Uma pessoa normal.
Sem calças, sem família, sem dinheiro, e, agora, nada. Até onde situações baixas podem ir? Bem baixo, parece. E chega a ser engraçado como em um episódio no qual todos os seus planos de Vamos-Diminuir-a-Desgraça funcionam, Walter White nunca esteve mais apático. O ímpeto de Heisenberg se foi, e o bravado caiu. Mãos calejadas – da dor alheia, claro, e do trabalho. Mas não vamos nos esquecer de finas. As mãos finas de um artista de mão cheia. De hilário isso não tem nada.
Afinal, se tem uma coisa que o episódio simboliza é a arte que Walter sentia no seu trabalho. O único ponto não-ambíguo de uma série sempre tão interpretável foi a qualidade do produto. Ninguém cria algo tão bom sem amar o que faz. Ninguém ama sem arte.
Todo mundo tem sua Felina. Quase ninguém morre aos braços dela.
A música que dá título ao episódio é fantástica, e dá para se traçar uns mil paralelos e cruzados com a série a partir dela. Mas é a ideia de uma Felina que fica. Esse objeto alcançável de desejo, e depois de destruição. O que só existe caso venha acompanhado de uma grande mentira. Lógico. Você só pode amar algo tão viciante e danoso à medida que você mente para si mesmo. “Felina” desmantela cada uma dessas mentiras, passo por passo. Como se uma doença (literal e figurativa) estivesse finalmente saindo da mente de Walter, e deixando só os farelos.
Não de sua inteligência, claro. De todos, o plano para lavar dinheiro através de Gretchen e Elliot é a minha sacada favorita. É tão esperto. É tão simples. Foda até pra quem odeia coisinhas fechadas, com todas as pontas amarradas, como a situação dele com os ex-amigos. Encaixou-se perfeitamente. Aliás, tudo nesse episódio se encaixa, não? Os destroços emocionais são plenos. Nada se “resolve”, nada “fica bem”. Mas Walter alcança o objetivo em tudo que tenta fazer. Chega a ser incrível – e meio previsível – como esse series finale é uma sucessão de: Walter pensando em um plano > Plano sendo executado > Plano sucedendo > Walter confirmando que tudo deu certo, e garantindo duas vezes, assim, só pra não ter dúvida, né?
Muitas vezes, inclusive, não vemos nem a parte da elaboração do plano. É como se ele tivesse revirado essas ideias mil vezes em sua cabeça durante New Hampshire, mas só tivesse tido a coragem agora, depois que o filho o descartou. Depois que se viu, mais uma vez, apagado por duas pessoas que já amou – em pleno Charlie Rose.
Isso dá um clima calmo, quase sereno ao meio do episódio. Walter faz visitas, algumas porque ele realmente precisa – como Skyler -, e outras porque ele simplesmente não conseguiu resistir. Lydia sendo, claro, o maior exemplo. Sua morte é quase o final de uma piada.
Esse estilo dá uma visão meio romântica de finitude que eu não sei lá se combina muito bem com a série, pra falar a verdade. Finalizar cada ponta solta, tendo cada última conversa com cada personagem possível… É meio arrumado. É um episódio organizado demais para a sensação de bagunça caótica perfeitamente calculada que sempre foi Breaking Bad.
Mas, ao mesmo tempo, é bastante lindo que isso só aconteça quando ele se reconhece. Sim, eu fiz isso por mim. Eu gostava. Eu me sentia vivo. Walter, finalmente. Do mesmo jeito que Breaking Bad pune autoilusão pela garganta (forte abraço, Todd, e até nunca), ela recompensa confissões. E, ali, a morte é uma espécie de recompensa. É mais uma misericórdia, na verdade.
Talvez eu tivesse sido mais sádico, no meu final ideal para a série ou algo do tipo. De qualquer modo amei o caminho – e amei a certeza com qual Vince Gilligan o trilhou e chegou a uma conclusão. Homem educado, ele.
Uma liberdade? Nem. Bom demais. Mas Walter termina inspirado pela música mesmo assim. E inspirado pelas próprias loucuras de grandeza – aceitando, mais uma vez, a autoilusão como seu último e único refúgio. Sua cena final é o mais próximo que ele já chegou de provar o próprio produto. E pouco antes não existia ninguém mais sóbrio do que ele. Ele mata os nazistas como se fosse um formulário a ser preenchido, entre trancos e barrancos. Apenas porque é a última coisa a ser feita. E é a última coisa feita. Fim de história.
Só então, quase que como uma vírgula, vem o momento mais importante da série. Quantas vezes Walter e Jesse já pularam no chão juntos? (Isso não é uma pergunta retórica, se alguém tiver a contagem aí: compartilhe).
Walter salvando Jesse… Sempre algo apropriado, e nada surpreendente – como todo o resto do finale. Único fator surpresa, surpresa, para mim, foi o plano da lavagem de dinheiro no começo. O resto foi o desenlace natural mesmo, e nada mais natural que, bem nisso, os dois terminassem assim. Que Jesse se libertasse do que realmente o tornava um escravo – suas escolhas fáceis.
Breaking Bad mete essa ideia de cara tão lavada que não perde ponto algum por clichê. Um episódio que não perfeito, mas que é brilhante justamente por causa disso.
E o clichê – se tem um aqui – é o da liberdade real. O do final feliz. Entre todos os personagens, Jesse é o único que consegue colocar um pé firme em cima de tanta merda. Nada mais merecido – não que merecimento tenha algo a ver com isso.
Skyler não merece o inferno que passou e ainda vai passar por alguns meses, contando com seus atos imorais ou não. Marie não merece aquela casa gigante sem Hank, embora tenha um pouquinho de triste paz com aquele bilhete de loteria. A série termina com half-measures para todos os seus personagens. Uma provável felicidade futura, mas com várias hemorragias mentais e emocionais pela frente. A vida é cheia delas, afinal: desculpa aí, Mike.
Pelo menos Walter te ouviu, no final. Ele é o único que vai até o fim.
Nunca por heroísmo. Nunca por nada além de alguma paz – ou além de a mínima obrigação. Ou remorso ou medo ou os mil e um motivos que tornaram esse personagem tão fascinante, entra temporada e sai temporada.
Mas ele vai até o fim. E a série também. E aqui estamos: sem querer dizer adeus, mas tendo.
Obrigado por lerem, e agradeço demais a quem tem acompanhado as reviews desde a quarta temporada. Ainda reconheço uns nomes velhos por aí nos comentários, e é sempre muito bacana de ver. Até a próxima série!















