Não havia nome melhor para essa Season Finale senão este. Afinal, este é um episódio sobre a nossa protagonista em sua melhor forma.

Engraçado a forma de construção desta temporada de Veronica Mars. Desde o início, a impressão era a de que tudo seguia o habitual e bem sucedido modelo da série, com um grande mistério como pano de fundo da temporada enquanto os casos da semana desenvolviam Veronica como personagem e lhe apresentava algumas dicas que seriam cruciais quando chegasse o momento de desvendar aquele grande mistério. Mas, desde o começo, algo estava mudado…

Não digo que a temporada estava ruim, longe disso – acho que, no geral, mesmo com alguns problemas, curto bem mais a segunda temporada do que a primeira – mas algo ali não parecia como nos outros tempos… E acho que esta era realmente a sensação que Rob Thomas queria despertar no público pois, realmente, havia uma coisa que não seguia o mesmo caminho da primeira temporada: a própria Veronica.

A mocinha foi ela própria e doou grande parte de si para nos explicar tudo o que precisávamos saber sobre a morte de Lily Kane no primeiro ano da série e, nada mais óbvio do que isso, afinal, como recurso narrativo, trazer um crime com ligações extremamente profundas com a vida de sua heroína era a melhor arma que Veronica Mars poderia apresentar ao público em seu debute na televisão… Naquele momento, o crime em si, suas consequências, cada prova, cada suspeita, tudo se confundia com a vida da própria Veronica e o grande interesse do público em descobrir o assassino de Lily era, na verdade, um interesse em conhecer Veronica cada vez mais.

Então veio o claustrofóbico final da primeira temporada fechando de forma surpreendente o “Caso Kane” e, mesmo que indiretamente, cortando essa fortíssima ligação de nossa heroína com a trama e com o público. Rob Thomas, naquele momento, cortou o cordão umbilical e deixou Veronica crescer… Esta segunda temporada, portanto, não foi sobre o acidente do ônibus, nem sobre os Casablancas ou os Fitzpatrick… Essa temporada foi sobre Veronica. E aqui está aquele elemento estranho que eu disse no começo do texto: ver Veronica em seu trabalho “normal”, namorando Duncan e voltando a ter interações com os 9ers foi meio que um afastamento da Veronica que conhecemos.

E sim, Veronica ainda era a mesma, no fundo, ainda fazia suas investigações, manteve suas amizades com Weevil, Wallace e Mac, continuava criticando a forma como as coisas ocorriam em Neptune e tentava sempre ajudar os desafortunados… Mas ainda assim ela mudou. Não que ela tenha voltado a ser a Veronica fútil antes da morte de Lily mas, ainda que em menor proporção, ela “se vendeu” um pouco. E a própria Veronica percebeu isso no episódio anterior, quando ela viu que embora ela própria tenha mudado, Neptune não mudou e não mudará tão cedo… A absolvição de Aaron Echols foi um tapa na cara de Veronica, foi algo que a trouxe de volta a realidade… E por isso, nada mais perfeito do que esta Season Finale ser toda sobre Veronica, e ter o sugestivo – e espetacularmente genial.

O caminho para essa Season Finale, na verdade, foi sendo construído muito antes do penúltimo episódio… Sim, o julgamento de Aaron foi a gota d’água, o tapa na cara que trouxe Veronica de volta a si… Mas Veronica já havia percebido essa mudança que ela sofreu bem antes, quando perdeu a companhia de Wallace e, mais do que nunca, quando perdeu Duncan. O que eu sinto, na verdade, não foi que Veronica tenha se vendido… Ela apenas amoleceu depois da prisão de Aaron… Ela não tinha mais razões para lutar e foi por isso que simplesmente aceitou que, talvez, bem no fundo, Neptune voltasse a ser um bom lugar para se viver… Não é! Neptune é a representação pura da corrupção pelo dinheiro, pelo status, pelas mentiras e pela força que as pessoas depreendem para perpetuá-las. Esta não é a cidade para a Veronica Mars que conhecemos.

Por isso, em todo momento possível, este episódio colocou Veronica em uma posição reflexiva… A formatura já é um momento reflexivo por si só, mas os fatos que ocorriam neste momento tornava tudo ainda mais grandioso para Veronica. E tudo o que eu disse até aqui foi posto em prática, naqueles devaneios de Veronica onde ela imaginou como seria sua graduação se Lily não tivesse morrido – e consequentemente, desencadeado toda a mudança em sua vida, com a perda de seu padrão social, o sumiço da mãe e a ruína do pai – tornando ainda mais fácil o meu trabalho, ao percebemos que a própria Veronica sentiu-se incomodada em seu sonho. Veronica sabia que algo ali estava errado, ela sabia não mais se encaixar “naquela” versão da história. E isso ocorreu porque, mesmo em sonho, Veronica não era capaz de esquecer as atrocidades que Neptune é capaz de fazer a um de seus filhos menos abastados. Veronica, naquele momento, tinha plena convicção de que mesmo podendo mudar o passado, não mudaria o aprendizado que ela tivera desde que perdera sua amiga e seu mundo desmoronou.

Neptune certamente é parte de Veronica Mars, mas Veronica é mais e melhor que grande parte de Neptune. Esta parte onde o dinheiro compra tudo, certamente, não sabe a sorte que tem Veronica de ser quem é.

E o que sobra então para se falar sobre Neptune sem ser sobre sua mais ilustre habitante? Bem, as coisas na cidade seguem seu ritmo próprio e, por mais que o episódio seja focado quase que exclusivamente em Veronica, podemos ver que, enquanto toda essa mudança que ela passou a transformou completamente, a cidade quase nunca muda… E assim temos Weevil sendo preso antes de poder graduar-se unicamente em razão da mesquinhez do Xerife Lamb ou a “justiça particular” dos Kane, que não deixaram impune o assassino de sua filha, eliminando de uma vez por todas Aaron Echols, que encerrou sua trajetória na série de maneira sensacional, livre, porém morto.

De outro lado temos Wallace que, mesmo não sendo “um filho” de Neptune, também se deixou influenciar pela cidade e se relacionou com uma garota com a mesma visão de mundo de um 9er e, por isso, o final de Jackie pobre com um filho e trabalhando numa lanchonete foi meio que uma mensagem de Thomas para o público que ficou indignado com a absolvição de Aaron: o dinheiro pode até comprar muita coisa por muito tempo, mas quando o dinheiro acaba, todo o mundo dessas pessoas acaba também.

E se seguirmos ao pé da letra tudo o que eu ando dizendo nessa review, sobre a história ter como protagonistas Veronica e Neptune, temos que ter em mente que a união desses dois elementos dá sempre em um grande mistério, sendo o desta temporada o acidente de ônibus que, mesmo não tendo aquela mesma ligação pessoal com Veronica como a morte de Lily havia – embora, é óbvio, Thomas tenha arranjado suas razões para conectar Veronica ao acidente – era até mais imprevisível do que o que aconteceu na primeira temporada da série… E posso dizer isso sem muito medo, mas duvido que alguém desconfiou de Beaver antes dessa Season Finale… Ele nunca havia figurado como um dos suspeitos e a prova definitiva que o interligava ao acidente – toda a história dele ter sido molestado pelo prefeito – só foi apresentada nos momentos finais deste Season Finale.

Cassidy “Beaver” Casablancas. Depois de Veronica Mars, certamente é este o nome mais importante da temporada. Em todas as reviews que fiz destaquei a importância que Thomas decidiu dar à família Casablancas neste segundo ano de sua série. Eles definitivamente roubaram o posto que pertenceu aos Kane na primeira temporada e, seja com a história do roubo e falência do Sr. Casablancas ou todo o envolvimento criminoso e/ou casos juvenis de Kendall, essa Season Finale veio para mostrar que, certamente, nenhum deles era pior que Beaver… Afinal, ele explodiu o ônibus para esconder parte do seu passado que ele não queria ver exposta, arquitetou uma vingança contra o Prefeito e teve inteligência suficiente para forçar ligações entre o acidente e os Mars, pois sabia que Veronica e seu pai seriam empecilho suficiente para empacar uma investigação comandada pelo Xerife Lamb.

Beaver é esperto, muito inteligente, perspicaz, frio, calculista e vingativo. Sempre detestou os rótulos que lhe eram postos e certamente foi influenciado pelas barbaridades que certamente sofreu nas mãos do prefeito quando ainda era um garoto. Isso sem falar sobre o tanto que certamente sofreu em sua própria casa, sendo um páreo, uma pessoa que não se encaixava nos padrões esperados para um Casablancas. E não se encaixava mesmo. Beaver tinha uma inteligência muito superior a do pai e ao do irmão… Por isso, em sua adolescência, optou por incorporar todos os julgamentos que faziam sobre ele e se apresentar como uma pessoa frágil, mantendo-se sob o radar, longe dos holofotes. O problema são as coisas que Beaver não previu… As pontas soltas. Haviam pessoas que poderiam ameaça-lo e divulgar tudo o que ele se esforçou toda uma vida para esconder… Eliminá-los no ônibus não foi a solução, mas apenas o começo de sua ruína, pois com aquele acidente a pessoa que se esforçou a vida toda para se manter longe dos radares foi cair logo no radar da pessoa mais incansavelmente teimosa do mundo: Veronica Mars.

Há toda uma beleza naquela cena final de Veronica e Beaver no telhado. Há toda uma poesia ali. Dois páreas, duas pessoas que cresceram dentro dos luxuosos muros de Neptune mas que, por razões exteriores às suas vontades, deixaram de fazer parte daquela cidade. Duas pessoas de inteligência acima da média que eram capazes de ver além das aparências que rodeiam seu mundo. O destino, talvez, causou-lhes mal além do que imaginavam e cada um deles reagiu de maneira distinta ao que lhes fora causado…

Por isso, no final, só poderia ser Veronica contra Beaver. A garota que perdeu o mundo por causa da insistência do pai em buscar a verdade e o cara que criou um novo mundo para esconder a verdade de seu pai. Heroína. Vilão. Se foi intencional ou não, nunca saberemos, mas Thomas criou entre Veronica e Cassidy uma ligação que interliga toda a série, desde sua première até aquela fatídica cena na cobertura do hotel… Essa conexão torna-se ainda mais forte quando revisitamos a história do estupro de Veronica e vimos que, sim, Beaver havia transado com a garota contra a sua vontade, passando-lhe clamídia (uma dessas pontas soltas em sua história que ele fora incapaz de amarrar). E por isso, por ver em Veronica a força que ele não fora capaz de ter, Beaver viu nela uma inimiga e decidiu, como seu último ato, tirar tudo o que restara à garota: seu pai.

Após o impacto do suicídio de Beaver a única coisa capaz de despertar o público do torpor das revelações recentes fora a descoberta de que Keith estava vivo. E os fãs até foram presenteados com Veronica e Logan reatando o namoro.

Séries que têm como título o seu personagem principal são perigosas por necessitarem obrigatoriamente de uma ligação além do normal entre tal personagem e o público. Temos exemplos fortes de séries que foram altamente bem sucedidas nessa ligação como, por exemplo, Castle, Chuck e Dexter… Mas nenhuma delas, nunca, vai superar a ligação que o público havia com Veronica Mars. Rob Thomas e Kristen Bell fizeram algo inimaginável ao criarem uma Veronica Mars que era maior do que tudo e todos que a rodeavam… Veronica era como um buraco negro puxando pra si todos os olhares e os holofotes e, mesmo com pequenas mudanças, após esta finale vimos que, de fato, the bitch is back… O que no caso de Veronica era algo que todos nós queríamos com todas as forças…

Então, pode até ser que Veronica tenha se surpreendido pelos aplausos dos colegas quando recebeu seu diploma na formatura e percebeu o quanto era adorada e/ou respeitada por aqueles que julgava odiá-la… Mas não houve surpresa para mim, para vocês ou qualquer outro telespectador… Todo aplauso do mundo é pouco para Veronica Mars.

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