
A arte da continuidade.
Spoilers Abaixo:
Com apenas dois episódios, Arrested Development mostra uma segurança incrível diante de seus objetivos e como chegará até lá. A continuidade dos eventos da Season Premiere segue aquela sutileza onde a série entrega basicamente todas as informações que você deve saber através de simples imagens. O que se vê aqui é uma história cujo principal chamativo está justamente no fato de todos os episódios serem distribuídos ao mesmo tempo, conectando tudo de uma forma que é capaz tanto de satisfazer quem não aguenta a ansiedade de ver todos como também abrir espaço para que cada um deles funcione individualmente. “Borderline Personalities” é um exemplo perfeito dessa lógica de adaptação que a série faz com sua história, possuindo uma temática geral que é semelhante a do primeiro episódio para que toda essa conspiração que está rolando ganhe forma.
George Sr. é o foco do roteiro e sua saga segue um pensamento idêntico aquele que envolveu Michael anteriormente. Está lá aquele elemento da narrativa que deve estar presente nesse estágio inicial da temporada: o episódio desenvolve um arco principal que reintroduz um dos membros da família aquele mundo enquanto outro termina entrando no episódio quase que por sincronismo. Se essa lógica era extremamente favorável a Michael/George Michael, ela também é propícia para que George Sr./Lucille sejam posicionados como peças de um estranho e hilário quebra-cabeça. A grande diferença aqui é que essa segunda relação é muito mais voltada para a dependência que o primeiro tem diante de sua esposa, uma química que faz com que o roteiro percorra outros caminhos. Diferentes dinâmicas na mesma fórmula compõem uma receita televisiva de sucesso e os resultados aqui não poderiam deixar de serem satisfatórios. Toda a construção do relacionamento dos dois no episódio opera bem naquele universo por ser bastante fiel às características da dupla, como suas peculiares visões relacionadas ao sexo. O fim da terceira temporada evidencia que Lucille é a mente por trás das falcatruas da família e utilizar isso para jogá-la na prisão e trocar os papeis que os dois normalmente possuíam produz os diálogos fantásticos entre a dupla.
É lógico também que “Borderline Personalities” não se contenta com isso, incrementando a relação com um desespero que ambos sentem de determinada forma, principalmente com George Sr e Oscar. Arrested Development sempre se pautou bastante na alternância de quem está no poder ao longo do tempo e esse episódio retrata isso perfeitamente através das alterações nessa balança, usando a linha temporal bagunçada característica da série para isso com um desenvolvimento fantástico. George Sr. sendo charlatão é algo que não vimos de forma tão prática nas temporadas anteriores como aqui, arquitetando ridiculamente sua volta tentando enganar CEOs e o governo dos EUA no meio do deserto e fazendo de sua eventual falha o nosso maior ganho, uma jornada que é um deleite de ser acompanhada, com direito aquela ambiguidade típica do roteiro na piada do Bush.
Mesmo assim, a beleza da situação encontra-se quando a própria série se vira cabeça para baixo com um corte rápido e uma mensagem anunciando um salto temporal de um ano. O lado cômico aqui não poderia deixar de ser marcante, permitindo que a arrogância de Lucille demarque logo o quão perdedor George Sr. é pelos seus comentários sobre o quanto ele é horrível sendo visto de costas.
Assim como a série fez com Michael, o raciocínio com George Sr. é o mesmo. Não é uma questão de repetir a mesma piada (por mais que as piadas recorrentes inseridas aqui sejam ótimas, como a simples troca com Oscar sendo hilária por si só), mas progredir e utilizar os três anos anteriores para catapultar algo agradável de ser visto.
Outras observações:
– “And soon the Family met up at the beginning of a fourth season… that would never come” – Narração de Ron Howard sendo excelente em fazer referências a si mesmo mais uma vez.
– O modo como a série utiliza seus recursos visuais continua sendo um dos seus artifícios mais fortes, ultrapassando sempre qualquer problema de estranhamento pelo simples fato das piadas serem extremamente boas. É até notável como isso também é usado como uma ferramenta narrativa que não soa superficial, subvertendo situações como a da imagem do texto ou até mesmo colocando altas doses de estupidez em um contexto não tão apropriado, como Barry vestido de marinheiro.
– A jogada do divórcio envolvendo George Sr. e Lucille é o um exemplo primoroso de como progredir uma história complicada e não parecer exagerada no processo. Tudo é tão bem estabelecido naquele universo que toda vez que a série acerta parece mais como o simples resultado de trazer certas características à tona no momento menos esperado para isso.
– Outro exemplo de piadas recorrentes que são adequadas perfeitamente ao contexto atual e não soam deslocadas? Cena da briga entre Sitwell e George Sr.
– Todo aquele segmento dos hippies soa… demais? Lógico, John Slattery naquela posição é uma piada pronta, mas existe uma insistência em jogar o mesmo ponto várias vezes que prejudica todo o cenário.
– Arrested Development não pode explorar a dinâmica da família inteira por obstáculos óbvios, mas é sensacional como as interações entre eles por si só são apropriadas, puxando a piada ao máximo sempre que possível. Lucille e Buster juntos dividindo cigarros mostram como o roteiro consegue passar aquele sentimento de união (ou desunião quando necessário) independentemente de qualquer coisa.














