
Procura-se um butt guy.
Até agora, cada um dos seis amigos, com exceção do Joey, haviam recebido um momento de destaque nos episódios. O que é perfeitamente compreensível, visto que estamos no início da jornada, e ainda trabalhando na apresentação dos personagens, então leva tempo até que todos tenham o seu lugar ao sol. Bem, agora, chegou a vez do Joey, ou pelo menos, de uma parte do Joey.
Logo no piloto, a sua fracassada carreira de ator foi mencionada e aqui é um pouco melhor abordada, como vimos na sua grandiosa apresentação para uma dúzia de pessoas, entre elas, os amigos, que estavam lá apenas para dar apoio moral. Esse evento levou a um dos momentos mais divertidos do episódio. A cena da gravação do primeiro grande papel de sua vida – ser dublê das nádegas do Al Pacino – faz rir justamente por se tratar de algo extremamente simples e que exigia o mínimo de esforço possível, mas que apenas alguém como o Joey conseguiria estragar por “atuar demais”.
Outra consequência da peça que abre o episódio foi o encontro do Chandler com uma mulher demasiadamente liberal. Nessa trama, Friends já mostra como domina as características que está desenvolvendo para seus persoagens, pois se qualquer outro personagem enfrentasse uma situação parecida o efeito não teria sido o mesmo. O relacionamento proposto por ela funciona comicamente por ser de um nível de bizarrice altíssimo e por ser uma oportunidade em um milhão de alguém como ele ficar com alguém como ela. Mas como era de se esperar, essa relação não dura muito, porém durou o suficiente para nos divertirmos com as reações do outros cinco, principalmente, quando o Chandler falou sobre o primeiro encontro. O pouco conhecimento que temos das personagens já é suficiente para que comentários como o do Ross ao revelar que aquele tipo de relacionamento era também sua fantasia tenham êxito por ir de encontro tanto às nossas expectativas quanto às das personagens.
Ross, aliás, que vinha recebendo bastante atenção do roteiro, teve que abrir espaço para que os outros personagens pudessem ser desenvolvidos, mas o ótimo David Schwimmer não desperdiçou as oportunidades que teve de aparecer, o mesmo vale para Lisa Kudrow. Destaque para os dois nas piadas envolvendo o papel que o Joey – ou ex Butt Guy – quase conseguiu. Com três tramas ocorrendo paralelamente, Rachel e Ross, que dividiram várias cenas, não tiveram nenhum momento a sós nesse episódio, o que é um pouco estranho, tendo em vista que no episódio passado eles se aproximaram bastante. Então ao que parece, um eventual futuro relacionamento amoroso entre dois vai ser construído gradualmente.
Rachel foi a responsável pelo acontecimento que proporcionou a melhor cena do episódio, pois, ainda que suas intenções tenham sido as melhores, já que ela fez a faxina para mostrar como está mudando e que é uma pessoa responsável, Monica não ficou muito feliz. E como se não bastasse esta ter surtado com as mudanças que lhe desagradaram, os amigos ainda fizeram o que todo bom amigo faz quando sabe que algo incomoda o outro: provoca ainda mais. Alguns episódios atrás, foram mencionados traços da personalidade de cada um que incomodavam os outros, e aqui a obsessão de Monica por limpeza e organização foi mais explorada e acabou por constituir a cena mais engraçada dos vinte minutos. É sempre uma decisão acertada dos roteiros de comédia apostar nas características mais marcantes dos personagens para gerar cenários engraçados – um outro exemplo disso é o pedantismo do Ross. Outro motivo para que essa tenha sido a melhor cena de The One With The Butt é que foi a subtrama que reuniu a maior parte da turma, o que mostra quão boa a dinâmica do grupo é e que, especialmente no início, enquanto não somos completamente familiarizados com os personagens, deixá-los juntos é a melhor maneira de obter sucesso, como também vimos na cena em que todos caçoam da tentativa do Ross de dar suas explicações antropológicas.
Com situações tanto inusitadas quanto divertidas, Friends faz seu melhor episódio até agora e o único aspecto que pode gerar críticas é que a série não nos dá pistas de para onde está indo, ou de que rumos pode tomar. Até mesmo por possuir uma premissa extremamente simples: mostrar as aventuras e desventuras de um grupo de amigos, sem um propósito maior por trá, o que não chega a ser um grande problema em se tratando de sitcoms.














