A volta dos que não foram e a ida dos que não tinham ido.

Ok, não é comum de minha parte seguir essa linha de comparação nos textos que escrevo, mas observar Doze Homens e uma Sentença serve como um bom sustento para exemplificar porque “One Angry Veronica“ é um dos episódios dos mais desorganizados que vimos em Veronica Mars até agora. Inclusive, acredito ser interessante avisar que existem comentários sobre a trama.

Para quem não sabe, Doze Homens e uma Sentença é um incrível filme americano de 1957 cujo roteiro é adaptado de um episódio de um programa de televisão exibido três anos antes (Reginald Rose é responsável pelas duas obras). A história é claramente relacionada com aquela contada por Veronica Mars aqui. Um júri está em uma sala e deve decidir o resultado de um caso. O filme tem uma fantástica abordagem ao exibir as emoções de cada um dos membros do júri em questão, colocando ênfase no personagem de Henry Fonda, o único que inicialmente vota a favor da inocência de um cidadão porto-riquenho acusado de assassinar o pai, um raciocínio que eventualmente é seguido pelos seus onze companheiros de sala. Ou seja, basicamente o que o roteiro fez no episódio em questão, com a exceção de que o resultado final da história é uma condenação… e a narrativa da série é fraca ao transmitir toda a carga emocional através das dúvidas dos personagens.

“One Angry Veronica” coloca a carroça na frente dos bois ao fazer com que todo o segmento do júri seja acelerado demais até mesmo para o padrão da série de colocar sempre uma enorme quantidade de informações a nosso dispor. É fácil entender isso porque o episódio também é voltado para a questão do sumiço das fitas com o caso entre Aaron e Lily, mas não existe realmente nenhum momento chave em que a dúvida razoável do dilema seja bem clarificada, especialmente porque todos os membros do júri estão em um campo caricato em que ninguém realmente possui uma razão dramática o suficiente para que o resultado da mudança de ideia possua um efeito maior do que o simples andamento da história. Determinadas ações, como a atitude do CEO intelectualmente desonesto mudar de voto por raiva associada ao pensamento de que outro júri votará diferente durante a apelação é um modo preguiçoso de colocar um ponto final no dilema.

Estou longe de um expert no que se diz respeito ao funcionamento de um julgamento, mas um personagem, por mais fútil que ele seja ilustrado, ignorar uma questão assim com essa justificativa absurda faz dele uma ferramenta qualquer de um roteiro malandro. Outras ações, por exemplo, são até mais fáceis de serem absorvidas, como a confidência do júri ser quebrada em favor do avanço da história, considerando que Neptune é uma cidade bagunçada o suficiente para que isso seja coerente com a série.

Entrando no campo das comparações novamente, o filme supracitado segue uma dinâmica interessante de expor as razões que fazem com que o voto do protagonista seja pela inocência. Ele não acredita que o cidadão seja inocente, mas faz isso porque não acredita na culpa, colocando a dúvida acima de tudo para tomar a melhor decisão e cumprir seu dever como cidadão ao longo da narrativa. “One Angry Veronica” não bate na tecla da incerteza tanto o quanto deveria, como pode-se ver pelo simples fato de cada mudança de opinião soar pretensiosa, impedindo a básica conexão entre o público que a série normalmente consegue tão facilmente. A cada novo pedaço de informação, uma teoria surge e pouco debate-se aquilo em conjunto, pois o roteiro prefere colocar a mudança de opinião imediatamente depois, como se mandar pessoas para a prisão fosse uma situação banal.

Além de possuir um caso da semana com potencial desperdiçado, “One Angry Veronica” também entra naquele território de atirar certos eventos com pouco nexo para criar ansiedade para o próximo episódio. Trazer Meg de volta de seu coma com um bebê dentro da barriga indicava um caminho interessante pelo aumento da profundidade do triângulo amoroso, mas o roteiro descarta parte disso aqui. Não é uma decisão condenável de imediato, porém existe um oco no sentido de como a morte de Meg é elaborada, acompanhado de um discurso clichê sobre Veronica não deixar que seus pais fiquem com o bebê e uma ligação nos momentos finais. Enquanto esse desenvolvimento poderia colocar Veronica em um estágio mais triste diante da morte da amiga, o roteiro traz Wallace de volta imediatamente após isso, preferindo apoiar o seu final em uma mensagem esperançosa que termina bagunçada por ser antecedida de um acontecimento trágico explorado com conveniência demais.

Uma das características mais irritantes do mundo das séries é a sua insistência em tentar criar grandes momentos justificando-as a partir de informações recém-colocadas, como a atitude de Leo influenciada por sua irmã, mas esse termina sendo um dos menores problemas do episódio (pelo simples fato dos outros serem maiores). Keith e Logan tem mais sorte no processo. O positivo é Veronica Mars trabalhando do jeito que sabe, com Logan e seu comportamento ambíguo vindo à tona ao ponto de ele poder ajudado o pai por causa de sua visão de Lily. Por mais contraditória que sua decisão possa ser graças ao seu ódio pelo pai, o episódio cumpre bem o papel de fazer com que sua motivação para aquilo seja sincera, usando do passado para fundamentar o presente e deixar no futuro julgamento de Aaron Echolls o ponto de interrogação maiúsculo que termina aqui.

Artigo anterior[Flashback] Friends – 8×17: The One With The Tea Leaves
Próximo artigoAudiência USA – TV a Cabo: 21/06 a 27/06/2013