Vindo com força após a vitória de um Emmy Internacional pelo papel de dona Picucha, Fernanda Montenegro tem em mãos o papel mais saboroso desde Bia Falcão. Em Doce de Mãe, entretanto, Fernandona se livra do glamour e faz uma “senhorinha” imponente, uma doce mãe e doce vovó.
Claro que dona Picucha não é a típica vovó. A cena dela com filhos e netos olhando futebol e se derretendo para jogadores bonitos é extremamente simbólica, ressaltando a jovialidade da personagem (e vale ressaltar que Picucha estava de camisa vermelha e branca. Sinto muito, amigos tricolores, mas esta senhora deve ser colorada!). Mas ainda assim, Picucha é uma senhora de mais de oitenta anos, e não viu problemas em assinar uma procuração para um advogado argentino que foi visitá-la em casa e de noite falando de um terreno do “falecido” que ela desconhecia. Ela assinou, ofereceu vinho e ainda contou alegre para os filhos, que, apavorados, fizeram o contrapeso à inocência e boa fé de Picucha.
Os quatro irmãos têm um inegável afeto entre si, que fica claro até em cenas de discussão. Louise Cardoso tem um fenomenal timing cômico, Marco Ricca domina bem o papel de único filho homem hétero, Mariana Lima mantém sua trajetória de dar características profundas até ao personagem mais simples e Matheus Nachtergaele continua deliciosamente camaleônico. O excelente entrosamento entre os quatro se ressalta especialmente na cena que eles vão até o terreno herdado na cidade fictícia de Pinhais e encontram os cataventos de um parque eólico (que fica em Osório, no litoral norte. Será que eles compraram mariola no Maquiné? Será que eles procuraram a misteriosa placa “Madruga” – que muitos diziam ser o nosso letreiro de Hollywood – entre o denso matagal que se alastra no morro?).
A grande novidade ficou por conta de Drica Moraes, em seu primeiro grande e bom papel desde sua volta à televisão após um período de ausência para tratamento de uma leucemia. Rosalinda é um personagem que ainda não foi suficientemente apresentado, mas deixou clara sua natureza incrivelmente humana. Morando longe do hospital e demorando uma hora para chegar ao trabalho (será que ela é de Gravataí? Canoas, Cachoeirinha, Alvorada, Viamão, Guaíba? Pega o pinga-pinga e desce no Camelódromo? Talvez não tenha dinheiro para pegar os semi-diretos diariamente e chegar mais rápido!).
A atuação de Fernanda Montenegro, espetacular (ÓBVIO, NÉ?), tinha um toque tão maternal quanto a personagem. Explico: quando contracenava com atores que faziam filhos, netos ou com a provável filha do falecido, Fernanda faz de tudo para não roubar a cena, e sim baixar a bola para deixar os outros brilharem. Por isso, há um equilíbrio de talentos invejável na televisão brasileira atualmente, na qual um ou outro se destaca entre um grande elenco (cof cof Mateus Solano cof Elizabeth Savalla cof cof).
Quem acabou sobrando um pouco foi Daniel de Oliveira, que, apesar de estar muito bem no papel, não tem uma função definida além de endossar o caráter excêntrico de Picucha. Já não me parecia absolutamente necessário no telefilme, e continua não parecendo. Espero que mude.
A grande diferença entre o telefilme para a série, num primeiro momento, é que, além das relações familiares e da pergunta-chave “o que fazer com idosos”, abordou-se histórias mais amplas e extremamente promissoras, envolvendo procurações, filhos bastardos, um asilo calmo demais e o homem lindo que é o Cristiano Ronaldo. Nas características de Picucha e dos familiares, percebe-se, mesmo que disfarçado, características gaúchas – mais precisamente, portoalegrenses. O espírito provinciano dos personagens, o ar provinciano dos cenários, tudo remete à “pequena cidade grande” de Mario Quintana. É comum essa característica provinciana em produções televisivas ambientadas fora do eixo sociocultural Rio – São Paulo, fazendo com que nós gaúchos comecemos a apontar o dedo de vez em quando para a televisão e dizer “olha lá, a sala do Marco Ricca tem vista para os hotéis na frente da rodoviária”. Empurrando a realidade para a ficção, nos deleitamos ainda mais com Doce de Mãe. Não há bem como explicar, mas há como sentir isso.
Falando em não saber explicar sentimentos, vale lembrar que a Casa de Cinema de Porto Alegre tem uma característica muito marcante em seus trabalhos. Não sei dizer direito o que é essa característica, mas é sempre fácil assistir a um filme ou a algum programa e dizer: aí tem dedo do Jorge Furtado. Com Doce de Mãe não foi diferente: o telefilme teve esse je ne sais quoi, e o primeiro episódio da série também. Pretendo decifrar ao menos um pouco dessa característica, e conto com a ajuda de vocês leitores.
No final, é perceptível que esse primeiro episódio de Doce de Mãe como série pouco se diferenciou do estilo e da história do telefilme. Entretanto, temos pela frente mais treze episódios, nos quais muita história pode acontecer. E, claro, mais treze quintas-feiras com dona Picucha, a fenomenal Fernandona. Em termos hollywoodianos, Academy Award-nominated and Emmy-winner Fernanda Montenegro. Aproveitemos, então.
P.S.: Filosofia de Picucha: “Tristeza é bom pra fazer samba”. Tudo vira alegria no final para esse doce de mãe.













