Para quê sindicato de entregadores de pizza quando se tem Veronica Mars?

Um dos principais aspectos no momento de se criar uma história interessante ou compor um personagem quando olhamos para qualquer tipo de arte é a motivação para a existência do que está diante dos nossos olhos. Isso termina sendo até mesmo mais importante do que a ação propriamente dita, considerando que as reviravoltas de uma narrativa ou atitudes de um personagem não soam bem quando se afastam daquela base que é sustentada pelo que conhecemos do espírito da série ou daquelas pessoas. Veronica Mars segue uma tendência agradável semelhante a do episódio passado que se mantém como o impulso que faz com que “Versatile Toppings” seja um passo bem dado pela série na segunda temporada, utilizando um esquema de narrativa propício para a ideia ilustrada e trazendo uma aura híbrida que funciona de forma excelente no contexto.

O sentimento de desprezo pelo local em que aquelas pessoas estão é uma das características universais que está sempre incorporada ao comportamento dos personagens da série e utilizar isso para trazer uma questão como a homossexualidade termina essencial para não exagerar no didatismo. Aliás, a motivação da chantageadora e o desfecho sóbrio da situação apenas acentuam o quão profunda a série é nesse sentido sem perder os tons de brincadeira comuns nas expressões de Veronica diante das revelações presentes ao longo do episódio. É muito prazeroso ver o roteiro utilizando o desgosto que os personagens possuem pelo ensino médio (justificando da melhor maneira possível que aquilo seria mais aceitável na universidade) para que as ações posteriores se encaixem tão bem com a mensagem pretendida. Veronica Mars sempre utilizou com inteligência a adolescência como a fase de transição que ela é ao contrastar aqueles que se comportam além desse estágio (Veronica, por exemplo) com os que garantem justamente o lado oposto (Dick sendo o melhor babaca do universo ao longo do episódio).

“Versatile Toppings” possui uma simplicidade narrativa que lembra até mesmo os episódios mais básicos da temporada anterior. Existe um caso da semana e outras tramas mais relevantes que se comportam bem independentemente e com um ritmo bastante comum até o momento em que o roteiro decide puxar uma carga dramática forte por todas as vias criadas, todas delas associando uma reviravolta com determinado comportamento de um personagem e um impacto eficiente para nos irritar ao ver os créditos finais aparecendo. A antagonista do caso da chantagem com os gays e lésbicas da escola pode cometer ações terríveis ao longo da história, mas consegue através de uma cena subverter (ou, no mínimo, acariciar) qualquer sentimento negativo diante do seu comportamento ao usar a armadilha do amor por sua parceira como trunfo para isso, encaixando ali uma profundidade fora do comum que consegue deixar ainda mais claro como Veronica Mars não está sendo pretensiosa.

O mesmo raciocínio guia a eterna jornada relacionada ao mistério do ônibus, sendo que aqui o caminho parece ser um pouco mais árduo pelo simples fato de que essa trama segue uma trilha completa de falsas pistas que percorrem o próprio rabo durante a maior parte do tempo. Isso não significa que esse segmento retire os méritos do episódio, pois é o mesmo que coloca Keith contra a parede na última cena, apostando na frágil relação de confiança existente entre Terrence, Lamb e ele próprio para desestabilizar aquele que é o personagem mais estável da série. Além desse final, a discussão sobre quem tem mais a perder entre o trio é um dos raros momentos da temporada até agora em que a presença de Terrence cumpre seu papel de forma adequada pelo breve jogo de hipocrisia que é atirado sobre a mesa.

Enquanto uma parcela alta de personagens participa bem utilizando o princípio da motivação supracitado, Logan eleva o nível e faz com que o seu arco ganhe mais profundidade apostando justamente no ato de implantar na mente do público a eterna dúvida sobre suas atitudes, fazendo com que seu relacionamento com Hannah funcione perfeitamente de forma quase que isolada do resto do episódio. Cada passo do personagem representa um nível de tensão e mistério que poucas outras tramas da série alcançaram. Ainda existe de brinde a combinação temática presente no final (da mesma forma que acontece com Kylie e Keith), com os dois assumindo o relacionamento através da justificativa mais absurda e ao mesmo tempo sensata possível, a lógica chave do episódio.

Combinando todos os personagens em uma saga onde todos de determinada forma saem do armário, tanto no sentido geral do episódio quanto no raciocínio de colocar mais cartas sobre a gigante mesa que é essa segunda temporada, “Versatile Toppings” não poderia trazer uma mensagem mais agradável mesclada com lógicas mais contundentes. Além disso, está aqui mais argumento a favor do time que acredita que Mac deveria ser a auxiliar fixa de Veronica e outra bomba* para continuar a trama.

* Tão óbvio esse trocadilho que pensei até em não coloca-lo, porém não resisti.

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