
O passei de Rock pela cultura contemporânea e a universalidade de sua comédia.
Chris Rock é notório por sua comédia sobre relacionamentos amorosos. Mais do que estabelecer diferenciações chistosas entre negros e brancos, o comediante se escora principalmente nas diferenças entre homens e mulheres no âmbito amoroso. No especial da HBO Chris Rock: Never Scared, lançado no ano de 2004, o tema não se faz ausente; na verdade, tem todo um bloco para si, o cume da apresentação, bem ao final. Mas o que torna este especial tão distinto dos outros três anteriores de Rock não são, exatamente, seus comentários sobre homens e mulheres, brancos e negros, mas sobre a cultura em geral. É aqui que Chris Rock cristaliza sua condição de referência, de uma voz negra e sensata a verbalizar visões a respeito da cultura contemporânea, às vezes, muito pertinentemente, agregando a isso fundamentos sociais que trazem questões étnicas e políticas à mesa.
Se procurarmos por inovação de estilo na comédia de Chris Rock, não encontraremos com tanta nitidez, ou quiçá de jeito nenhum. Ele é um comediante vulgar, no bom sentido, vociferando palavrões como forma natural de se expressar, não como recurso cômico; mantendo um tom frequentemente superlativo de fala, gritando ao microfone e pronunciando, às vezes, aos brados cada sílaba de uma palavra para enfatizar uma afirmação ou indignação – isso quando não repete frases e palavras diversas vezes. Assim, até parece que Rock é um comediante escandaloso, irritante, mas o mesmo é dotado de um carisma que abranda e, na maior parte das vezes, de razões difíceis de refratar. Ele é quem ele é, sem inventividades de estilo, porquanto representa a comunidade negra do qual sempre fez parte, não só na cor da pele, mas nas tradicionalidades sociais e culturais que tanto combustam o conteúdo de sua comédia. E divorciar-se disso, em estilo e conteúdo, seria simplesmente uma negação à autenticidade pessoal: ingrediente tão essencial a um comediante stand-up.
Rock efetua um verdadeiro passeio pela cultura contemporânea e sobre ela divulga opiniões nada idiossincráticas, já que se diferenciar da plateia nunca foi o escopo do comediante; Chris faz observações ponderadas e sensatas, mas não menos reveladoras e engraçadas. Emplaca uma rotina hilária sobre strippers e clubes de strip – em que evoca o suposto e muito provável amigo viciado em clubes de strip que todos temos – e nesta chave já observa dois muito interessantes traços culturais que circundam o assunto: primeiro, o comentário modístico sobre a suposta convenção de que stripers agora só usam saltos transparentes; segundo, o mito de que todas as mulheres que se tornam strippers o fazem com a finalidade de bancar a faculdade. “Se há tantas strippers na universidade, porque é que eu nunca recebi uma lap dance inteligente?” – um arremate, este sim, inteligentíssimo!
A música não é poupada, como parte fundamental da cultura, e nada mais pertinente para Rock do que falar sobre rap music, comparando a de atualmente com aquela do passado, e revelando que, apesar de ainda gostar dos raps de hoje em dia, está cansado de defendê-los, já que as letras não mais o ajudam. Rock reproduz os trechos mais vulgares e polêmicos da rap music para demonstrar seu ponto (o patamar de “vulgaridade” e “indecência” das letras que cita e imagina rivaliza com os funks cariocas que aqui temos), além de também comentar o tratamento da mulher nas músicas em questão, observando que, apesar do teor misógino das letras, as próprias mulheres que aderem à música somente se importam com o ritmo. “Desde que a batida seja boa ela dança a noite inteira.” – e não é que é verdade? Numa contemporaneidade cultural onde aquilo que é primal, estimulante e sensorial se sobressai cada vez mais no lugar da digestão reflexiva e intelectual dos produtos artísticos, Chris Rock foi muito feliz em sua observação.
Sucede que, ao falar da rap music, Rock abarca em seu comentário crítico aqueles que a fazem e aqueles que a consomem, mas logo também agrega a política ao todo e lança a seguinte afirmação: “O governo dos Estados Unidos odeia rap. Sabem por que é que digo isso? Porque não prendem quem mata rappers”. Uma observação que rende outras pequenas observações bastante hilárias, mas que estão principalmente imbuídas por uma crítica étnica de extremo sentido que automaticamente eleva a pertinência social do stand-up de Rock e o fortifica como voz de uma cultura. Em meio ao discurso, o comediante ainda toma uma rápida via em direção aos vícios culturais na observação que faz sobre o fato de que todos os anos o rapper assassinado Tupac Shakur regressa dos mortos, porque a cada ano lançam um novo disco póstumo do músico com supostas revelações subliminares sobre seu ainda incógnito assassinato – esta passagem ganhou teor profético, corroborado pelo ressuscitamento holográfico de Tupac pouco tempo atrás. Mas o que isso prova mesmo, afinal, é a forte razão do comediante sobre certos pontos gastos da cultura contemporânea.
Algumas piadas, referentes a alguns eventos do ano de 2004 – como todo o caso do tribunal de Michael Jackson – podem soar datadas ou até gastas demais desde o ano de gravação deste especial. Mas, em geral, são consistentes, e também consonantes à parte da cultura que é mais interessante a Rock e seu público habitual – a comprida passagem que o comediante destina para falar de toda a família Jackson, a começar por Michael, não deixa de ser pertinente. E, entrando na questão das celebridades e do entretenimento, Rock até mesmo comenta sobre o ilusionista David Blaine, fenômeno à época do especial, que basicamente conquistava grandes audiências com seus desafios nada dignos da arte da prestidigitação. “Onde está o truque?”, pergunta Rock. Onde está o truque em se enfiar numa caixa e ficar sem comer? “Isso não é nenhum truque, isso se chama viver na favela!”, retruca o comediante.
Diferenças de cor, guerra, aborto e drogas são tópicos corriqueiros, que pulsam nas discussões de muitos norte-americanos e de cidadãos de outras nacionalidades. Chris Rock sente como se devesse trazer estes mesmos tópicos à mesa, porquanto sabe que tem variedade a oferecer, justo porque é aquele que, indubitavelmente, no âmbito da comédia stand-up, representa com mais força e afinco o setor da cultura onde cresceu e ainda está inserido. A universalidade temática e de estilo é tão preocupante para Rock quanto o estreitamento de sua comédia para o público negro. Ao mesmo tempo em que trata de questões abrangentes, não se esquece de delinear as particularidades referentes ao seu grupo, sempre se atendo a um viés unificador e suavemente crítico. É por isso que a parte final deste seu especial é tão preciosa: é onde o comediante deixa de lado demais temas e se foca na comédia de relacionamentos amorosos, forte marcante do humor de Rock e, com certeza, o que tem de mais universal na vida humana. Se temos e celebramos comediantes que se firmam à margem, que fogem do comum, é porque só as vozes mais apropriadas dão conta do que é mais universalizado e corriqueiro na cultura popular – e Rock é uma das vozes mais apropriadas da comédia popular.












