1 Contra 100

Game Shows são quase um tabu no SérieManíacos. Assistimos a Who Wants To Be A Millionaire? às escuras, um ou outro colunista admite ter ouvido falar de Are You Smarter Than A 5th Grader? e, em geral, quase ninguém via o original americano 1 Vs. 100. Eu, contudo, acompanhava e curtia bastante. Vamos então conversar sobre a estréia do novo programa do SBT, 1 Contra 100 com Roberto Justus.

Acredite: gostar de 1 Vs. 100 é fácil. O difícil mesmo era tolerar uns engraçadinhos que perguntavam se era o equivalente americano do antigo Todos Contra Um. ¬¬² Não era. O formato original já não é mais exibido pela grade da emissora NBC, menos em virtude da qualidade ou audiência do programa em si e mais por razões de reestruturação da imagem da emissora (ou não. NBC…). Um conjunto de bons atributos tornam 1 Vs. 100 bem interessante. Vejamos no que se assemelha à versão brasileira.

O grande chamariz do programa é a batalha épica que se cria na mente dos telespectadores com o título 1 Vs. 100, em que um participante e três ajudas enfrentarão toda uma multidão de concorrentes por um prêmio em dinheiro. O número de participantes não é diferente entre Estados Unidos e Brasil. Alguns aspectos com relação à multidão, contudo, foram sutilmente adaptados.

Primeiramente, senti  de imediato a falta de tomadas vindas do canto superior direito do painel em direção à platéia do outro lado, sempre que o apresentador anuncia o número de pessoas restantes – era uma imagem tradicional do programa, e deixava os telespectadores na ponta dos pés.

O outro diferencial é o nome dado ao grupo das 100 pessoas – galera. Galera é um nome que procura, e nisso eu dou crédito à produção do programa no SBT, refletir o termo mob usado nos Estados Unidos para identificar a coletividade dos cem competidores, além de combinar com o termo “grana”. Eu apenas sugeriria que um outro nome fosse utilizado (multidão, por exemplo, em paralelo a dinheiro, uma possibilidade), e vou explicar o porquê. No original americano, eu sentia uma conexão entre o apresentador (Bob Saget, do clássico seriado Full House), a ênfase tranquila que ele dava ao nome mob e o público-alvo do programa, que acredito eu ser um tanto quanto diferente do brasileiro, tanto por margem de horário de exibição quanto por diferenças socioculturais mesmo. Um host como o Roberto Justus pareceria mais à vontade, ao menos na mente do telespectador, falando o termo “multidão”.

Sobre o apresentador, gosto bastante do trabalho do Roberto dentro e fora da televisão – no comando de 1 Contra 100, tem um ótimo domínio da atenção do público e do programa como um todo. Apenas acredito que faria bem ao Roberto uma abordagem um pouco diferente. Essa diferença se reflete em sutilezas: no momento em que ele perguntou a um dos competidores do painel o motivo de ter errado a resposta a uma das questões, o rapaz disse que se enganou na hora de responder. Quando o Roberto falou “Ah, se enganou, né?”, eu senti um tom eminentemente O Aprendiz, o que poderia ser evitado ou com uma complementação no sentido de agradecer a participação do indivíduo ou com um comentário engraçado, como “mas Brasil, ele se enganou!”. Noutra ocasião, ao dizer para o participante pensar em voz alta, o Roberto deu alguns passos para além da linha que o Regis Philbin, por exemplo, no comando de Who Wants To Be A Millionaire?, procura não ultrapassar – há um tom amigável e interessado na voz do Regis. Ao ouvir o Roberto, percebi uma preocupação com o andamento do programa, o que é algo perfeitamente normal (só precisa ficar sempre suspenso na cabeça dos que acompanham em casa).

Por fim, detalhes estruturais do programa brasileiro acertaram, em sua maioria, na mosca. A música, as imagens, o próprio cenário – que ficou bem chamativo, quase opulento -, tudo me pareceu de muito bom gosto. Sendo mais criterioso, eu gostaria de ter visto umas duas ou três imagens de pessoas na platéia e suas reações (duas ou três mesmo) e preferiria o telão ao lado do painel, porque daí aquela tomada do canto superior direito para baixo teria mais elementos a mostrar. No mais, gostei um bocado da estréia e sugiro uma pitada de reformulação em algumas perguntas, que poderiam trazer mais dúvidas em estágios anteriores da competição (por exemplo: ao invés de perguntar que estados da região Sudeste não podem abrigar uma competição do circuito mundial de surfe, poderia-se questionar quais estados da mesma região não podem abrigar uma competição esportiva de Iatismo, e a resposta seria nenhum, partindo do pressuposto de que é possível realizar competições certificadas pela ISAF em águas fluviais).

E vocês, caros e fiéis leitores? O que acharam da estréia de 1 Contra 100? Comentem, s’il vous plaît.

P.S.: Pra quem tiver interesse de conhecer o original americano, existem alguns vídeos de episódios no YouTube. Os meus favoritos são os de uma edição especial do programa, chamada 1 Vs. 100: Last Man Standing, que reuniu no painel vencedores de Who Wants To Be a Millionaire, Jeopardy, professores de física quântica, membros do MENSA e participantes campeões do próprio programa (como a Sister Rose e a minha queridíssima Annie Duke). O vídeo da primeira parte desse especial você confere aqui.

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