande destaque a Freddy e sua churrascaria, revelando o quanto a lealdade a Frank pode trazer bons frutos. É curioso como o relacionamento do vice-presidente com o cozinheiro é um de seus mais longevos e certamente o mais sincero. Por esse motivo, ele consegue diversas coisas que outras pessoas não conseguiriam sendo simplesmente bajuladoras, de forma semelhante ao que aconteceu com Meechum há alguns episódios. Exatamente por isso, sua trama atrai a simpatia do espectador de forma muito mais certeira do que o arco envolvendo Doug.
Dessa forma, House of Cards continua com uma temporada extremamente bem construída e coesa, consolidando-se como uma das séries de melhor roteiro da atualidade.














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