O começo do fim de semana mais longo de todos os tempos.

É curioso para How I Met Your Mother estar em sua última temporada. Acostumada a trabalhar com diversos flashforwards para dar pistas de certos acontecimentos para amarrar as pontas soltas com o passar do tempo, agora a série precisa de uma abordagem diferente. Ao invés de estabelecer uma storyline recheada de lacunas, é necessário uma narrativa conclusiva. Especialmente porque praticamente todos os elementos introduzidos anteriormente já foram devidamente explorados (exceto por alguns, que certamente o serão aqui). E, a julgar por este series premiere duplo, o resultado não poderia ser mais positivo.

Como todo início de temporada, os episódios são escritos por Carter Bays e Craig Thomas, e narram duas horas dos dias que antecedem ao casamento de Barney e Robin. Nelas, muito acontece. O casal descobre que há a possibilidade de serem parentes, enquanto Ted e Lily tem uma viagem de carro bastante problemática, levando a amiga a pegar um trem e finalmente conhecer a Mother, fascinada por biscoitos. Já Marshall tem problemas para deixar Minnesota quando tenta evitar que sua mãe permita que Lily saiba sobre a decisão dele de não ir para a Itália.

Ainda que os dois episódios tenham sido exibidos em sequência, há uma clara divisão entre The Locket e Coming Back. O primeiro trata principalmente do transporte dos personagens até Farhampton, e cria algumas duplas interessantes. Especialmente Lily e a Mother (que ainda não tem nome), que funcionam muitíssimo bem juntas. Cristin Milioti tem um bom timing cômico, e Bays e Thomas são felizes ao logo estabelecê-la como uma versão feminina de Ted. A maneira como ela é apresentada à personagem de Alison Hannigan, fazendo uma piada fora de hora como seu futuro marido tipicamente faz, é a forma perfeita de dar a ela seus primeiros diálogos, criando no espectador a imagem de que ela é de fato um par perfeito para ele (e veremos muitas situações do tipo nesta temporada).

Lily que, ao contrário da temporada anterior, recebe um texto mais adequado a ela e mesmo seus momentos com Ted no carro funcionam muito bem. A personagem é importante para o aspecto dramático de HIMYM, mas sempre que está longe de Marvin consegue divertir bastante. Em especial nos momentos em que tenta se embebedar, já em Coming Back, e entrega o segredo de James logo após Robin conseguir um acordo para que isso não aconteça. A série em geral é muito boa em subverter certas expectativas, e esse é um bom exemplo disso, rompendo com a ideia de que essa descoberta só aconteceria em um momento mais adiante.

Da mesma forma, Marshall, ainda que isolado dos outros personagens, consegue se destacar sozinho. Sua briga com Daphne, tanto no avião como fora dele, cria um empecilho para que todos os amigos já estejam juntos em Farhampton, além de promover uma divertidíssima cena em que diversas pessoas no aeroporto tentam deletar uma foto no Facebook, até o pequeno Marvin, em um movimento aleatório, finalmente o consegue. Em outras palavras, tudo, desde a sequência de reviravoltas envolvendo o aparentemente pacato Herm até os felizes jingles promovendo a “Monstruosidade” são felizes decisões do roteiro, evitando que Marshall soe deslocado, ainda que sozinho.

Ainda tratando dos transportes, vemos Barney e Robin muitíssimo bem juntos, como de costume. Embora seja evidente que os dois não sejam parentes, a crise envolvendo a hipótese é bem construída, que inclui a telepatia que os assusta ainda mais, já que não sabem que Lily e Marshall tem o mesmo “dom”, além de uma estranha referência a Game of Thrones. Aliás, os dois não funcionam apenas em The Locket, mas seguem muitíssimo bem na segunda parte do premiere, que inclui mais uma das histórias fantasiosas do mais loiro dos Stinson. Aqui, mais uma vez HIMYM despista o espectador ao mostrar um Barney surpreendentemente calmo mesmo após o fim do único casal que o fazia acreditar no casamento. A série tem o cuidado de ressaltar de que, de fato, todos os acontecimentos para os personagens estão encaminhados, e que pequenos percalços não afetarão o todo. O que culmina em uma estranha atração de Robin por um bolo erótico homenageando James e Tom.

Mas, acima disso tudo, há Ted. Como protagonista, é natural que HIMYM invista tempo para que o personagem se posicione no estado emocional correto para o evento já sabido por todos. E para isso, as constantes tiradas de Curtis são importantes, além de certeiras, especialmente na cena que encerra o episódio. E necessidade do recepcionista de sempre lembrar o espectador de que Ted está sozinho é o ápice do que a série tem construído para ele nos últimos anos, passando pelo retorno de Victoria e as recaídas com Robin. E a situação do medalhão, que aparentemente fora recuperado por ele é sintomática nesse aspecto. Em uma nova subversão de expectativas, o roteiro sabe bem guardar para depois essa situação, de uma forma que já não mostra uma recaída, mas algo ainda desconhecido (que pode ser mais uma declaração dele para Robin mesmo assim), diferente do que sabíamos em Something New.

Eis que temos, portanto, Ted sentado tomando seu gin tônica. É nesse ponto que Coming Back tem seu momento mais icônico, explicitando a solidão do personagem de forma agora escancarada. O surgimento da Mother ali já insinua o fato de que os dois não estão presentes no mesmo espaço temporal, e o olhar distraído de Ted para suas palavras-cruzadas é crucial para salientar sua depressão. Mas o mais importante é o belo contraste que o episódio estabelece quando o Ted de um ano depois surge para cumprimentar sua parceira e revelar uma promessa feita enquanto tomava seu drink, já conhecido por ela. Como HIMYM terminará sem explorar a relação entre os dois como amantes, essas pequenas incursões são importantíssimas para estabelecê-los como um casal que funciona muito bem, além de ressaltarem ainda mais a necessidade que Ted tem de encontrar seu par perfeito, depois de muitos anos.

Encontro que está cada vez mais próximo. E, a julgar pelo que vemos aqui, promete. E muito.

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