Muita informação, nenhuma explicação. Volta aqui James Spader!

A premissa de The Blacklist me intrigou. O ex-agente do FBI, Raymond “Red” Reddington, que se transformou em um dos homens mais procurados do país, se entrega ao FBI e diz que vai ajudá-los a capturar os criminosos que colocou em sua lista negra. Mas faz uma exigência: dali em diante ele só vai falar com Clarice, digo, Elizabeth. Referências a Silêncio dos Inocentes à parte, surgem daí várias perguntas que não são respondidas nesse piloto:

Por que ela?
Como ele sabe o paradeiro desses procurados e como os escolheu?
Ou melhor, como ele sabe tudo sobre todos?
Por que ele virou a casaca?
O que aconteceu nesses 4 anos em que ficou desaparecido?
Por que ele se entregou ao FBI agora?

E muitas outras perguntas surgem ao longo do episódio, porque esse Reddington sabe TUDO e a gente fica sem saber nada. O timing dele é perfeito, ele tem todas as respostas (e só dá as que lhe são convenientes, quando as são), desloca chips subcutâneos sem dificuldade e no fim do episódio, desconfiei até que ele sabia ler mentes. Tanto os agentes do FBI quanto os criminosos, são marionetes manipulados com maestria (e muita facilidade) por ele.

Ironias de lado, achei que o roteiro pecou no excesso. É perdoável alguns momentos MacGyver, aquele golpe de sorte, uns exageros e tal, mas foi uma série de forçação de barra, cena após cena, por 45 minutos. Aí incomoda, chama a atenção e causa aquele estranhamento que impede de criar um envolvimento maior e se deixar levar pela história. Pelo menos foi assim comigo.

Essas são apenas algumas situações que contaram com o alinhamento das estrelas do cinturão de Orion para acontecer:

– No ataque para sequestrar a garota, eles sabiam onde a criança estaria com o FBI, naquela hora e local, e nenhum dos personagens que importa é morto no combo saraivada de tiros + batida + explosão.

– Zamani estar esperando Liz na hora que ela vai pra casa.

– A fuga de Red do quarto de hospital vigiado pelo FBI.

– Red fazer Liz lembrar da marca do zoológico na mão de Zamani na hora que a garota está sentadinha no banco esperando alguém ir encontrá-la, faltando só 3 minutos para a bomba explodir.

– Liz arrancar o tapete sujo de sangue e encontrar o dinheiro, arma e documentos falsos de Tom, logo após Red dizer que ela precisa dele para saber a verdade sobre o marido.

É muita coincidência num episódio só, Brasiw!

Outras coisas que me incomodaram foram a peruca de Elizabeth (que dificultou bastante a concentração no que se passava ao redor dela), o alívio cômico que foi a apresentação do casal Liz e Tom – a alegria e as piadinhas, em vez de contrastarem com o clima de tensão, destoaram do resto. Mas o que mais interrompeu o andamento do episódio, pra mim, foi a trilha. Desconexa. Não ornou. Em vez de me envolver na história, me afastava para milhas dali. Não confunda, as músicas são ótimas, mas não foram felizes no encaixe.

Para não dizer que não falei das flores, gostei dos sustos. A batida do ataque em que a garota é sequestrada e o furo na carótida com a caneta tiveram um timing perfeito. A arrogância e cinismo de Reddington são ótimos, e podem ser ainda mais extremos, flertando com o limite para a psicopatia. Acho que isso o tornaria mais fascinante. Tanto o personagem quanto o ator, carregam a série. James Spader está muito bem e ofusca o resto do elenco, é pra vê-lo que volto semana que vem. Ele é um ator extremamente versátil. Elizabeth se torna um personagem interessante quando deixa escapar um lado menos controlado de sua personalidade logo no começo quando dá uma resposta malcriada ao ruivo de Homeland e quando saca a caneta no pescoço de Red. Ambos ainda têm muito a revelar.

Não dá pra arriscar muita coisa com o que nos foi apresentado, mas meu palpite é de que Red conheceu o pai de Liz, outro criminoso, e por isso acompanhou sua vida tão de perto. A hipótese de que ele seria o pai dela é insultante, então nem vou considerar. Mas vejo sim uma relação fraternal ali. O olhar que ele lança sobre Elizabeth quando a vê pela primeira vez no interrogatório me passou a sensação de que ele estava num reencontro, matando a saudade de quem não vê pessoalmente há muito tempo. Zamani diz que Red sempre foi obcecado por Liz e o jeito que Red a educa a pensar como um criminoso para ser uma agente melhor, são indicadores de que ele se vê como uma figura paterna para a novata.

Com sua lista negra na mão, The Blacklist tem tudo pra ser um procedural com a captura (ou não) de um criminoso por episódio, daqueles que ganha mais quem assiste na ordem, mas ainda assim entretém quem cai de gaiato naquele canal, naquela hora.

Verei os próximos episódios atrás de algumas respostas e com medo de chover mais perguntas. Não quero que entreguem tudo, é óbvio que não, mas bacana é se sentir cúmplice, não de fora de tudo que está acontecendo. Em uma semana saberemos de que lado estamos e eu torço para que seja do de Red. Com as despedidas de Dexter e Walter White, há vagas para vilões para amar.

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