
Há dez anos Ryan Atwood chegou à Orange County. Tempos depois essa laranja se tornou atômica e essa série, um fenômeno de cultura pop.
Que possam dizer que foram originais mesmo, só os criadores e autores do Teatro Grego. Eles é que começaram a conduzir os conceitos que nós usamos hoje como dramaturgia. A inspiração era tão nova e entorpecente, que parecia ritualística. Hoje, só repetimos fórmulas, incorporando uma ou outra novidade, outro ângulo, outra perspectiva, que acaba tornando o óbvio menos previsível e o corriqueiro em surpresa. Do mesmo jeito que a vida se reprisa, a ficção também. Alguns autores sabem manipular as poucas notas dessa canção, outros nem tanto.
Josh Schwartz está no primeiro caso. Por mais amor que tenhamos por The OC, ela não representa originalidade bruta, mas representa originalidade derivada. Apoiando-se numa premissa básica de organização social, o moço (o mais jovem showrunner da história) levou a FOX a proposta do show, que não demorou a marcar seu nome na história como ícone pop e como referência cultural. E a ser, sem querer, analogia involuntária para a vida.
Todo núcleo social tem sua rotina. Se a gente for parar pra pensar bem, quase toda ficção começa com a chegada de alguém ou alguma coisa a algum lugar. A rotina sempre representa segurança, sempre se refere à dinâmica que já está estabelecida. Os indivíduos costumam se agrupar entre iguais justamente para tentar preservar a força de seu cotidiano. Se qualquer movimento contrário é feito, deflagra-se uma rede de acontecimentos que atribulam a vida dessas periferias. É assim na vida e é assim na ficção. Por isso, faz todo sentido que toda história comece com uma chegada ou uma partida. De qualquer forma, qualquer um desses dois movimentos vai desestabilizar o mundo em questão.
Em Dawson’s Creek, a chegada de Jen minava a apatia dos personagens. Em Six Feet Under, a perda do pai era o gatilho para certas decisões. Em True Blood, Bill ter voltado à Bon Temps iniciou uma cadeia de eventos. Em The Vampire Diaries foi preciso que Stephan chegasse ao mundinho de Elena, para sacudi-lo… As pessoas sempre seguem em suas vidas nessa mesma proporção: cumprindo prazos, hábitos, vivendo no mesmo ciclo. O tremor que bifurca os caminhos vem, quase sempre, de interferências externas.
O mundo de Seth Cohen era totalmente insípido. Não se enganem em achar que Ryan era um protagonista soberano, porque ele não era. Na mesma intensidade com a qual a vida do menino pobre foi transformada, a vida do menino rico também foi. Seth era fruto de um casamento que nasceu pra transgredir: Sandy era um idealista que se apaixonou por uma “patricinha”. Kirsten, entretanto, tinha vontade de ir contra a correnteza de uma tradição. Os dois se apaixonaram pelo que representavam um pro outro. No início pode ser sido desbravador, mas logo também passou a ser rotina. Sandy vivia no meio dos ricos achando que nada daquilo o atingia e Kirsten tinha um marido engajado, que ajudava a diferenciá-la de suas vizinhas alienadas. No fim das contas, entretanto, os dois estavam mergulhados na inércia.
Seth era inteligente, o maior defeito que alguém poderia ter na Escola Harbor. Não era belo o suficiente ou esportivo o suficiente pra ser popular, e para que alguém descobrisse que ele era interessante, antes precisaria se aproximar dele. Era diferente do que acontecia com as meninas, que se ilustravam através da fraqueza pessoal de Marissa e da preguiça intelectual de Summer. Marissa tinha aquele vazio clássico de quem não tem problemas de verdade. Já Summer forçava prioridades superficiais por achar que esse era o movimento natural do meio onde estava inserida. Todos eles, sem exceção, só cumprindo um ritual diário.
Até que chegou alguém… Chegou o “alguma coisa” que empurra e desarruma tudo. Quando Sandy levou Ryan para casa naquele dia que parecia só mais um dia, puxou o gatilho para uma série de anseios escondidos que redefiniram aquela sociedade. Sandy foi obrigado a se confrontar com o pouco que fazia e que pensava que era muito, Kirsten precisou ser diferente das vizinhas alienadas na prática e não só na teoria, Marissa ganhou um projeto para se preocupar de verdade, Summer foi obrigada a pensar em mais além de si mesma e Seth ganhou um amigo. Insisto em reconhecer a importância de Seth no protagonismo dessa história porque o caso dele era o mais impressionante. Um amigo… Sua vida mudou tanto assim apenas porque ele teve uma coisa que tanta gente não tem nenhum trabalho pra ter: um amigo.
A partir do momento em que o problemático Ryan Atwood chega à Orange County, a vida dessas pessoas começa a se reconfigurar, mudando não só comportamentos, como também personalidades. E esse foi o grande diferencial de The OC, que em sua Primeira Temporada, surpreendeu o público e a crítica com uma forma mais debochada, irônica e sagaz de fazer televisão para adolescentes.
Benjamin McKenzie nem era o tipo perfeito para viver Ryan, segundo as palavras do próprio Josh. O papel acabou indo pra mão do rapaz por conta de sua atitude bad boy. Esse era o aspecto mais importante sobre Ryan, que precisava chocar o mundo asséptico de Kirsten Cohen, única personagem com força suficiente para impedir a permanência dele naquele sistema. Uma boa ficção sempre trabalha com opostos, e por isso The OC deu certo tão de cara. Bastou um episódio para nos deixar completamente fascinados pela expectativa do que Ryan ia provocar naquela sociedade tão “perfeitinha”. Os preconceitos acerca de todos os personagens foram sendo discutidos e superados, passo a passo.
Todos, absolutamente todos os personagens, não sabiam nada uns sobre os outros. Até a chegada de Ryan, Sandy achava que nenhum membro do clã Newport Beach valia a pena de se ter uma conversa. O terremoto que o garoto provocou quando chegou, aproximou Sandy de Jimmy. Antes de Atwood, Kirsten não sabia nada sobre o filho, nada sobre a própria capacidade de superar sua origem cristalizada. Essa flexibilidade lhe permitiu se aproximar de Julie. Marissa e Summer nem mesmo eram amigas de verdade, porque foi só com a chegada de Ryan que elas precisaram fortalecer esses laços.
Assim, a primeira temporada da série confirmou seu sucesso com uma linha de narração de dar inveja a qualquer novelão, mas se salvando do lugar comum com um texto e uma trilha sonora espertíssimos. Tanta coisa aconteceu no primeiro ano, que parecia impossível ter pra onde seguir no ano seguinte. O Season Finale do show, com a sentida partida de Ryan, foi tão catártico que visto novamente, até hoje, emociona. E por uma razão muito simples: numa tacada de mestre, Josh Schwartz passou um ano bagunçando o mundo dos ricos para que quando a ameaça de voltar com Ryan pra seu lugar chegasse, a perspectiva daqueles personagens de retomarem sua rotina apática, os devastaria.
Foi simplesmente lindo ver Kirsten reconhecendo o amor totalmente desinteressado, abraçando a roupa de cama de Ryan, nos transmitindo toda a dor de ver transformações tão positivas, sendo obrigadas a se interromper. Por mais sofrimento que a chegada de Ryan pudesse ter provocado, nada foi tão forte quanto os sentimentos de afeto sincero que esse evento deflagrou na vida daqueles personagens.
Então chegou a Segunda Temporada e alguns padrões começaram a se confirmar. O primeiro deles era o de que a série estava disposta a tudo. O curioso é que muitos desses padrões co-existem todos dentro de Marissa. O interesse romântico do herói costuma ser problemático mesmo, mas nunca foi tão transgressor quanto Marissa era. Além de mentir, roubar e se drogar, ela começou o segundo ano da série tendo uma experiência lésbica. Isso arrepiou os cabelos da FOX, que logo tratou de exigir mudanças, mas ainda assim, já estava feito e já era sacramentado: The OC era diferente, era realmente ousada.
Marissa, entretanto, vinha confirmando outro padrão que acabou se tornando um problema: ela precisava de “projetos” novos o tempo todo, para sentir-se viva. Na primeira temporada foi Oliver, na segunda foi Trey e na terceira, Johnny. Enquanto o roteiro tentava explorar o casal separadamente (com Ryan envolvendo-se com a flopada trama da filha bastarda de Caleb), também chegava ao apogeu da referência pop-contemporânea.
A segunda temporada de The OC foi um desbunde de trilha (com bandas se apresentando ao vivo no Bait Shop), de universo nerd (com o Comic Book “Atomic County”) e de tiradas de referência. Seth e Summer irritaram um pouco no triângulo interminável com Zack, mas o ótimo texto de Josh e seu time salvava a série da irrelevância. Momentos como o do “beijo do Homem-Aranha” foram responsáveis por impedir qualquer crítico de não reconhecer a nova linguagem proposta pelo show.
A série alavancou a carreira da genial Death Cab For Cutie, renovou a procura por clássicos de cinema e literatura, recebeu convidados de peso, ironizou com o mercado e fez piada de si mesma com a impagável The Valley. A série também ficou conhecida por seus finais de episódio inspiradíssimos, que faziam os fãs correrem desesperados pelos downloads da canções arrebatadoras que tocavam neles. Ela, sem saber, seguia por um caminho perigoso, colocando justamente Marissa como catalisadora das maiores tragédias do enredo. Ao mesmo tempo em que a sequência abaixo é uma das mais bem dirigidas do programa, também condena a personagem definitivamente, à infelicidade.
Me pergunto sempre se os roteiristas tinham consciência de que estavam jogando Marissa num caminho sem volta. No Box Set lindo que foi vendido nos EUA, há uma entrevista com o criador da série onde ele confessa que deixou o show correr sem rédeas no terceiro ano. Marissa é, sem dúvida, a condutora dos maiores problemas da Terceira Temporada, que se afundou num grande “mais do mesmo” em que os únicos enredos que pareciam possíveis, eram aqueles em que ela colocava seu relacionamento com Ryan em segunda posição.
Ao invés de explorarem a ótima possibilidade de ter a personagem estudando numa escola pública, resolveram explorar a paixonite do trágico Johnny por ela. Isso diminuiu a força dela, a força de Ryan e a força do show. The OC descia numa espiral longa de chatice e quando perceberam que a série não sabia pra onda ia, já estávamos na metade final da temporada.
A faxina foi feita, mas a presença infeliz de Marissa ainda era incisiva demais. Exploraram a personagem de tantas formas cruéis, que a impossibilitaram totalmente de conseguir sair das sombras. Nesse momento, entretanto, a série começou a respirar com os próprios pulmões novamente. The OC nunca ignorou o que tinha feito com ela. Fizeram Mischa Barton (que segundo rumores também não era uma pessoa fácil) viver visceralmente a escuridão de Marissa. A inadequação que a personagem redescobriu estava ali o tempo todo, na sua expressão, nas suas horas a fio no mirante da praia. O roteiro jamais fingiu que não tinha massacrado a personagem e independente dos motivos que levaram ao trágico season finale, ele era a única, definitivamente, saída possível para um quarto ano no mínimo, decente.
No vídeo acima Mischa deixa duas coisas muito claras: a primeira é que a decisão de matar Marissa não foi dela, mas que ela escolheu esse final entre dois possíveis. A segunda é que o ambiente lá não estava dos melhores. Tirando pela ótima quarta temporada, talvez Mischa fosse nociva para o elenco, tanto quanto Marissa era para o show. A razão em sí, não importa, mas sumir com a personagem era absolutamente necessário. Pelo amor e zelo que aqueles personagens tinham com Marissa, nenhuma possibilidade de crescimento seria possível com ela por perto. Em um dos episódios finais, Josh usa a série The Valley para dar um recado para os fãs de que ele estava por dentro do que estavam dizendo e que sofria tanto quanto nós para saber o que fazer.
The OC acordou um pouco no final do terceiro ano. Matar Marissa era uma decisão arriscadíssima, mas totalmente justa. A resistência da audiência nunca foi capaz de reconhecer que esse, inclusive, era o destino final que mais a honrava. Marissa era trágica, deslocada, enegrecida. Sua trajetória era a de estar em constante confronto com o próprio vazio. Seu esforço em sempre tentar “salvar” rapazes problemáticos de suas vidas, era uma fuga da própria incapacidade de reconhecer um objetivo pessoal, nuclear. Marissa não nasceu para ser feliz, ela foi construída para representar essa dor. A morte era a redenção dela, e do show.
Tudo isso ficou muito claro quando a Quarta Temporada estreou cheia de vida. Cumpridos os episódios de luto, The OC renasceu tão livre e bem-humorada que chega deu orgulho. A incorporação de Caitlin manteve o tom de transgressão e a chance que deram para Taylor Towsend foi preciosa para o futuro de Ryan dentro do programa. O drama ainda estava ali, mas sempre se lembrando de ser sagaz e de flertar com o riso, com o deboche, como era e como nunca deveria ter parado de ser.
Summer pôde ter vida própria, dando à Seth a mesma oportunidade. Julie conseguiu viver sua deliciosa amizade com Kirsten em sua plenitude (nunca deixando de ser lindamente mau caráter) e Ryan teve a chance de viver uma relação que não era apoiada em sacrifício. Taylor foi tão bem defendida por Autumn Reeser, que era impossível não se apaixonar por ela. A série continuou sem compromisso com a tragédia, e voltou às referências, aos nerdismos, ao texto esperto que lhe era característico.
Curiosamente, ao mesmo passo em que a chegada de Ryan foi a base dramatúrgica clássica que reconfigurou a dinâmica dos personagens, a partida de Marissa fez isso de novo, reinaugurando aquelas vidas e forçando-os a se reinventar. A mudança pela chegada… A mudança pela partida… The OC explorando o melhor dos berços criativos, mas infelizmente sendo castigada por isso.
O anúncio do cancelamento veio precipitadamente. A série nem mesmo teve tempo de completar seus 22 episódios. Por sorte, teve tempo ao menos de um encerramento digno. Os episódios 15 e 16 foram os últimos e são tão absurdamente bons que comovem até hoje. Promovem um terremoto ao som de Fredo Viola, transformam Radiohead em vinheta de intervalo… Se despedem da TV com um carinho tão grande por si mesma e pelos fãs, que cruelmente, lhe haviam condenado ao fim prematuro.
Ainda nessa última temporada, em um episódio em que Taylor e Ryan vão parar numa realidade alternativa, os roteiristas confirmaram nossa analogia ao se fazerem a fatídica pergunta: E se Ryan nunca tivesse chegado? Meus queridos leitores, eu nem sei o que seria de nós se Ryan nunca tivesse chegado. Será que poderíamos superar a falta das neuroses de Seth? Será que o mundo teria a mesma graça sem a inteligência relutante de Summer? Se Ryan não tivesse chegado, nunca teríamos conhecido o trabalho deleitoso de Melinda Clarke e sua adorável cafajeste, Julie. Marissa só foi tão chorada, porque tantas vezes foi salva por Kid Chino… Taylor só me rir tanto, porque um dia ela se emocionou por ser parte de algo maior: uma amizade. Se Ryan não tivesse chegado, não haveria mudança naquele mundo de mentira… Não haveria mudança no nosso mundo de verdade.
No dia 05 de Agosto de 2003 Ryan Atwood chegou à casa dos Cohen… A gente se divertiu tanto, que há dez anos continuamos a sentir vontade de voltar.














