Às vezes me pergunto se The Mentalist não poderia ter sido sempre assim.

É inegável que existam duas The Mentalist. A primeira, com duração de cinco temporadas, é um procedural policial cujo protagonista procura vingança contra o serial killer que matou sua família. A segunda, que estreia agora, mostra um Patrick Jane buscando furiosamente seu maior inimigo e se aproximando cada vez mais. É evidente que a série não existe sem Red John, ou pelo menos sem as consequências que sua existência provoca. E talvez por isso Bruno Heller tenha criado propostas tão distintas para sua criação em seus diferentes momentos. De toda forma, é prazeroso que The Mentalist atinja seu pico na temporada com este excelente Fire and Brimstone.

Escrito por Ken Woodruff, o episódio narra uma tentativa definitiva de Jane de descobrir quem é Red John. Para isso, convence todos os suspeitos ainda vivos de sua lista a se encontrar com ele na residência onde sua família morou, em Malibu. Até mesmo Bret Stiles, refugiado em uma embaixada do Equador, onde não pode ser encontrado pelo FBI, o que rende uma grande fuga arquitetada pelo próprio Jane, que engana a agência para que tenha todos os seus suspeitos reunidos.

O aspecto em que Fire and Brimstone se sai melhor é na atmosfera criada pelo episódio. Outrora leve e divertida, The Mentalist aqui é sombria e urgente, ratificada por diálogos alarmados e uma enorme correria para que um plano improvisado dê certo. O que mostra os talentos de John F. Showalter, competente ao jamais permitir que o episódio perca essa ambientação, conferindo importância a toda a trama, alterando bastante o que a série costuma mostrar, mesmo no início deste sexto ano, já muito diferente dos demais no que diz respeito ao desenvolvimento de tramas e personagens.

Aliás, por falar neles, um dos poucos defeitos do episódio é o como trabalha seus personagens. É verdade que, a essa altura, pouco importa o que acontece com Cho, Rigsby e Van Pelt, mas praticamente abandonar o primeiro durante toda a história soa como falta de cuidado da parte de Woodruff, já que, mesmo coadjuvantes, são personagens carregados pelos últimos anos e esse “esquecimento” causa grande estranheza no espectador. Se isso valesse para todos os personagens a situação seria menos incômoda, mas Van Pelt ganha destaque muito maior que os outros ao ter uma importante cena com Stiles na embaixada.

Um outro problema que Fire and Brimstone carrega é o fato de ainda trazer certas inconsistências com alguns suspeitos. Embora aqui isso ocorra de forma menos escancarada, ainda há pontos em que a série peca. Por exemplo, note como o episódio se esforça para que todos os suspeitos chamem Jane de “Patrick”, da mesma forma que Red John fez em todos os diálogos que teve com o consultor. No entanto, alguns deles, como Bertram, se referem a ele por “Jane” desde o princípio, se tornando conveniente essa repentina mudança apenas para reforçar o fato de que ele é suspeito de ser um serial killer.

Mas os defeitos param por aí. Todo o desenvolvimento da trama que leva ao encontro em Malibu é bem estruturado. A começar pelo flashforward ainda nos primeiros minutos. É um recurso batidíssimo em séries de televisão, mas aqui ele existe com um propósito diferente de gerar expectativa, ainda que o faça inicialmente. Ao cortar a cena pouco antes de uma pessoa – possivelmente Red John – abrir a porta, o episódio insinua de que ali aconteceria uma grande revelação. No entanto, não engana o espectador sustentando essa tese até o momento final, aos poucos dando a entender que aquele momento apenas iniciaria o encontro entre os suspeitos. Dessa forma, a cena inicial tem como efeito principal dar o pontapé inicial na atmosfera tensa criada pelo episódio.

Da mesma forma, Woodruff conduz a narrativa de maneira diferenciada, não precisando de um caso da semana para se apoiar e se saindo bem com essa investida. Especialmente ao mostrar cada suspeito sendo convidado para o encontro, em que Jane e Lisbon utilizam argumentos diferentes, o que impede que Fire and Brimstone se torne repetitivo, ainda que seja consideravelmente óbvio que todos eles estarão em Malibu ao final dele.

Mas o que o episódio faz melhor é trabalhar a relação entre Jane e Lisbon e estabelecer o desejo de vingança do primeiro. Ao criar uma bela ironia dramática logo no início, quando sabemos que ele abandonará a amiga no momento crucial, o espectador cria uma expectativa sobre quando isso acontecerá. E a cena em que Jane a abandona, após um raro momento de gratidão, se revela cruel, mostrando que ele na verdade não gostaria de ter que deixar Lisbon sozinha, mas não vê outra alternativa diante da insistência dela em vê-lo praticando uma atividade obviamente ilegal.

É a partir disso que Fire and Brimstone cria seus melhores momentos. O primeiro deles acontece quando Jane ainda está sozinho na casa. Ali, procurando forças para finalmente realizar sua vingança, entra no quarto em que encontrara sua mulher e filha mortas, anos atrás, em um doloroso reencontro com o passado. A partir daí, Jane se mostra decidido, após ser relembrado pela dor. Um “empurrão” obviamente necessário quando se está prestes a se cometer um crime hediondo.

O outro é o diálogo entre Jane, Stiles, Smith, McAllister, Bertram e Haffner. Em um raro momento de honestidade com alguém que não seja Lisbon, o consultor, impulsionado pelo que menciono acima, não se furta a apontar uma arma para todos eles – incluindo seu chefe – para obter as respostas que deseja. Ali, a tatuagem revelada em The Red Tattoo se mostra ineficaz para identificar Red John, exatamente como imaginei. No entanto, dá ligação definitiva entre a organização que assassinou Kirkland e o serial killer, que muito provavelmente é seu líder. O curioso é que apenas Stiles e Haffner não tem a tatuagem, deixando os dois se tornarem favoritos para o “papel”. Ou Partridge, ainda que seja uma solução bastante imbecil.

Assim chegamos ao cliffhanger, envolvendo tanto o tiro quanto a explosão. É verdade que esse desfecho é mais chocante do que efetivo, mas é competente em gerar expectativa, já que cria um acontecimento inesperado e relevante, ainda que ligeiramente desesperado.

O que torna Fire and Brimstone um momento importantíssimo na história de The Mentalist, e o ponto mais alto desta sexta temporada, que está a toda.

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